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Entrevista com Cyro Garcia sobre o Congresso da CSP-CONLUTAS

No último final de semana ocorreu o Congresso da CSP-CONLUTAS em São Paulo. As resoluções congressuais aprovadas causaram polêmica na esquerda, sobretudo as que tratavam da Campanha Lula Livre e da conjuntura internacional. Para falar do Congresso da CSP-CONLUTAS, o VOZ DA RESISTÊNCIA entrevistou Cyro Garcia, militante da CENTRAL e dirigente histórico do PSTU.

Voz da Resistência: Que avaliação fez a central sobre a atual conjuntura do mundo do trabalho e a resistência dos trabalhadores?

Cyro Garcia: A crise mundial do capitalismo aberta em 2007 não se fechou. Para tentar retomar a taxa de lucros dos grandes grupos econômicos e financeiros, o imperialismo e as burguesias nacionais, através de seus diferentes governos, sejam eles de “direita’ ou de “esquerda”, desatam uma guerra social contra a classe trabalhadora no mundo inteiro, rebaixando salários e direitos, aumentando a pobreza e a desigualdade, além de gerar uma forte crise migratória e ambiental.

O mecanismo da dívida pública sufoca os países e vem junto com a destruição dos serviços públicos, privatizações, redução de direitos sociais, aumento da precarização e desemprego, ataques aos direitos sindicais e a sistemática repressão aos movimentos sociais e estudantis.

Em contrapartida, por todo o planeta a classe trabalhadora resiste e enfrenta esses ataques com greves e protestos. Recentemente na França vimos o movimento dos coletes amarelos que ganhou força nas ruas de todo o país. As mobilizações em curso na Argélia e no Sudão. A resistência palestina ao estado sionista de Israel. Os protestos em Hong Kong contra o autoritarismo do governo chinês. Neste momento as grandes mobilizações no Equador, que estão acuando o governo de Lenin Moreno.

Há uma polarização em todo o mundo e o caráter histórico dessa crise exige uma saída estratégica pela defesa da independência política frente aos governos capitalistas (incluindo os de colaboração de classes) no mundo inteiro.

Voz da Resistência: Qual o balanço que se pode fazer desse 4° Congresso da CSP CONLUTAS?

Cyro Garcia: A classe trabalhadora e suas lutas contra o capitalismo geram importantes ferramenta de organização. A CSP-Conlutas é uma expressão de organização sindical e popular no Brasil, ainda minoritária, mas que cumpriu um importante papel na organização da luta contra os ataques do governo de Frente Popular encabeçados pelo PT e hoje na resistência contra o governo de ultradireita de Bolsonaro.

O Congresso teve a cara do nosso povo, com uma grande participação de negros da periferia, quilombolas e indígenas, sendo bastante vitorioso. Contou com a participação de cerca de 2.300 pessoas, durante 4 dias. Foram 1.591 delegados, 234 observadores, 59 convidados, 61 membros de delegações internacionais, 286 pessoas da equipe de imprensa, apoio e expositores, mais 53 crianças na creche.
Saímos dele preparados, com muita garra e disposição de luta, para organizar os trabalhadores da cidade e do campo, o povo pobre, setores oprimidos (mulheres, negros, LGBT’S, indígenas), juventude, para enfrentar os ataques de Bolsonaro e defender nossos direitos.

Voz da Resistência: Qual a relação que a CSP CONLUTAS pretende ter em relação as demais centrais?

Cyro Garcia: Seguir a batalha pela frente única para lutar como uma necessidade premente da classe trabalhadora. Unir as centrais sindicais na superestrutura, e desde os locais de trabalho e de estudos, nos bairros da periferia e regiões rurais, unificar as lutas dos trabalhadores da cidade e do campo, movimentos sociais, organizações de juventude e dos setores oprimidos.

A unidade para derrotar a extrema direita deve ser forjada com independência de classe. Precisamos derrotar, já Bolsonaro/Mourão nas ruas, apostando na ação direta e construção de um calendário de lutas que mobilize nossa classe com o objetivo de construir uma nova greve geral, ao passo que também aponte uma saída anticapitalista e por fora dessa democracia dos ricos, sem nenhuma submissão ao calendário eleitoral.

Voz da Resistência: Já causa certa polêmica a deliberação sobre a temática Lula livre. As revelações da Vaza jato não foram suficientes para mudar a posição da central sobre o processo que prendeu Lula?

Cyro Garcia: As revelações do Intercept não são atestado da inocência de Lula ou dos governos do PT, embora elas revelem que Lula tenha direito a rever seu processo legal e um novo julgamento. A comprovação da seletividade da Operação Lava Jato não implica na adesão, apoio ou participação na campanha Lula Livre, cujo objetivo é dar um atestado de inocência a Lula e aos governos do PT, bem como a defesa da impunidade. É ainda uma campanha eleitoral que visa resgatar um programa de conciliação de classe e manter a polarização Bolsonarismo X Lulopetismo, tentando subordinar todo movimento social e político a esta lógica.

Voz da Resistência: Causou surpresa a reação frente a resolução sobre “Lula Livre”? Não era esperado tal deliberação? A que se deve a reação de parte dos petistas?

Cyro Garcia: O que nos causou indignação foi a deturpação da resolução aprovada no Congresso feita por um participante do mesmo para fomentar uma campanha de calunias contra a nossa Central. A CUT e o PT têm todo o direito de fazer sua campanha, mas o que não pode é tentar impor que todos os setores do movimento façam parte dela, pois isto divide e enfraquece a luta dos trabalhadores.

Voz da Resistência: Qual a avaliação que a central fez da Lava jato?

Cyro Garcia: A Operação Lava Jato, que ganhou notoriedade perante a maioria da população, é tão corrupta quanto os setores que dizia combater. Na pratica, a Lava Jato tem seus bandidos de estimação. Mensagens e áudios mostram que a operação se negou a investigar os bancos, impediu a delação de Eduardo Cunha, livrou a cara do PSDB. A entrada de Sergio Moro no governo Bolsonaro, autoritário e alvo de indícios de corrupção, desmascarou seu suposto combate a corrupção, bem como de seus procuradores que se esmeraram em atacar desafetos políticos, notadamente o PT e Lula.

Voz da Resistência: O que diferencia a tática proposta pela CSP-Conlutas para enfrentar o fascismo da tática proposta pelo petismo?

Cyro Garcia: A CSP-Conlutas deve reafirmar sua não participação e total independência em relação a frentes que tem objetivos frente-populistas. Não podemos reeditar o projeto de conciliação de classes do PT e suas variantes defendidas pelas frentes eleitorais Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo. É um erro apostar na estratégia da eleição de um governo do “mal menor” em 2022. As lutas da nossa classe devem ser guiadas para a ruptura com o sistema capitalista e suas instituições.

Voz da Resistência: A oposição diz ter pouca margem para mediações com a maioria da central. Qual a sua opinião sobre essa reclamação?

Cyro Garcia: A nossa central desde o seu início pautou seu debate pela representação das entidades e não pelas correntes políticas que a integram. Neste sentido sempre procurou garantir o mais amplo debate interno, garantindo o pluralismo próprio dos movimentos sindical e popular, aliado ao método da democracia operaria. Só neste congresso foram apresentadas 15 propostas globais sobre os mais diversos temas da pauta.

Faz-se o debate da maneira mais ampla possível, mas se as divergências persistem recorre-se ao método da votação. Acho que existe um vício em muitas entidades sindicais que é o da busca permanente pelo consenso, como se a clarificação das divergências fosse algo ruim para o movimento. Desde que se garanta a democracia nos debates, creio que as mediações possíveis vão se estabelecendo.

Voz da Resistência: A posição contra o Lula livre não pode dificultar ainda mais o diálogo da central com as parcelas dos trabalhadores ainda sob a hegemonia da CUT e da CTB?

Cyro Garcia: Como disse anteriormente, a CUT e a CTB têm todo o direito de fazer campanha pelo Lula livre, porém não podem exigir que o conjunto do movimento seja atrelado a esta campanha. Este eixo de campanha divide o movimento e enfraquece nossas lutas contra este governo reacionário de ultradireita.

Voz da Resistência: O congresso aprovou um plano de lutas. Qual o eixo?

Cyro Garcia: Insistir no chamado a unidade para lutar com base na independência de classe para derrotar já Bolsonaro/Mourão nas ruas, apostando na ação direta e construindo um calendário de lutas que mobilize nossa classe com o objetivo de construir uma nova greve geral. Ao mesmo tempo apresentar um programa que atenda às necessidades imediatas e históricas da classe trabalhadora da cidade e do campo, dos setores explorados e oprimidos, que garanta a defesa dos direitos sociais e trabalhistas, emprego, salario, aposentadoria, moradia digna, terra para trabalhar, direito ao território, igualdade aos negros, mulheres, LGBTs e imigrantes, fim das queimadas, desmatamento e garimpo na Amazônia. Demarcação das terras indígenas e quilombolas. Contra a repressão e censura, defesa intransigente do direito de organização, manifestação e greve. Repudiar qualquer declaração de apoio a tortura e repressão aos lutadores. Pelo fim imediato do pagamento da dívida pública (interna e externa).

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