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O receituário neoliberal e os protestos no Equador: muito além dos combustíveis

Por Felipe Werminghoff*

O Equador atravessa uma profunda crise política e econômica. Nos últimos dias, manifestações indígenas e sindicais vêm tomando as ruas equatorianas, em protesto ao corte do subsídio estatal aos combustíveis, que custa 1,3 bilhões de dólares ao ano. A intensificação dos confrontos entre manifestantes e a polícia resultou em um Estado de exceção decretado pelo governo e na consequente transferência de capital de Quito, nos Andes, para Guayaquil, no litoral do país. 

A medida de corte nos subsídios aos combustíveis tem como pilar a redução do déficit fiscal do Equador. Em uma concessão ao Fundo Monetário Internacional (FMI), o país adota uma política de austeridade em troca de um empréstimo no valor de 4,2 bilhões de dólares. Esse contexto indica uma submissão ao receituário neoliberal imposto pelos organismos financeiros internacionais e acarretou em elevações de 120% no preço dos combustíveis. 

O presidente Lenin Moreno afirma que a manutenção dos subsídios, introduzidos na década de 1970, são inviáveis economicamente e se mantem irredutível quanto a medida. O discurso de um “Estado inchado” serve para legitimar a agenda neoliberal e fazer o povo sangrar através de um ataque ao seu bem-estar e necessidades básicas. Seguindo o modus operandi da guinada conservadora da América do Sul, acusa seu antecessor, o progressista Rafael Correa, e Nicolás Maduro de estarem por trás dos protestos.

Diante da crise instaurada no Equador, a esquerda precisa ser crítica em relação ao governo anterior, de Rafael Correa. Embora desenvolvimentista e progressista, suas políticas predatórias e moderadas entraram em conflito com a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (CONAIE). Na conjuntura atual, o povo indígena demonstra, mais uma vez, sua capacidade de articulação e resistência frente aos ataques neoliberais direcionados à população equatoriana. 

A perversa austeridade, aplicada com maestria por Macri na Argentina e defendida por Paulo Guedes para o Brasil, está dentro de uma ruptura histórica marcada pelo eclipse do progressismo na América do Sul. O povo indígena e equatoriano nos deixa a lição de que as lutas se dão, em paralelo, por dentro da institucionalidade e nas ruas. Só a multidão mobilizada tem força política para reverter a onda conservadora que assola o subcontinente americano e tomar a dianteira na construção de uma nova esquerda, mais radical, democrática e popular.

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL

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