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Salve, salve, Canudos!

Por Wanderson Pimenta*

“Moreira Cesar
Quem foi que te matou?
Foi a bala de Canudos
Que o Conselheiro mandou
Capitão Moreira Cesar
Chama-se “corta-pescoço”
Veiu agora nesta guerra
Deixar no sertão o osso”
“Os urubus de Canudos
Escreveu ao Presidente
Que já tão de bico fino
De comê carne de gente
As mulheres de Canudos
Guerream com agua quente
Os meninos com pedradas
Fazem voltar muita gente.”

(Cancioneiro Popular de Canudos)

Em 5 de outubro de 1897, há exatos 122 anos, conforme a narrativa oficial, o exército brasileiro entrava triunfante no arrasado Arraial de Canudos, no sertão baiano. Ali, pouco antes do passeio em júbilo, o que a história dos vencedores omite é o assassinato frio e bárbaro e centenas de idosos, mulheres e crianças, que se entregaram sob a falsa promessa de terem as suas vidas poupadas pelo “glorioso” exército brasileiro. Tiveram o destino dos milhares de combatentes brasileiros que morreram naquelas terras áridas.

Sim, brasileiros eram os milhares de sertanejos mortos em combate em Canudos. Outros foram enviados para lá sob a mentirosa percepção de estarem em combate contra fanáticos monarquistas, com a promessa de ganharem suas casas quando retornarem à capital da então jovem República, mais uma promessa não cumprida que daria origem a ocupação do morro atrás do Ministério do Exército no Rio de Janeiro, a “primeira favela” do Brasil, no chamado Morro da Providência, ocupada pelos ex-soldados.

As origens de Canudos são relativamente conhecidas. Antônio Conselheiro, pregador solitário dos confins do sertão do nordeste, já guiava centenas de famílias por léguas e léguas afora. Seus passos já eram conhecidos desde o início dos anos 80 do século XIX.

Segundo Rui Facó, autor de “Cangaceiros e Fanáticos”:

“DURANTE OS VINTE ANOS EM QUE o Conselheiro perambulou pelos sertões do Nordeste, tornando-se famoso em publicações fora da área nordestina, na própria capital da República, enquanto um historiador da literatura brasileira, já em 1888, reproduzia trovas do cancio-neiro popular de Sergipe dedicadas a Antônio Conselheiro, nunca se cogitou de sua filiação política. Só foram descobrir seu apaixonado monarquismo quando ele pegou em armas para defender-se contra as perseguições de que começava a ser objeto.

Seu anti-republicanismo foi amplamente explorado pelos círculos governantes e pela imprensa quando se tratou de explicar o que parecia injustificável: um levante de pobres do campo nos sertões do Nordeste.” (p.83)

Portanto, Conselheiro enquanto apenas personagem pitoresco, um mero ermitão solitário, como dezenas de outros naqueles tempos, não chamava a atenção da política oficial. Aliás, sobre o seu suposto ideal monarquista, relevante destacar que não se tratava de algo isolado, já que centenas de políticos da nascente República eram oriundos do círculo próximo ao ex-imperador, muitos tendo o abandonado somente às vésperas da Proclamação da República em 15 de novembro de 1889.

Mas a revolta tinha conotações políticas mais profundas, longe de qualquer explicação ligeira que aponta misticismo ou um monarquismo clássico como motivações preponderantes:

“Os conselheiristas se rebelam contra a cobrança de impostos. Segundo Euclides da Cunha, o primeiro incidente do gênero ocorre em Bom Conselho, num movimentado dia de feira, quando estava reunida ali não só a população da localidade mas de suas redondezas. O Conselheiro manda arrancar os editais de cobrança de impostos e com eles faz uma fogueira em praça pública.

Isto é o que constitui, segundo parece, o ponto de partida da inculpação ao Conselheiro de uma atitude anti-republicana. Não há dúvida que neste gesto o chefe sertanejo traduz a rebelião declarada, a insubmissão daqueles que nada possuíam e ainda eram chamados a pagar impostos. E não por acaso faz o Conselheiro do combate aos impostos uma senha de proselitismo. Conquistava assim as simpatias não somente dos pobres, mas também daqueles que, possuindo uma nesga de terra e alguma reses, mal assegurando com isto o sustento da família, não podiam, de forma alguma, satisfazer absurdas exigências fiscais — os pequenos proprietários.” (FACÓ, p.87)

Tais fatos teriam ocorrido no ínicio da década de 90 dos anos de 1800. Há, aí, uma nebulosa trama que envolve um juiz supostamente desafeto do Conselheiro, conflitos políticos que marcavam o Estado da Bahia naquele período, o receio das oligarquias locais com a perda da mão de obra ou com o encarecimento da mesma, etc. O certo que nesse contexto nasceu e cresceu um vilarejo que chegou a ser considerado a maior povoação baiana depois de Salvador. A história da rebelião de Canudos se entrelaça com os fatos mais importantes daquele fim de século e que ajudariam a influenciar a história do Brasil dali em diante, como o fim simbólico da escravidão em 1888 e o ocaso do Império em 1889.

De acordo Clóvis Moura, “Descartar de Canudos o seu conteúdo social e político é esvaziá-lo daquilo que ele tem de mais importante e o motivo que justifica a sua permanência na história. Canudos conseguiu, através de uma ordenação política da sua produção equilibrar as contradições que poderiam existir na distribuição da sua renda interna. Com isto, os seus membros encontravam-se alocados em um universo no qual as suas necessidades materiais e espirituais eram satisfeitas e os pólos de diferenças entre os seus membros (indivíduos e grupos) eram muito pequenos e não chegavam a alterar o equilíbrio social.” (p.49)

O povo de Canudos enfrentou com êxito três expedições militares oficiais. Na quarta, a maior empreitada militar oficial desde a Guerra do Paraguai, Canudos sucumbiu, chegando, contudo, a levar vantagem em alguns momentos da luta que levou o próprio Ministro da Guerrra às proximidades do campo de batalha. Lutou, como diz o ditado popular, exemplo raro na história, até o “último homem”. Não se entregou. Preferiu “morrer de pé que viver de joelhos”. Modelo de estratégia militar popular, organização social sem Estado e vida sem miséria e opressão aquela experiência do povo brasileiro foi suprimida pela República centralizadora, oligárquica, elitista, militarizada e legalizada, cujas promessas democráticas se revelaram quimeras.

FACÓ, Ruy. Cangaceiros e Fanáticos, gêneses e lutas. Disponível versão em PDF https://www.marxists.org/portugues/faco/1963/03/cangaceiros.pdf, acessado em 13/06/18, às 19h.

MOURA, Clóvis. SOCIOLOGIA POLÍTICA DA GUERRA CAMPONESA DE CANUDOS: Da destruição do Belo Monte ao aparecimento do MST. 1ª Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2000.

*Wanderson Pimenta é advogado e militante do PSOL

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