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Sobre China e Manifestações em Hong Kong

Por Gilberto Maringoni

Eu sinceramente não tenho a menor ideia do que levou a Executiva Nacional do PSOL a apoiar um movimento que pode ter razões objetivas para se manifestar, mas que foi capturado pela lógica reacionária, colonial e imperial.

Sou um mero filiado e não tenho a competência e a cultura política dos dirigentes do partido. Sei que são pessoas sérias e responsáveis ou não estariam onde estão. Mas nunca tive notícia da realização de algum debate aprofundado sobre a Revolução Chinesa ou sobre a construção do socialismo naquele país no interior do partido.

Não entendo como um partido de esquerda se volta contra a mais exitosa experiência de construção de uma nova sociedade em toda a História. Colocar de pé um regime socialista num país periférico, multiétnico e quase feudal não é um passeio. Houve tentativas desastrosas – o Grande Salto Adiante e a Revolução Cultural – e um novo empenho, a partir da genialidade do principal dirigente chinês depois de Mao, que é Deng Xiaoping.

O país apresenta um poderoso projeto de desenvolvimento com soberania nacional em tempos de endurecimento das agressões imperiais. Faz do progresso tecnológico e da inovação industrial a pedra de toque de suas diretrizes. Deixou há muito de se uma plataforma de exportação de quinquilharias para se colocar no centro da arena global.

Constrói-se na China um socialismo que não abandona práticas de mercado, num tempo de aberta defensiva da esquerda revolucionária mundial. A China há pelo menos 13 anos inverteu o leme de sua economia de forma radical. O setor exportador deixou de ser o polo dinâmico da economia em favor da ampliação do mercado interno.
Essa ousada mudança ensejou – a partir de seu 17o. Congresso, em outubro de 2007 – a elevação do salário real em alguns ramos de atividades laborais em até 3 vezes, como atestado até pela Economist. O rendimento médio do trabalhador chinês é mais elevado do que a média da América Latina.

O problema de Hong Kong é extremamente delicado. Colônia britânica desde 1841, só foi incorporado à China em 1997. É uma das cidades mais caras do mundo – segue como enclave capitalista – e apresenta inúmeros desequilíbrios sociais. Um dos mais graves é o de moradia. Há tensões sérias, que se agravaram quando a China tentou fazer valer seu sistema legal – inclusive as leis penais – no território. Seria algo perfeitamente normal, que, no entanto, não é aceito por parte do movimento que se autodenomina democrático.

Se há razões objetivas para protestos – e o governo Chinês atendeu algumas das reivindicações, como uma institucionalidade legal própria na cidade. Contudo, o uso aberto de símbolos e bandeiras dos antigos colonizadores, a queima de panteões chineses e o pedido de auxílio a Donald Trump – não desautorizado pelas lideranças – mostram que o processo foi capturado pela direita, como ocorreu em mobilizações maciças em outras partes do mundo, desde 2010.

Volto a dizer: não tenho a menor ideia do que levou a direção do PSOL a abraçar tal causa. É algo que isola o partido de setores importantes da esquerda mundial e o faz se somar – involuntariamente! – às políticas conservadoras no plano global.

Socialismo não é sonho, devaneio ou utopia. Esse último conceito é estranho e danoso à política. Utopia, na obra de Tomas More era uma ilha idealizada, para a qual não existiam rotas ou caminhos. Não há como se chegar a ela.

O socialismo é obra de pessoas reais, no mundo real, sujo, feio e às vezes repugnante. É construção acidentada e dura, mas concreta e objetiva.

O anúncio deste ato em São paulo, na semana em que se comemoram os 70 anos da Revolução Chinesa é provocação rasteira. É algo que faz coro com as piores formulações coloniais e imperiais que se veem na mídia.

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