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Bolsonaro, Trump e OTAN: relações militares e diplomáticas em xeque

Por Felipe Werminghoff*

O Brasil foi designado pelos EUA um aliado prioritário extra-OTAN no dia 31 de agosto de 2019.  Até então, apenas a Argentina tinha esse status dentro da América do Sul. Na prática, essa designação permite que o Brasil tenha prioridade na compra de tecnologia militar, participe dos leilões de armamentos do Pentágono e organize cooperações bilaterais entre as forças armadas de ambos os países. A Colômbia, país historicamente alinhado a Washington, é um “aliado global” da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), o que permite sua participação em operações militares conjuntas.

Essa manobra de transformar o Brasil em um aliado prioritário extra-OTAN faz parte de uma promessa do presidente dos EUA, Donald Trump, e representa mais um símbolo da atual orientação da política externa brasileira, cada vez mais próxima da Casa Branca e distante dos países progressistas da América do Sul. No mesmo bojo dessa aproximação bélica com as potências ocidentais, Bolsonaro promete agilizar as negociações para que o país se torne membro da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Essa movimentação brasileira também tem respaldo de Trump e implica em uma liberalização econômica ainda maior por parte do Brasil. O reflexo dessa “abertura” comercial nós já sabemos: austeridade financeira na conta dos trabalhadores e venda de nossos ativos públicos.

A aproximação entre Brasil e EUA ganhou um elemento opositor nessa quarta-feira (25/09): os democratas. 16 parlamentares do Partido Democrata escreveram um documento que foi entregue a Câmara dos Representes, onde eles têm a maioria dos assentos. A carta pede que os EUA suspendam o status brasileiro de aliado prioritário extra-OTAN e impeça empréstimos brasileiros no Fundo Monetário Internacional (FMI) e no Banco Interamericano de Desenvolvimento. Essa movimentação significaria, concretamente, o fim do apoio estadunidense ao Estado brasileiro. A alegação democrata é de que o governo de Bolsonaro precisa ser monitorado e investigado por conta de desrespeito aos direitos humanos e também pelo descompromisso do país com questões ambientais sensíveis, caso das queimadas na Amazônia.

Os parlamentares democratas citam as arbitrariedades da Operação Lava-Jato, a desqualificação da eleição de Bolsonaro devido à prisão sem provas de Lula, o assassinato não resolvido de Marielle Franco, o aumento do desmatamento na Amazônia, o discurso do presidente brasileiro contra as terras indígenas e o recém-revogado Excludente de Ilicitude de Sérgio Moro. Em suma, a resolução aponta o desrespeito do Brasil a democracia, aos direitos humanos e ao meio ambiente.

Sabemos que essa movimentação dos democratas visa enfraquecer a figura de Trump, ainda mais pressionado internamente com a abertura de Impeachment no Congresso estadunidense. Bolsonaro, impopular fora do Brasil e cada mais sem apoio endógeno, toma um golpe originado da correlação de forças dentro da maior potência do mundo. Fica a lição de que o imperialismo não é um bloco coeso e age de acordo com interesses táticos dentro da conjuntura. Cabe a esquerda ser consciente das limitações externas contra o atual presidente, entender os reais interesses estrangeiros e ao mesmo tempo ter pragmatismo para catalisar os ataques direcionados ao governo federal. O desastroso discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU deixou sequelas.

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL

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