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O discurso de Bolsonaro na ONU e a política externa brasileira: breves apontamentos

Por Felipe Werminghoff*

Jair Messias Bolsonaro discursou pela primeira vez na Assembleia Geral da ONU, em Nova Iorque, nessa terça-feira (24/09/2019) pela manhã. Conforme a tradição, o Estado brasileiro foi o primeiro dentre os países a discursar. O propósito desse texto não é o de torturar nossos leitores através da análise de todas as barbaridades proferidas pelo presidente do Brasil. Focaremos, por recomendações
médicas e espirituais, apenas nas aberrações que tem relação com a atual política externa brasileira.

Em uma análise geral do discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU, fica nítida a falta de tato diplomático de nosso chefe de Estado e seu total descompromisso com a verdade. Em uma fala delirante e digna da Guerra Fria – com o devido respeito aos teóricos do período, o presidente brasileiro deu um show de desconhecimento do próprio país e usou e abusou de jargões como “socialismo”, “Foro de São Paulo”, “ditadura cubana” e afins.

Como era de se esperar, seu discurso demonstrou, mais uma vez, uma subserviência aos EUA, afagos ao governo israelense ultranacionalista de Benjamin Netanyahu e menções honrosas ao governo neoliberal de Maurício Macri (sim, esse mesmo, responsável pelo aumento da miséria na Argentina). Em medida desastrosa e alinhada com a Casa Branca, Bolsonaro, no início do ano, cogitou transferir a embaixada brasileira de Tel Aviv, capital de Israel, para Jerusalém, área internacional e terra santa para as três maiores religiões monoteístas do mundo. Embora tenha recuado desse suicídio diplomático e geoeconômico, o presidente brasileiro arranhou as relações do Brasil com o Oriente Médio e agora tentar recuperar a imagem do país na região.

A política externa brasileira para a América Latina e o Caribe segue a lógica de alinhamento a Washington. Macri e seu governo ultraliberal são exaltados pelo presidente brasileiro, mesmo com a piora alarmante dos indicadores socioeconômicos na Argentina. A Venezuela de Maduro é outro alvo de Bolsonaro, que citou Hugo Chávez (isso, o mesmo que ele já elogiou na década de 1990) e chamou o governo venezuelano de “fantoche da ditadura cubana”. Nos soa estranho que um chefe de Estado exaltador de Brilhante Ustra se preocupe, de maneira repentina, com os direitos humanos no país vizinho e não perceba a sede que a maior potência do mundo tem sobre a maior reserva de petróleo do mundo. No caso cubano, o governante brasileiro demonstra toda a sua ignorância acerca da famosa e reconhecida medicina cubana, de caráter preventivo, e o sucesso da atuação medicinal de Cuba em diversos Estados ao redor do mundo.

Ao mencionar o PROSUL, Bolsonaro deixa explicita a articulação conservadora na América do Sul da qual o Brasil faz parte. Esse fórum de discussão surge em contraposição a UNASUL, costurada por Lula, e deixa de fora os países sul-americanos que ainda guardam traços progressistas, casos de Uruguai, Bolívia e Venezuela, que sequer foi convidada a participar por ser considerada uma “ditadura”. Os governos liberais da região se uniram e formaram um grupo que simboliza o eclipse da centro-esquerda no subcontinente. Em seu discurso confuso e contraditório, enalteceu a costura do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia na mesma fala em que chamou Macron, presidente francês, de colonialista. Estranho estreitar laços com a Europa e entrar em rota de colisão com França e Alemanha de Merkel, duas economias de peso do “velho” continente.

Os atritos com França e Alemanha perpassam a questão ambiental e geopolítica da Amazônia Legal (área de soberania brasileira sobre a floresta). Esse ponto, sensível, exige cuidado na análise por parte da esquerda. Embora devamos defender uma Amazônia soberana, livre das garras do imperialismo, não podemos fechar os olhos para as atrocidades ecológicas do governo Bolsonaro, principalmente em seus discursos e propostas, e seu negacionismo científico. O resultado de seu desprezo pelos povos indígenas e seus apreços pelas fake News envolvendo ong’s, queimadas naturais e farsas nos dados do INPE é a tensão nos acordos de cooperação que o Brasil tem com outros países por meio do Fundo Amazônia. Essa postura representa um baque na imagem externa que a diplomacia brasileira construiu: a de um país comprometido com as energias renováveis e atuante nos fóruns ambientais, mesmo com todas as críticas que possamos e precisamos fazer ao nosso histórico econômico desenvolvimentista e predatório. Agora vivemos em um país que nega o aquecimento e tem um Chanceler que zomba da ciência por causa da existência de frentes frias.

Toda a construção do discurso de Bolsonaro na Assembleia Geral da ONU aponta para um aceno aos setores de extrema-direita do Brasil e do mundo. Ancorado no apoio aos EUA, na crítica a esquerda latino-americana e na retórica de combate a corrupção e a criminalidade, o presidente brasileiro buscou falar para os setores mais reacionários da sociedade internacional. Não houve nenhum pudor em destruir décadas de uma diplomacia brasileira reconhecida por sua atuação inteligente e respeitada no âmbito global. 

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e Militante do PSOL.


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