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O genocídio do povo negro: por que precisamos lutar por Ágatha?

Por Claudielle Pavão da Silva*

Foi na manhã de sábado, dia 21 de setembro de 2019, que recebi em minha rede social diversas reportagens sobre a morte de Ágatha Felix, no Complexo do Alemão, aos 8 anos de idade. Assim que soube, uma imagem tomou minha mente. Era a memória dos gritos desesperados dos familiares de Maria Eduarda, assassinada na escola onde trabalho, em Costa Barros, no dia 30 de março de 2017.

Não foi a primeira vez que essas recordações me tomaram e emocionaram. Ao longo desses últimos dois anos perdi as contas de todas as vezes que senti o ar faltar ao saber de crianças e jovens assassinados por essa política de extermínio bem sucedida no Estado do Rio de Janeiro. E infelizmente, o assassinato de Ágatha não será a última vez. Eu me incomodo com esta certeza, mas não podemos mais sustentar ilusões. O Brasil é um país de estruturas racistas. O histórico assassinato de pessoas negras – seja pelas vias da violência simbólica, ou pela violência armada – expressa um genocídio em curso que não é novidade. Hoje vivemos um momento de discursos explícitos sobre o uso da violência estatal, mas isso não quer dizer que o extermínio do povo negro nunca aconteceu como agora. Que o digam as Mães de Acari.

Há décadas, a população negra vem velando seus mortos- vítimas do Estado. E mais uma vez digo: não há nada de novo nisso. Mulheres morrem emocionalmente cada vez que precisam se debruçar sobre seus filhos e filhas manchadas de sangue. E a pergunta incômoda que precisamos fazer é: como acabar com esse ciclo? Como freamos a sede sanguinária do Estado por nossos corpos? Como podemos agir para impedir que meninas atletas sejam baleadas dentro das escolas? O que é possível fazer para que crianças não tenham que ser carregadas por seus avós ensopadas de sangue? De que maneira conseguiremos que as vielas das favelas do Rio de Janeiro não tenham poças vermelhas?

Acredito que o início da resposta tenha relação direta com reconhecimento do genocídio do povo negro. Sem isso, não avançamos. Não elaboraremos estratégias eficazes, e cairemos sempre nas mesmas armadilhas. Sabem quais armadilhas? A de pensar que a luta de classes é a única ou a primeira opressão a ser combatida. Num país como o Brasil, em que suas estruturas sociais se sustentam a partir da intersecção de diferentes opressões, a nossa luta é complexa e extensa.

Precisamos analisar os dados sórdidos que evidenciam a necropolítica em ação para a construção de diferentes e complementares frentes de luta. E o racismo precisa urgentemente ser considerado como um grande mal histórico que atravessa os séculos de existência deste país, e por isso precisa constar em nossa frente de luta.

Eu, Claudielle Pavão, mulher negra, professora da rede pública, manifesto meu repúdio aos discursos e ações de ódio que tem violentado e derramado sangue de pessoas negras em nossas periferias. E você, também repudia o mesmo que eu?

*Claudielle Pavão da Silva é Professora de História da rede municipal do Rio de Janeiro, doutoranda em História pelo PPHR/ UFRRJ

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