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Guerra civil no Iêmen: do imperialismo estadunidense à crise humanitária

Por Felipe Werminghoff*

O Iêmen, país mais pobre da região chamada pelos ocidentais de “Oriente Médio”, vive uma crise humanitária que, de acordo com a ONU, é a mais intensa do mundo na conjuntura atual e tem provocado a devastação do território e da população iemenita. Essa guerra civil apresenta raízes bem mais profundas do que a cômoda ideia de um confronto entre “rebeldes” e governo. Por detrás desse cenário estão a política interna iemenita, a disputa de influência regional entre a Arábia Saudita e o Irã e os interesses dos EUA no petróleo do Golfo Pérsico.

Figura 1: Localização do Iêmen e suas principais cidades.

Antes de entrarmos no contexto bélico e geopolítico dessa guerra civil, precisamos de alguns subsídios históricos básicos. Até 1990 existiam dois Estados iemenitas: o Iêmen do Norte e o Iêmen do Sul, socialista. Com a fim simbólico da Guerra Fria, o país se unificou e em 1994 emergiu o primeiro grande confronto, que culminou em uma tentativa de separatismo por parte dos sulistas. A Arábia Saudita, país sunita e wahabista – versão ortodoxa do sunismo -apoiou o governo e galgou influência política no país vizinho, fato que desagradou os zaiditas, de vertente xiita. O reflexo foi um novo confronto em 2004, entre os Houthis, facção adepta do zaidismo, e o governo, com sede na capital do país, Sanaa. Em uma ação das forças armadas, o líder rebelde Hussein Badreddin al-Houthi foi morto, fato que deu origem ao nome do grupo.

O ponto de inflexão da Guerra Civil atual vem de 2015, quando os Houthis e as forças separatistas do Sul entraram em confronto com o governo. O presidente do Iêmen, Abd Rabbuh Mansur Al-Hadi, se refugiou na Arábia Saudita e o poder estatal passou a ser concentrado em Áden, cidade sulista em que os houthis tentam obter o controle. Uma coalizão militar liderada pelos sauditas atacou os zaidistas iemenitas, acusados de terem apoio financeiro e tecnológico do Irã. Em 14 de setembro de 2019, os Houthis, por meio de drones, realizam um ataque aéreo contra a refinaria de Abqaiq, maior complexo petroquímico saudita e responsável pela produção de cerca de 10% do petróleo mundial. Com metade de suas atividades paralisadas, o mundo conviveu com o maior “choque” do petróleo desde o fim dos anos de 1980. Embora os zaidistas tenham reivindicado a ação, a Arábia Saudita – com anuência dos EUA – acusou o Irã como verdadeiro responsável pela ofensiva.

Fica claro que a crise humanitária do Iêmen é perpassada pela disputa de hegemonia regional entre as duas grandes potências do Oriente Médio: Arábia Saudita e Irã, ambos Estados teocráticos. O reino absolutista saudita é composto por árabes sunitas e wahabistas e tem nos EUA um grande aliado externo. Os iranianos, por outro lado, são persas, xiitas e apresentam uma forte hostilidade aos EUA desde a Revolução Iraniana de 1979, além de receberem, na maioria dos casos, apoio Russo e Chinês.  Esse conflito se desdobra nos demais países da região, dando origem a busca de sauditas e iranianos por influência bélica, diplomática e econômica sobre seus vizinhos.

A Arábia Saudita alega impactos em sua fronteira e lidera, desde 2015, uma coalização bélica contra o Iêmen. Tal posição acontece com apoio político e militar dos EUA, que continuam vendendo armas para a monarquia wahabista, mesmo com a crise humanitária iemenita e os alertas da ONU. O fortalecimento saudita no Oriente Médio é estratégico para os EUA: primeiro, é uma garantia de fornecimento de petróleo; segundo, culmina no enfraquecimento do Irã, país que vem sofrendo sanções por parte do governo de Donald Trump, reflexo do rompimento unilateral estadunidense do acordo nuclear entre os Estados. As guerras envolvendo os EUA não são nenhuma novidade, principalmente na Nova Ordem Mundial. No início da década de 1990 ocorreu a Guerra do Golfo e, após o 11 de Setembro de 2001, as invasões ao Afeganistão, no mesmo ano, e ao Iraque em 2003. Contudo, até hoje os EUA não conseguiram retirar suas tropas da região. O presidente republicano tentará a reeleição no ano que vem e sabe os custos econômicos e políticos de uma intervenção bélica, cenário ainda mais complicado por se tratar do Irã, país com território mais extenso e exército bem equipado.

Figura 2: localização estratégica dos estreitos.

O último elemento desse complexo cenário é a preocupação geopolítica que os EUA têm com as rotas de escoamento do petróleo. O Irã controla o estreito de Ormus, no Golfo Pérsico, e os Houthis tentam se estabelecer no estreito de Bab el Mandeb, que liga o Golfo de Áden ao Mar Vermelho. Caso os zaidistas consigam dominar a área, a economia dos EUA pode ser estrangulada pela dificuldade distribuição do petróleo.  A Guerra Civil do Iêmen não deve, portanto, ser analisada por meio de uma visão eurocêntrica, essencializada do “Oriente Médio”. É sedutor resumir a crise humanitária à um exemplo de radicalismo islâmico e esquecer a poderosa e histórica influência do imperialismo na região. O confronto envolvendo iemenitas, sauditas, iranianos e estadunidenses tem base política, geopolítica e econômica, indo muito além de um suposto identitarismo.

*Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL.

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