Opinião

As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor

Por Alê Costa*

“As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor” é uma canção do 3° álbum solo do artista baiano, terceira música do lado A do LP “Gita”. Das 12 músicas de “Gita” somente esta e outras 4 não são da famosa parceria de Raulzito com o escritor Paulo Coelho. Raul assina a letra sozinho do repente violado cujo trecho de baião fica sob a responsabilidade da “Turma de Jackson do Pandeiro”. As aventuras de Raul Seixas na cidade de Thor é um das músicas mais interessantes do emblemático LP lançado pela “Phillips”.

Primeiro que quem souber a razão da letra ter recebido esse nome morre ou manda uma mensagem pare este escriba. Mas eu gostaria de chamar a atenção para alguns aspectos que senão proféticos para o ano de 1974 gozam de impressionante atualidade. A questão ambiental, por exemplo:

“Buliram muito com o planeta. O planeta como um cachorro eu vejo. Se ele não guenta mais as pulgas se livra delas num saculejo”

Logo no início, contudo, uma sutil crítica ao sistema:

“Ta rebocado meu cumpadi como os donos do mundo piraram, eles já são carrascos e vítimas do próprio mecanismo que criaram…”

E mais:

“O monstro ‘Sist.’ é retado e ta doido pra transar comigo
E sempre que você dorme de touca ele fatura em cima do inimigo”

Alguns trechos, como este, avaliam opiniões que variam ao longo do tempo e que deixam de ser facilmente identificáveis:

“Hoje a gente já nem sabe
De que lado estão certos cabeludos
Tipo estereotipado
Se é da direita ou dá traseira
Não se sabe mais lá de que lado”

Por outro lado, o espanto com a tecnologia não é bem uma novidade da nossa época:

“A civilização se tornou complicada
Que ficou tão frágil como um computador
Que se uma criança descobrir o calcanhar de Aquiles
Com um só palito pára o motor”

Ademais, quem não sabe para onde vai não chega a lugar nenhum ou mesmo quem não sabe contra quem luta nunca poderá vencer:

“Tem gente que passa a vida inteira
Travando a inútil luta com os galhos
Sem saber que é lá no tronco
Que está o coringa do baralho”

Por fim, a posição do filósofo-poeta (e porque não do militante?) diante dos dogmas:

“Eu já passei por todas as religiões
Filosofias, políticas e lutas
Aos 11 anos de idade eu já desconfiava
Da verdade absoluta”.

Em síntese, Raul não foi profeta, nem anjo e nem demônio. No máximo, um visionário, como foi Policarpo Quaresma de Lima Barreto décadas antes. Um sujeito com sensibilidade suficiente para musicar e popularizar os dramas vividos pelas classes médias intelectualizadas dos anos 60 e 70 driblando de forma sublime a censura da ditadura militar.

O fundamental é que as grandes questões permanecem atuais. O poder, a política, as transformações, os dramas cotidianos e a sobrevivência do homem e da mulher. O dom da profecia raulseixista é justamente a sua capacidade de ano após ano teimar em permanecer atual.

*Alê Costa é escritor e filósofo.

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