Opinião

Geopolítica Ambiental e Floresta Amazônica: o que está em jogo?

Por Leandro Dias de Oliveira

I – Geopolítica é um campo de estudo cujo cerne é a análise dos movimentos espaciais enquanto expressões de poder. Seja sob os auspícios de governantes e autoridades militares, seja em meio às reflexões de intelectuais e cientistas, a investigação das relações entre território e disputas de poder envolvem estratégias de vigilância e controle, guerras e invasões diversas, acordos diplomáticos e pactos aduaneiros, conferências e protocolos de intenção, espraiamento tecnológico e aporte de recursos financeiros. O controle do uso das frações do território, da natureza-recurso e da própria bios humana ocorre de diferentes formas, por vezes pacífica, por vezes violenta.

II – Há muito Bertha Becker apontava que na geopolítica contemporânea o imenso potencial amazônico se conforma como um espaço privilegiado para atuação[i]. A autora apresentava a Amazônia como o coração ecológico do planeta devido a sua extensão de massa terrestre e florestal, à posição geográfica estratégica entre os blocos regionais e a sua destacada biodiversidade[ii]. A Floresta Amazônica é internacionalmente reconhecida, acima de tudo, devido a sua imensidão de oferta de natureza-recurso.

III – Utilizando como base a bacia amazônica, trata-se de cerca de sete milhões de quilômetros quadrados, dos quais mais de cinco milhões são cobertos por floresta tropical. É uma região composta por vários países, mas a maior parte da área florestal está no território brasileiro (60%), seguido do Peru com 13% e Colômbia com 10%; os demais países, como Venezuela, Equador, Bolívia, Suriname e Guiana, apresentam em seu território apenas uma pequena parcela da floresta. A Amazônia compreende mais da metade das vegetações florestais tropicais-equatoriais do planeta e abrange a maior biodiversidade existente, com um total de 390 bilhões de árvores de 16 mil espécies, além de quase um quinto da disponibilidade de água doce (17%) do mundo[iii].

IV – A Geopolítica do Desenvolvimento Sustentável é um projeto político de dominação territorial com base no controle das riquezas naturais, articulado por meio de mecanismos diplomático-protocolares, em particular das grandes conferências, como a Rio 92. Inserida no processo de reestruturação territorial-produtiva do capital, permitiu a adequação do discurso de “proteção da natureza” ao neoliberalismo econômico e sua celebração em escala planetária. A própria definição vaga de desenvolvimento sustentável como aquele que atende “as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades” [iv] cria lacunas e se torna um importante artifício ideológico[v].

V – Esta adequação do desenvolvimento despontou como novo padrão de organização econômico-social para todos os países (centrais e periféricos), baseado na proposta de uso racional das riquezas naturais para a satisfação das necessidades das gerações presente e futura. Combina os pressupostos conservacionistas oriundos do pensamento Gifford Pinchot, norte-americano nascido na segundo metade do século XIX que propugnava o uso racional da natureza enquanto recurso[vi], com um ensinamento da gestão de negócios chamado “Princípio da Precaução”, que foi acordado na Conferência Mundial da Indústria sobre Administração Ambiental, em 1984, e aceito no Protocolo de Montreal, em 1987, assim como na Reunião do G7 em 1989.

VI – Assim, em meio à barbárie que envolve queimadas, afrouxamento de leis, estrangulamento institucional e desestruturação massiva da agenda ambiental no Brasil, a preocupação da França com a Amazônia representa, em nossa opinião, o capitalismo racionalizado sob os moldes do desenvolvimento sustentável. Do lado de cá do tabuleiro, emerge a irracionalidade econômico-ambiental defensora do “desenvolvimento ilimitado”, que acaba conclamando como último refúgio a soberania, que neste caso respalda a destruição da floresta e o fausto do agronegócio, com a sojicultora, a extração desenfreada de madeiras e a formação de áreas de pastagens para pecuária extensiva em solo amazônico. Nesta defesa do território soberanizado, os povos tradicionais e os amazônidas em geral[vii] permanecem subjugados.

VII – A questão ambiental vive um momento difícil: de um lado, os defensores do “desenvolvimento ilimitado” promovem a ideia da natureza como obstáculo ao progresso e saúdam a poluição atmosférica, a construção de rodovias, o aquecimento global, os agrotóxicos em geral e a dissolução das reservas indígenas. De outro, o desenvolvimento sustentável ressurge como concepção avante garde e se reabilita cinicamente como fórmula de proteção da natureza[viii]. Tal enfrentamento, em tempos de “conservadorismo à brasileira”, também é tributário da verdadeira saturação dos debates acerca questão ambiental, pois especialmente desde a fracassada Rio + 20 e a celebração da Economia Verde a discussão sobre meio ambiente se tornou improfícua e chateadora para muitos. Isto se completa no tempo presente com a propagação absurda de que qualquer coisa fora do universo empreendedorismo-agregação de valor- monetarização deve ser desconsiderada.

VIII – Misoginia, inabilidade política e grosserias de toda natureza não apenas embrulham o estômago daqueles que não concordam em classificar primeiras-damas pela beleza (ou pela idade, para maior indignação), mas também promovem, para desespero daqueles do lado de cá do tabuleiro, a ideia de superioridade intelectual, diplomática e cultural dos países centrais. Trata-se, desta forma, de um completo desserviço sob qualquer viés geopolítico e ideológico.

IX – Por fim, em meio à barbárie e a uma verdadeira hipnose coletiva, espraia-se a suspeição sobre explicação de professores, cientistas e de instituições de pesquisa alarmados com os estragos na floresta, e aplaudem-se notícias falsas [as nefastas fake news], bem como comentários rápidos, rasos e ineptos de analistas de programas de rádio, youtubers de variadas e inacreditáveis procedências, ministros e políticos em geral, sempre com conclusões tão arrogantes e eloquentes quanto equivocadas na opção por relativizar os males do episódio. É por este motivo que as atuais queimadas na Amazônia causaram impactos ambientais, econômicos, políticos, diplomáticos e sociais, mas também conceituais, intelectuais e mesmo culturais. Assim, reforçando o que foi dito em “Uma nova (des)ordem ambiental contemporânea”[ix], vivemos, decididamente e cada vez claramente, tempos muito sombrios.

Leandro Dias de Oliveira é professor do departamento de Geografia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).


[i] BECKER, Bertha. Questões sobre tecnologia e gestão de território. In: Tecnologia e gestão de território. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ, 1988.

[ii] BECKER, Bertha. Amazônia: Geopolítica na Virada do III Milênio. Rio de Janeiro: Garamond, 2004.

[iii] OLIVEIRA, Leandro Dias de; GANZER, Carolina Nicácio; COLBERT, Caroline Rocha Travassos. Geopolítica da Amazônia: Notas sobre defesa das fronteiras, desenvolvimento sustentável e saberes florestais. In: STOYANOV, Petar; SIMEONOVA, Velislava. (Orgs.). Latin America: Space, society, economy. Sofia and Barcelona: St. Kliment Ohridski University Press, 2018, v. 1, p. 54-75.

[iv] BRUNDTLAND, Gro Harlem. COMISSÃO MUNDIAL SOBRE MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO – 1988. Nosso Futuro Comum (Relatório Brundtland). Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1988.

[v] OLIVEIRA, Leandro Dias de. Geopolítica ambiental: a construção ideológica do desenvolvimento sustentável (1945-1992). Rio de Janeiro: Autografia, 2019.

[vi] DIEGUES, Antonio Carlos. O Mito Moderno da Natureza Intocada. São Paulo: HUCITEC, 1996.

[vii] PORTO-GONÇALVES. Carlos Walter. Amazônia, Amazônias. São Paulo, Contexto, 2001.

[viii] OLIVEIRA, Leandro Dias de. Desenvolvimento ilimitado? A questão ambiental contemporânea sob a ótica da geografia econômica. In: OLIVEIRA, Floriano José Godinho de; OLIVEIRA, Leandro Dias De; TUNES, Regina Helena; PESSANHA, Roberto Moraes OrgS.). Espaço e economia: geografia econômica e a economia política. Rio de Janeiro: Consequência, 2019, p. 219-244.

[ix] OLIVEIRA, Leandro Dias de. Uma nova (des)ordem ambiental contemporânea. Voz da Resistência, 29 de dezembro de 2018. Disponível em: https://www.vozdaresistencia.com.br/2018/12/29/uma-nova-desordem-ambiental-contemporanea/.

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