Caio TeixeiraColunas

Os invisíveis

Por Caio Teixeira

Quem tenta mudar o mundo ama a vida acima de tudo e coleciona contratempos, feridas, cicatrizes e anos de prisão, quando sobrevive.

A forma como vivemos e nossos valores são a expressão média da sociedade em que vivemos. Ou você é feliz com pouco, pois a felicidade está dentro de você, ou não consegue nada. Isso não é uma a apologia da pobreza, mas da sobriedade. Só que vivemos em uma sociedade de consumo, consumista e a economia tem que crescer ou não se vai bem. O consumo é supérfluo, compra-se e descarta-se, assim, seguimos apenas gastando o tempo de vida.

Podemos viver com muito mais sobriedade, podemos acabar com o desperdício e os gastos inúteis e isso não é pregar que voltemos à viver nas cavernas. Podemos gastar nossos recursos com coisas realmente importantes para a sociedade. Nem estou pedindo aqui, o socialismo, isso é ser minimamente republicano, o que se perdeu na política.

Não se pode dizer que não há recursos. Não há governança política. Os governos estão preocupados com as próximas eleições, quem será o próximo governante. Estamos brigando pelo poder e esquecendo do povo e dos problemas mundiais. Não há crise ecológica mas há crise política. Chegamos a uma fase da civilização que precisamos de acordos globais. Mas ainda estamos presos a nacionalismos mesquinhos e falar isso não é defender os ataques dos países imperialistas contra a soberania dos países periféricos.

O desafio imposto pelas condições históricas (sociais e econômicas) e pelo imaginário político (fortemente conservador) nos exige ações voltadas para as carências e demandas das classes populares. Trata-se de definir políticas públicas para a saúde, moradia, educação, cultura, transporte, alimentação, estimular a organização das camadas populares aliada a prática da cidadania participativa.

É verdade que precisamos derrubar alguns mitos que estruturam a sociedade brasileira, o primeiro é o da não-violência. O Brasil mata, mata muito, mais que a Guerra na Síria. Foram 65.602 homicídios em 2017, com aumento da violência letal contra públicos específicos, incluindo negros, mulheres e LGBTI+. Mesmo assim, afirma-se que a nação brasileira é não-violenta e que, se houver violência, esta é praticada por gente que não faz parte da nação (mesmo que tenha nascido e viva no Brasil). Distingue e exclui os eles-não-brasileiros-violentos dos nós-brasileiros-não-violentos. Eles-violentos não são nós.

Portanto, nesse imaginário, a violência é acidental, um acontecimento efêmero, passageiro, uma epidemia, superável e que não mexe na nossa essência não-violenta. A violência fica restrita a criminalidade e seus agentes violentos são os pobres, negros e os favelados. O assassinato policial é considerado normal, uma vez que se trata de proteger o nós contra o eles. E tudo isso é disseminado nos meios de comunicação de massa no horário do almoço.

Outro mito que precisamos derrubar é o da violência atribuída só aos pobres, negros e favelados (considerados não-brasileiros). A violência precisa ser percebida como toda prática que reduza um sujeito à condição de coisa, de invisível, que viole o ser alguém, que perpetue a profunda e perversa desigualdade social e cultural. A violência que estrutura e organiza as relações sociais brasileiras, por não ser percebida, é naturalizada e assim conserva a mitologia da não-violência.

No Brasil, atravessamos periodicamente fases autoritárias como regimes políticos mas o autoritarismo não está presente apenas na forma do governo, mas na estrutura da própria sociedade brasileira, com sua desigualdade de renda que atingiu no primeiro trimestre de 2019 o maior patamar já registrado. O autoritarismo que esquece, ignora, sabota, bate de cassetete, da tapa e tiro na cara do nosso povo está interiorizado nos corações e mentes brasileiras.

É necessário estimular nos indivíduos, grupos e classes a percepção de que são sujeitos sociais e políticos de fato. Tornando evidente que carências, privilégios, exclusões e opressões não são naturais ou coisas do divino.

Fortalecer a cultura como um direito, na perspectiva da democratização da cultura e como direito à fruição, à experimentação, à possibilidade de não ser invisível, à informação, à memória e à participação é um caminho. A cidadania cultural tem como centro tornar visível um novo sujeito social e político que se reconheça como sujeito histórico. A cultura, a educação e a participação social são os campos das possibilidades no meio do caos.

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar