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Entrevista com Thiago José, brigadista internacionalista, sobre a conjuntura na Venezuela

da Redação

Entrevistamos por e-mail o advogado e militante do PCdoB Thiago José, que muito recentemente esteve na Venezuela em missão de solidariedade na Brigada Internacional Che Guevara. Os brigadistas ficam em contato com organizações populares venezuelanas e auxiliam o trabalho cotidiano dessas organizações, fortalecendo assim os laços de solidariedade entre os povos em luta contra o imperialismo.

Voz da Resistência: Thiago, o que é exatamente a Brigada Internacional Che Guevara? 

A Brigada Internacional Che Guevara é uma iniciativa da Assembleia Internacional dos Povos, na qual a última edição ocorreu em Caracas no começo deste ano, que envolve organização populares de todo o mundo. Nesse sentido, as juventudes de muitas dessas organizações mobilizaram um movimento internacional chamado “Juventudes em luta” para a criação de uma rede de solidariedade entre as lutas dos povos de todo mundo. Com a compreensão de que a principal batalha anti-imperialista hoje se encontra na Venezuela, essas organizações de juventude formaram as Brigadas Internacionais – com inspiração na experiência espanhola do século XX – para que jovens de todo o mundo pudessem conhecer um pouco sobre o processo revolucionário bolivariano e – igualmente – prestar a sua solidariedade. Essa foi a segunda edição da Brigada e contou com cerca de 70 jovens de toda a América Latina. O Brasil esteve representado pela União da Juventude Socialista, Levante Popular da Juventude, Pastoral da Juventude Rural e Movimento de Pequenos Agricultores. 

VdR: Em relação ao trabalho dos brigadistas, como é designado o que cada um vai fazer, para onde vai e quanto tempo irá ficar?

A coordenação internacional articula com os movimentos sociais venezuelanos a visita dos brigadistas. São movimento de trabalhadores que ocuparam fábricas abandonadas por multinacionais, de pequenos agricultores, de moradia/comunitário e movimento estudantil. A partir disso há o trabalho voluntário dos brigadistas para a criação do maior vínculo com os trabalhadores(as) venezuelanos(as). Nesta Brigada foram organizadas três rotas: uma para o oriente, outra para o ocidente e outra para a região central. O tempo da Brigada foi de 21 dias, sendo 5 dias em Caracas e os demais nessas rotas. 

VdR: Alguma coisa chamou sua atenção, algo que tenha te surpreendido, que não imaginaria encontrar em uma experiência de brigadista?

O que mais me chamou a atenção foi o carinho dos venezuelanos para os latinos americanos. Em geral, há uma grande lucidez e compreensão sobre o papel da integração dos povos e o desejo de formar a Pátria Grande sonhada por Bolívar. 

VdR: A mídia brasileira tem tratado a situação atual da economia venezuelana como um colapso completo, onde faltam gêneros mais básicos para população, com prateleiras dos mercados vazias e um mercado negro que faz explodir o custo da vida da população. Pelas cidades e bairros em que esteve, como você descreveria a situação do país?

Há uma guerra ocorrendo contra a Venezuela. Uma guerra midiática e, sobretudo, econômica. Perfis de redes sociais ficam especulando sobre o preço do dólar, contradizendo o Banco Central Venezuelano, o que acaba agravando o processo inflacionário. De fato, em virtude das sanções econômicas dos EUA e a derrota de governos progressistas na América Latina, houve uma grande crise de abastecimento em 2016. A Argentina, para ilustrar, com a vitória de Macri, parou de exportar o trigo para a Venezuela prejudicando a produção de pão. Isso só foi sanada com a ajuda da Rússia. A empresa Kimberly-Clark (para pegar um caso emblemático), que produz a marca de papel higienico Scott, simplesmente encerrou as suas atividades no país. E diversas outras multinacionais acompanharam esse movimento. Ou seja, para além de uma economia totamente dependente do petróleo (que também teve seu preço prejudicado essa época), o povo venezuelano sofreu os mais diversos tipos de sabotagem contra a sua produção e distribuição. Essa situação só foi superada a partir de uma forte mobilização e organização popular, na qual em relação as empresas ociosas, a produção foi assumida por uma junta de trabalhadores, e na distribuição, a partir dos Comitês Locais de Abastecimento e Produção (CLAP) que é consiste num conjunto de itens essenciais para a vida que são vendidos de forma subsidiada através de Comunas, que são uma espécie de organizações comunitárias. Desde 2005, com a nova constituição bolivariana, há a organização de Comunias que são uma forma de auto governo em um determinado território. A cada 150 habitações, há um Conselho Comunal e a cada cinco conselhos comunais, há uma Comuna. Podem participar da Comuna todos(as) aqueles(as) com mais de 15 anos. 


Trabalho dos brigadistas na construção civil

VdR: Como você analisa a polarização existente na sociedade Venezuelana?

A questão nacional ocupa o centro de ação da revolução bolivariana, que, de certa forma, conseguiu um certo enraizamento na população. Algo como a criação de um novo senso comum. Sem dúvidas há muitos insatisfeitos. Em especial os jovens que cresceram nos anos dourados de Chávez, com um custo de vida baixíssimo, acesso universal ao ensino superior e pleno emprego. Com as dificuldades provocadas pela guerra econômica e até mesmo o receio de um possível conflito bélico, muitos optam por emigrar. Todavia, esses mesmos efeitos da guerra também mobiliza milhões de pessoas para superar a crise a partir de um maior esforço produtivo e se preparando para guerra, como é o caso da milícia bolivariana. A milícia é um ramo das forças armadas para o treinamento de civis com o objetivo de defender a revolução bolivariana. Hoje o número de milicianos chega a 3 milhões de pessoas. Curiosamente, os números da milícia bolivariana e daqueles que optam por sair do país são bem parecidos. Talvez este seja um bom retrato da polarização, que obviamente, há também um forte recorte de classe.

VdR: Em relação ao Brasil, diante da beligerância do presidente Bolsonaro para tratar a relação com Venezuela, como os venezuelanos avaliam o novo governo e uma possibilidade de uma tentativa de intervenção militar estrangeira?

No momento em que estive lá, o Brasil era notícia por conta das queimadas na Amazônia. O que todos comentavam de forma negativa a postura do nosso chefe de Estado. Em geral, eles não veem essa possibilidade de participação armada do Brasil pela crença na integração latino americana. Por certo, eles torcem pela derrota de Bolsonaro nas próximas eleições – assim como na de Macri no próximo outubro – porque sabem que tem efeitos diretos na sua economia. Pois eles guardam com muito carinho a grande interação que havia entre os governos de Chávez, Lula, Cristina, Correa e Evo. 

VdR: O bloco Chavista já sofreu algumas baixas, com dirigentes históricos rompendo com o governo, alegando inclusive que o Maduro é traição do maior legado de Chávez que é a constituição de 1999. Durante esse período enquanto brigadista, conseguiu observar a formação de bloco com alguma expressão na sociedade, uma espécie de terceira via, entre a oposição e o governo?

Na última eleição presidencial o candidato opositor Henrique Falcón rompeu com o chavismo em 2010, ainda sob a presidência de Chavez. Todavia, nesse pleito eleitoral ele voltou a reivindicar o legado do ex-presidente e dos valores bolivarianos. O chavismo teve um certo êxito em construir um novo senso comum anti-neoliberal. Há uma forte presença do Estado, em especial no ramo do petróleo. Por exemplo: com um centavo de dólar é capaz de encher cinco tanques de carros de grande porte. Com apenas um dólar você garante gasolina pro ano inteiro. O transporte público e o gás de cozinha segue a mesma lógica, com valores praticamente simbólicos ou com passe-livre (em alguns dias no metrô e nas redes de teleférico que ligam as favelas de Caracas). Muita gente nesse último período conseguiu uma casa própria, um local digno para se morar, que diferente de programas habitacionais brasileiros, são muito bem localizados (o que causa revolta na elite venezuelana) e cada prédio é um prédio original, sem esse efeito “copia e cola” de moradia. Enfim, todo esse arcabouço de proteção social criado pela chavismo – que gera um grande gasto público e eles não negam isso – ninguém ousa atacar… e tais ideias são antagônicas a qualquer projeto neoliberal. Enfim, com um situação de guerra eminente, não há um espaço para uma terceira via. O que há são críticas. Todos eles são muitos críticos. Entretanto, eles veem nessas contradições a oportunidade de avançar. Eles enxergam nas contradições o motor do processo revolucionário bolivariano. 

VdR- Qual é a sua avaliação sobre o trabalho da assembleia constituinte em curso e a da possibilidade do governo realizar eleições legislativas como forma de pactuação com a oposição? Você acredita que existe alguma possibilidade de repactuação democrática entre o governo e pelo menos parte da oposição?

A todo o momento o Maduro pede à oposição a instauração de uma mesa de diálogo. A convocação de novas eleições e uma recomposição. Contudo, a postura dos oposicionista é o boicote e negar qualquer tipo de conversa fica difícil uma repactuação. Em relação a democracia, avalio como muito positivo a tentativa de construir uma nova relação democrática entre o Estado e o povo a partir das experiências das Comunas. As Comunas são muito pujantes e pensam e agem em seu território. Avaliam suas demandas e potencialidades. Uma das maneiras de garantir a sua autonomia perante o Estado é com as Empresas de Produção Social (direta ou indireta), em que são produzidos produtos alimentícios, de limpeza, têxtil entre outros a partir dos valores da economia solidária. Assim, essas empresas recebem isenção fiscal do governo, mas com o objetivo de vender os produtos à um preço mais baixo. Por exemplo: Um pão bisnaga grande numa padaria comunal pode custar cerca de mil bolívares. Nas padarias “padrão” esse valor pode chegar até dez mil. Além disso, essas empresas tem que entregar as pessoas desse mesmo território e todo o seu lucro (que eles chamam de excedentes) é revertido para fundos organizados pela Comuna. Com essas atividades econômicas é que as Comunas conseguem uma maior autonomia. No Brasil os grandes empresários brasileiros tiveram crédito farto e barato além de gozarem de subsídios generosos dos governos petistas. O que ocorreu? Não houve repactuação democrática e a FIESP foi um dos principais artífices do golpe e da prisão de Lula. Acredito que a esquerda brasileira precisa olhar para a Venezuela de uma maneira não colonizada. Não com o paradigma europeu. Mas com a partir da nossa história. Quando chamam Maduro de ditador, qualquer venezuelano lembra que no começo do século XX eles tiveram o mesmo presidente por trinta anos e os EUA chamavam de democracia. Aqui no Brasil, temos um presidente que elogia a nossa própria ditadura, torturador e outros ditadores latino americanos. Que moral tem para chamar alguém de ditador? Acredito que a luta dos venezuelanos é a luta de todos os latinos americanos. A busca pela nossa verdadeira independência! Como no passado o povo conseguiu se libertar do domínio dos impérios ibéricos, também nós conseguiremos nos libertar do domínio do império estadunidense.

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