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Glauber Braga: “Por isso que eu digo e repito que Moro é um juiz ladrão”

Entrevista com o Deputado Federal Glauber Braga (PSOL-RJ)

Com o prolongamento da crise econômica internacional de 2008, o imperialismo estadunidense e seus aliados querem garantir as taxas de lucro dos capitalistas através da exploração econômica dos países periféricos. Para isso, seguem a política de desestabilização dos países dependentes que não se alinham aos seus interesses. A América Latina e o Brasil estão diante da segunda grande ofensiva neoliberal. Trata-se da retomada do projeto neoliberal de exploração.

A crise econômica brasileira se aprofundou ainda no primeiro governo Dilma (PT), rompendo a unidade “neodesenvolvimentista” da burguesia interna com o governo e flertando com o golpismo. A opção errada da política econômica do segundo governo Dilma dificultou a denúncia do golpe e a mobilização popular.

Estas contradições favoreceram a ação política do golpe. A burguesia, o capital financeiro e a alta classe média (golpistas) se moveram através do Legislativo, Ministério Público Federal, da Polícia Federal, do Judiciário e dos grandes meios de comunicação.

Apesar da resistência democrática, Dilma sofreu o impeachment sem cometer o crime de responsabilidade mas como um símbolo de combate a corrupção. O programa entreguista e usurpador que Michel Temer (MDB) aplicou no seu curto desgoverno piorou a situação dos trabalhadores. O assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL), durante a intervenção militar que Temer autorizou levanta diversas suspeitas e ainda nenhuma resposta sobre quem mandou matar Marielle. A injusta prisão de Lula (PT) comprovada pela série de reportagens #VazaJato do site The Intercept resulta na eleição de Jair Bolsonaro (PSL) e Sérgio Moro como ministro da justiça.

Uma pesquisa Datafolha sobre os primeiros seis meses da gestão Bolsonaro aponta que para 39% dos entrevistados, Bolsonaro não havia feito “nada” de melhor. Após a reforma da Previdência, o Legislativo se prepara para examinar a reforma tributária, independência do Banco Central entre outras pautas polêmicas.

É neste contexto que entrevistamos o Deputado Federal Glauber Braga (PSOL-RJ), titular da Comissão de Legislação Participativa e da Comissão de Educação, que no seu voto contra o impeachment chamou Eduardo Cunha de gângster e agora chamou Moro de juiz ladrão. Confira:

Voz da Resistência: Você já imaginava que chegaríamos até a atual situação quando votou contra o golpe e chamou Eduardo Cunha (MDB) de gângster?

Glauber Braga: Olha, eu já imaginava que a gente estava entrando em um ciclo de desmonte do Estado brasileiro nas suas garantias sociais de forma avassaladora e que a saída desse ciclo dependeria de muita mobilização popular e que as consequências do que estava se dando ali, naquela sessão ilegítima com Eduardo Cunha presidindo, poderiam ser no primeiro momento inimagináveis, esta aí, uma mobilização que se deu a partir de então da extrema direita, cada vez com mais aparato institucional e o projeto do golpe sendo colocado em prática primeiro por Michel Temer e depois por Jair Bolsonaro. Sim, de alguma forma, eu já imaginava que o cenário poderia descambar para aquilo que a gente está vivendo hoje.

Voz da Resistência: Quais são os desafios desta legislatura?

Glauber Braga: O principal desafio dos mandatos de resistência é conseguir aglutinar junto com a luta popular, social, uma resistência que não seja de goela, que seja de fato, que consiga fazer a denúncia e a mobilização contra a agenda prioritária de Jair Bolsonaro, que em uma das suas estruturas desmonta o Estado brasileiro nas sua garantias sociais, em uma posição de completa submissão aos interesses de Donald Trump, do governo dos Estados Unidos que procura ampliar sua influência na Europa e na América Latina. Combater a estrutura representada pela ampliação do Estado policial que tem como a principal figura simbólica Sérgio Moro. Você não implementa uma agenda impopular como é a de Guedes sem atacar o pensamento crítico e os polos de resistência. Então, a gente tem que denunciar a representação do que é essa agenda de Sérgio Moro, e além disso, combater sem fazer mediações nos fundamentalismos diversos representados pelos filhos do Presidente da República, o ministro da educação e cia. Essa estrutura que garante que Bolsonaro tenha socialmente um grupo de extrema-direita sempre à disposição para defender suas políticas nefastas, fazer um enfrentamento à essas três estruturas, para mim, é a grande tarefa dos mandatos de resistência nessa legislatura.

Voz da Resistência: Como anda a investigação do assassinato de Marielle Franco?

Glauber Braga: A investigação chegou à aqueles que seriam os executores, mostrando uma relação umbilical com o que no Rio de Janeiro é chamado o “Escritório do Crime”. Uma das pessoas com mandado de prisão está foragida, pessoa essa, que tinha mãe e mais uma pessoa próxima no gabinete de Flávio Bolsonaro, e ele quando questionado, disse que não sabia o que aquelas pessoas desenvolviam no seu gabinete e que essa era a tarefa do Queiroz. Demonstrando aquilo que já se imaginava mas de maneira agora, mais consistente, que é a relação do clã Bolsonaro com as milícias e com grupos criminosos no Estado do Rio de Janeiro, grupos muito perigosos, inclusive. No meio disso tudo, os mandantes e a motivação objetiva do crime ainda não foram elucidadas, não foram evidenciadas. Surge uma notícia na imprensa de que Sérgio Moro já teria na sua gaveta o resultado das investigações da execução de Marielle e de Anderson, algo que até agora a gente não tem ainda com objetividade a certeza dessa informação nem uma negativa por parte do Ministério da Justiça. Por isso é tão importante a continuidade da cobrança de quem mandou matar Marielle.

Voz da Resistência: Qual é sua opinião sobre a operação Lava Jato? Por que você chamou Sérgio Moro de juiz ladrão? O que a #VazaJato revelou?

Glauber Braga: A operação Lava Jato é um instrumento que reúne setores do judiciário e do Ministério Público para ser usada como instrumento da implementação de um programa econômico ultra-liberal, não dá para passar pano. O objetivo fundamental, ou o que se tornou a operação Lava Jato é a implementação desse programa. Sérgio Moro é um juiz ladrão porque foi um dos agentes desse tipo de ação, que para alcançar seus objetivos econômicos perseguiu adversários políticos, tirando aquele que estava liderando as pesquisas, que é o ex-presidente Lula. E agora atua também no governo de Jair Bolsonaro para blindar aliados como faz com Flávio Bolsonaro. O que a #VazaJato revelou é que a gente teve um juiz parcial que tomou lugar nesse processo em conjunto com a acusação com um roteiro que já estava pré-estabelecido e que na minha avaliação tem como objetivo principal a implementação de um programa econômico. Por isso que eu digo e repito que Moro é um juiz ladrão.

Voz da Resistência: A reforma da Previdência Social é a pior maldade de Maia-Bolsonaro?

Glauber Braga: A reforma da Previdência é o início das maldades de Maia e Bolsonaro, porque as maldades deles, dessa dupla, que encaixam na mesma agenda, principalmente na implementação do programa ultra-liberal, é desmontar o conjunto das garantias sociais brasileiras, entregando o que há de patrimônio público para o setor privado, para os mercados, para atender interesses de subordinação, principalmente ao governo dos Estados Unidos mas também para as grandes corporações internacionais, abrindo mão por completo de um desenvolvimento soberano brasileiro. Eu diria que sim, a reforma da Previdência é o início das piores maldades, quando você exige 40 anos de contribuição para ter acesso a aposentadoria integral, quando você acaba com a aposentadoria especial de gari, colheitador, de um trabalhador de mina, quando você diminui o valor de quem pode receber o abono salarial que era de quem recebe até dois salários mínimos, quando você exige 65 anos de idade mínima em regiões que não tem essa expectativa de vida, esse é o início das maldades mas elas tendem a continuar com a rodada de privatizações e da completa subordinação do Brasil. É isso que eles querem.

Voz da Resistência: Os Direitos Humanos, a Educação Pública e o Meio Ambiente estão sob ataque do governo Bolsonaro. Como resistir?

Glauber Braga: É claro que cada agenda de resistência pode exigir um enfoque diferente mas é fundamental a gente constituir unidade para resistir com setores que se disponham à isso e unidade de ação também em relação ao conjunto de ataques porque essa guilhotina é parcelada. E claro que a gente tem que fazer isso pelos Direitos Humanos, pela Educação Pública, pelo Meio Ambiente e por todas as áreas que estão sendo atacadas mas nesse momento, a área que eu considero que conseguiu aglutinar mais força, furando inclusive a nossa bolha, foi a área de Educação, os ataques que estão feitos à Educação Pública brasileira. Eu imaginei que a gente conseguiria estabelecer a Previdência como mote de resistência mais ampliada na sociedade mas infelizmente não foi o que conseguimos. A educação tem esse potencial, então a luta dos professores, profissionais de educação como um todo e dos estudantes tem que ser a luta de todos brasileiros que querem paralisar o conjunto de desmonte que está sendo operado por Bolsonaro. Por isso é tão importante participar dos atos e mobilizações que já estão em andamento.

Voz da Resistência: Qual a sua avaliação sobre a crise econômica e os sete meses de Bolsonaro?

Glauber Braga: A crise econômica tende a se agravar, está aí o exemplo da Argentina, onde eles defendiam que a adoção de medidas ultra-liberais, de maneira automática trariam investimentos externos para a Argentina, levando ao crescimento, o que a população, principalmente a mais pobre viu, foi o contrário disso. Um país que abriu mão do seu desenvolvimento soberano e que viu crescer a pobreza e as dificuldades dos setores mais vulneráveis. Esse vai ser o mesmo resultado da política que está sendo aplicada por Bolsonaro, já tem sido e a tendência é o agravamento. Os sete meses de Bolsonaro são um desastre civilizatório, econômico e social, que exige de nós uma resistência contundente, uma mobilização permanente mas entendendo que essa batalha não é de curto prazo, é uma batalha que vai exigir muita paciência porque eles conseguiram ganhar um percentual da sociedade brasileira como militante desse projeto entreguista. Ainda bem que é um percentual ainda não majoritário. A nossa tarefa é tornar a resistência majoritária contra esse programa.

Voz da Resistência: O presidente do STF, ministro Dias Toffoli suspendeu temporariamente todas a investigações do COAF, incluindo a investigação que envolve Flávio Bolsonaro, Jair Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Fabrício Queiroz. Comente sobre essa decisão e o envolvimento da família Bolsonaro com as milícias do Rio de Janeiro.

Glauber Braga: O problema não é que as instituições brasileiras, as instituições judiciárias tem posições de garantistas que permitam o direito de defesa, o problema é que existe hoje, o chamado neo-garantismo, onde alguns blindam a família do Presidente da República com medo ou em acordo com a ampliação do fascismo e ao mesmo tempo não tem uma posição garantista para defender militantes de esquerda, trabalhadores, de sindicatos, esse é o grave problema. É exatamente por esse motivo que a gente tem que continuar a mobilização, por exemplo, pela liberdade do ex-presidente Lula, que é um preso político e também defendendo um acumulo de força para combater as perseguições que estão sendo feitas aos sindicatos, trabalhadores e povos indígenas. Mas os movimentos do judiciário só vão se dar também à partir de uma mobilização popular que faça esse poder da República se movimentar, colocar todas as fichas ou colocar as fichas em uma ação institucional salvadora seria um grave erro político e ele não pode mais ser cometido. Sobre o envolvimento das milícias eu já respondi em perguntas anteriores.

Voz da Resistência: Qual o papel do PSOL na eleições municipais do ano que vem para derrotar a onda reacionária liderada por Jair Bolsonaro?

Glauber Braga: Para mim, o papel do PSOL é nacionalizar a discussão sobre as eleições municipais, procurando formar frentes que dêem identidade ao projeto de oposição ao governo Bolsonaro e a ampliação do fascismo. Ou seja, a gente tem que representar de fato, para o cidadão brasileiro uma alternativa de mudança. Isso não se faz sem uma identidade política clara, então, a gente não se pode deixar levar por incitavas que tirem nossa identidade como um projeto de esquerda e de oposição mas trabalhando à partir das necessidades reais do povo que tem visto as suas condições de vida se deteriorarem com muita rapidez.

Voz da Resistência: Como se deve enfrentar o fascismo? Quais são os limites da luta parlamentar?

Glauber Braga: O fascismo se enfrenta com um conjunto de articulações, o papel parlamentar é um papel muito limitado. Um mandato parlamentar tem que repercutir a luta social e se aglutinar com a luta social para fazer também o enfrentamento no espaço institucional mas sem a ilusão, repito, de que a salvação para aquilo que a gente está vivendo venha exclusivamente da luta parlamentar ou institucional, isso é um grave erro pensar dessa forma. O fascismo se enfrenta com amplitude mas se enfrenta também com trabalho de base permanente, com povo na rua e com articulação consciente, fazendo com que a massa, os trabalhadores que estão atingidos pelas medidas econômicas e de fechamento de regime, porque estão caminhando as duas medidas conjuntamente, possam ser também, para que esses trabalhadores, para que essas pessoas sejam militantes da nossa causa e possam ser aqueles que vão enfrentar o fascismo na rua, nas redes e em todos os espaços, inclusive os institucionais em que isso seja possível.

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