Opinião

Ainda precisamos do 25 de Julho

Por Neusa Raineri *

A Marcha das Mulheres Negras novamente ocupa as ruas. Quase três décadas após a definição do 25 de Julho como Dia Internacional da Mulher Afro Latino-americana e Caribenha, a Marcha das Mulheres Negras ocupa novamente as ruas do País. Comemorações? Festejos? Não, não há o que celebrar.

O que levou mulheres negras da América Latina e do Caribe a marcharem para Santo Domingo, na República Dominicana, em 1992, ainda grita em mapas de violência do País. Dados da ONU apontam que, dos 25 países com maiores índices de feminicídios de mulheres negras, 15 se situam na América Latina e no Caribe. Neste vergonhoso pódio, o Brasil ocupa primeiro lugar.

O Atlas da Violência 2019 mostra que 65.602 homicídios ocorreram no Brasil, em 2017, sendo 31,6 casos por 100 mil habitantes, índice 30 vezes maior que o europeu. Destas mortes violentas, 35.783 vitimaram jovens entre 15 e 19 anos. Mais escandaloso que o corte etário é o racial: 75,5% das vítimas são negros. A taxa para negros foi de 43,1 por 100 mil habitantes, enquanto para brancos 16 por 100 mil habitantes.

Outro destaque negativo deste levantamento é o crescimento do número de mortes violentas de mulheres. Este índice aumentou em 6,3% entre 2016 e 2017 e 30,7% no agregado da última década (2007-2017). Novamente as mulheres negras são os principais alvos da violência, uma vez que respondem por 2/3 de todos os assassinatos femininos.

Em nosso país, muitas dessas mortes ocorreram, e ainda ocorrem, dentro das próprias casas das vítimas, sendo caracterizadas como feminicídios. Representam a perda de muitas vidas de mulheres negras como consequência do machismo e da violência doméstica, que caracterizam a nossa sociedade patriarcal.

Mas o que salta aos olhos é a violência institucional que parece estar a serviço do genocídio da população negra, com a adoção de medidas higienistas como política de Estado. A pobreza negra e periférica, alijada de direitos e discriminada onde ainda há trabalho, é empurrada para a alça de mira de uma política equivocada de combate às drogas.

A lei de drogas de 2006 que amplia a guerra às drogas foi mais um grave ataque, pois ampliou exponencialmente o número de pessoas encarceradas, e particularmente o número de mulheres negras.

O que assistimos hoje no cenário nacional nos empurra para as ruas. As nossas palavras de ordem são respostas ao avanço da precarização das políticas públicas. Educação e saúde sofrem cortes brutais em seu financiamento, enquanto a Previdência Social é desmontada e vergonhosamente exposta em circos armados pelos meios de comunicação, que atendem aos interesses mesquinhos de banqueiros e do grande Capital.

A Seguridade Social agoniza com a imoral proposta de redução do BPC (Benefício de Prestação Continuada). Muitas de nós não têm a menor perspectiva de acessar uma aposentadoria porque a perversidade do nosso modelo econômico e das atuais leis trabalhistas em vigor amarram suas pontas, jogando-nos de modo cruel na informalidade e no desalento do desemprego.

Os nossos corpos negros continuam na luta contra o racismo religioso, a homofobia e a transfobia, que nos escolhem como vítimas da intolerância, que encontram terreno fértil em tempos de grande conservadorismo institucional. Vamos, sim, para as ruas no 25 de Julho, estampadas com todo o nosso colorido ancestral, desafiando com tambores e cantos a força da repressão estatal.

Vamos gritar pelo direito à vida e ao bem viver para todes, exigir respeito às nossas escolhas religiosas e sexuais. Relembraremos com orgulho de nossas irmãs quilombolas como Tereza de Benguela, que lutou por duas décadas contra o jugo do colonizador escravagista e batalhou pelo direito de ser livre nos idos do século 18, tendo sua efeméride também no 25 de julho.

Exigiremos que os mandantes dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes sejam punidos. E juntas nas ruas encheremos nossos pulmões para que em alto e bom som possamos reivindicar o direito de vermos nossos filhos crescerem, cultivando sonhos de serem cidadãos inteiros, provando que a narrativa monocromática não é capaz e suficiente para a construção e manutenção de uma nação soberana e digna de ser chamada Brasil.

*Neusa Raineri é presidenta do PSOL de São Caetano do Sul e militante do Núcleo Marielle Franco, que luta contra a violência à Mulher na região do ABCDMRR

 

 

 

 

 

 

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