MundoNotícias

19 de julho – O povo contra uma ditadura

Da Redação

Em 19 de julho de 1979 “los muchachos” tomam Manágua, o último bastião da ditadura de Anastacio Somoza. Este dia foi o ponto culminante de uma revolta popular que tem origens dezenas de anos antes, ainda com a resistência camponesa liderada por Augusto Cezar Sandino. Aclamado pelos pobres da Nicarágua, Sandino foi assassinado pelas oligarquias locais, desde sempre aliadas aos interesses dos Estados Unidos.

Há quarenta anos, um Somoza enfraquecido e odiado, ciente do avanço da rebelião, abandona seu bunker e empreende fuga do país em 17 de julho.

Nicarágua

A Nicarágua é um pequeno país da América Central, situado entre Honduras e a Costa Rica, com o Mar do Caribe a leste e o Oceano Pacífico a oeste, localização estratégica do ponto de vista político. Contando com uma população de cerca de 6 milhões de pessoas, conseguiu a sua independência da Espanha em 1821. A economia local é fortemente dominada pela fruticultura e a pecuária. Suas principais cidades são a capital Manágua que conta com 1/3 da população do país e León, com pouco mais de 1 milhão de habitantes.

“Somoza é um filho da puta, mas é o nosso filho da puta”

Tal frase que o presidente estadunidense Franklin Delano Roosevelt teria pronunciado em 1939 a respeito de Somoza pai e que o secretário de Estado Henry Kissinger teria repetido para falar do filho, já que a dinastia Somoza reinou de 1936 a 1979.

Outra passagem famosa foi obra do próprio ditador: quando perguntado pelo jornalista brasileiro, Joel da Silveira, em entrevista feita nos Estados Unidos sobre as suas numerosas fazendas, Somoza responde: “só tenho uma fazenda: a Nicarágua”.

Somoza aproveitou-se, segundo denúncias da época, até mesmo de doações vindas de todo o mundo após o terremoto ocorrido em 1972 na capital, Manágua, que deixou cerca de 19,3 mil mortos e 20 mil feridos.

Dinastia

Anastacio Garcia Somoza (Tacho) ocupou a presidência por vários períodos, até ser morto em um atentado pelo poeta Rigoberto López Pérez, em 1956, encerrando sua longa e violenta permanência no poder, iniciada ainda como chefe da Guarda Nacional, quando mandou assassinar, em 1934, o general Augusto Sandino, líder da resistência nicaraguense contra a ocupação americana, ocorrida entre 1912 e 1933. Tachito (Anastacio Somoza Debayle), filho do patriarca, foi eleito presidente da Nicarágua pela primeira vez em 1967, permanecendo no poder até 1972, quando entregou o poder a uma Junta Nacional do Governo, após assinar um pacto que permitiria a sua volta, que ocorreu em 1974, para um mandato de mais cinco anos. Como chefe da Guarda Nacional, manteve o poder efetivo entre os dois períodos, até ser derrubado pelos sandinistas em 1979, refugiando-se em Miami e, logo após, no Paraguai. Tachito foi morto em 1980 em Assunção.

FSLN

A Frente Sandinista de Libertação Nacional foi criada em 1963. De cunho eminentemente estudantil em seus primórdios, tendo como seu fundador principal Carlos Fonseca, revolucionário marxista assassinado em 1976, antes da tomada do poder, a FSLN se consolida no campo e na cidade, em um processo longo e acidentado. Entrecortado por diversas correntes internas de opinião, a unidade tentada por Carlos Fonseca na véspera de sua morte só foi conquistada nos estertores do regime somozista, com o importante apoio do líder cubano, Fidel Castro. Os sandinistas, como eram chamados ou apelidados de “los muchachos”, por sua formação eminentemente jovem, não foram os únicos a se rebelarem contra Somoza: setores dissidentes das oligarquias também se insurgiram contra a ditadura e liberais das maiores cidades do país romperam com o governo e tentaram interlocução com os Estados Unidos, à época dirigido pelo democrata Jimmy Carter. Ao fim, contudo, a FSLN era única força política consolidada e organizada para enfrentar a ditadura e construir o novo poder.

A ofensiva final

“Estávamos nas barricadas da luta contra Somoza na ofensiva final de 1979. Em junho entramos nos bairros orientais de Manágua. O plano era combater com a Guarda só por três dias, tempo que estimávamos suficiente para dar oxigênio às principais frentes de guerra, e ficamos quinze dias. Já nos faltava de tudo. Não havia comida e não tínhamos o que naquela luta era muito valioso: munições. Mas pudemos resistir tanto tempo porque a população estava organizada e preparada para resistir. As pessoas organizadas foram o fator chave, o fator crucial. Foi a participação popular organizada da maioria do povo que tornou possível aquele esforço. Foram as pessoas, não as armas”, disse Julio López Campos, ex-guerrilheiro sandinista em entrevista ao site Carta Maior.

“O que motivou nosso despertar de consciência foram as condições econômico-sociais do povo, e a urgência de transformar essa realidade. E, por isso, o que distinguiu o movimento guerrilheiro nicaraguense de outros movimentos que tinham o mesmo propósito, é que entendemos rapidamente que não se tratava apenas de uma luta militar, “voando balas” como se diz popularmente, mas que era necessário um trabalho de conscientização e organização popular, para que as próprias massas assumissem a liderança de sua própria libertação”, disse Mónica Baltodano, guerrilheira sandinista em entrevista ao Brasil de Fato.

A ofensiva final, portanto, foi apoiada pela amplíssima maioria do povo nicaraguense. Era o ponto culminante de um longo trabalho de base e de luta efetiva contra a ditadura. Fundamental refletir que os sandinistas chegaram a conclusão que só se derrota um regime de terror com armas, já que uma ditadura se sustenta basicamente sob um sistema de violações permanentes. Uma ditadura ameaçada fecha o sistema sobre si mesma e seus últimos suspiros são estritamente violentos. Todo e qualquer movimento de libertação deve estar preparado para enfrentar tal escalada.

Atualidade

Em 19 de julho de 1979 tivemos aquele que foi o último processo revolucionário do ocidente, quando o povo tomou o poder em suas mãos, em um local considerado como “quintal” dos Estados Unidos. De lá para cá, algumas coisas mudaram, é verdade, menos a miséria e a exploração do povo pobre latinoamericano, que migra em massa de seus países rumo ao norte que é o principal responsável pelas tiranias que derrubaram governos progressistas como Manuel Zelaya em Honduras(2009); Fernando Lugo no Paraguai (2012) e Dilma Roussef no Brasil (2016). Mesmo com suas diferenças e contradições, resistem os governos de Cuba, Venezuela e Bolívia. Na Nicarágua, os sandinistas retornaram ao poder em 2006, após a derrota para Violeta Chamorro em 1991 (cujo marido Joaquim Chamorro tinha sido assassinado em 1978 pelos somozistas). Hoje, a FSLN enfrenta resistências internas e externas, mas ainda mantém forte apoio popular, liderados por dois antigos combatentes sandinistas, Daniel Ortega e Rosario Murillo.

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar