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A indústria da moda e o mercado de trabalho

Por Camila Mattos*

As recentes denúncias contra a descolada marca carioca Três** reacenderam os debates sobre o mercado da moda e as relações trabalhistas. Frequentemente, o debate emerge depois de algum tipo de denúncia. Trabalho análogo à escravidão, racismo, gordofobia e assédio moral são algumas delas. Há pouco tempo, um modelo morreu na passarela, o desfile continuou e não causou muita comoção. Estava lá o corpo estendido no chão. Em vez de rosto, uma camisa de marca. Diversas outras grifes já foram denunciadas por funcionários e clientes. Rezou a lenda de que outra marca famosa pelas polêmicas até comentou com a sócia da Três que as vendas aumentariam depois do episódio. Esperou-se da marca carioca uma mea culpa; mas a nota foi um fracasso que servia apenas para desqualificar as denúncias.

O choque em torno da Três parece residir no fato de que a marca usava como argumento para vender mais caro uma suposta humanização de sua cadeia de produção. O slogan dizia “Por trás de peças, pessoas”. Aí é preciso lembrar da desumanização de determinados grupos ao longo da história. Quantas vezes negros foram e ainda são desumanizados? Racismo não é novidade no mundo real, seria diferente na indústria da moda por quê? As funcionárias da Três poderiam ter o cabelo black power, mas dentro do controle. Afinal, preto bom é preto subordinado. Sobre a gordofobia: o quê esperar de uma indústria construída ao redor da idéia de que roupas para mulheres gordas são um favor, um pequeno diferencial para agradar determinado nicho de mercado? E por aí vai. No final, é tudo sobre o mercado.

Quando as acusadas são fast fashion ainda rola uma criminalização daqueles que compram mais barato. O discurso gira em torno do “querem comprar barato? tem alguém escravizado em Bangladesh”. Aí parece que a culpa das relações trabalhistas cruéis é apenas responsabilidade de quem não tem condição de comprar uma blusa por R$300,00. Tudo isto falando como se a Zara fosse barata no Brasil. Quando surgem casos como estes, as soluções aparecem aos baldes. Inclusive, surge o curioso caso das blogueiras de moda que desconheciam que o mundo do trabalho é cruel.

Diversas soluções podem (e devem) ser pensadas. Podemos pensar em consumo consciente. Isso pode querer dizer comprar menos e buscar peças com maior durabilidade; podemos pensar em bazares de trocas, compras de segunda mão; uso prolongado das peças, evitando trocas desnecessárias; o boicote das marcas acusadas; comprar de produtores menores. Há também o “Moda Livre”, aplicativo para “quem gosta de moda, mas quer consumir de forma consciente”, onde é possível ver o que as marcas fazem a respeito do trabalho escravo em suas cadeias de produção. Diversas medidas, todas paliativas.

Há também críticas sobre a morosidade da fiscalização da justiça do trabalho como se fosse fácil fazer valer a legislação trabalhista neste país. Está tudo bem: com a reforma trabalhista ficou mais fácil. É só o trabalhador negociar com o patrão. Com isso, são os trabalhadores, inclusive os da indústria da moda, os afetados. Em janeiro, o próprio Ministério do Trabalho, criado em 1930, foi extinto. Agora sim ficou mais fácil ainda evitar abusos nas relações de trabalho. Segundo o Repórter Brasil, 38 marcas foram identificadas como envolvidas com trabalho escravo no Brasil***. Sabe quem costumava resgatar trabalhadores de regimes análogos à escravidão? O ministério do trabalho. Esse mesmo que eu acabei de dizer que foi extinto. Vai tudo às mil maravilhas no mundo do trabalho brasileiro.

Pois é. As roupas não são feitas pela madrinha da Cinderela que transforma trapo em fashion. São feitas por pessoas. Até a Três concorda comigo. E, no caso do mercado da moda, majoritariamente mulheres. São as mulheres que desenham, costuram, modelam e que compram a maior parte das peças. As mulheres que sofrem com baixos salários, assédio moral que as violenta pela condição de serem mulheres, são obrigadas a comprarem roupas caras com baixos salários. São também as mulheres que são estimuladas ao consumo exacerbado, que tentam se encaixar em peças desproporcionais aos seus tamanhos. São os pés das mulheres que doem em sapatos bonitos, mas extremamente desconfortáveis. Aliás, são as mulheres que passam por tudo isso ao mesmo tempo. É preciso lembrar que não há mercado de moda sem sofrimento assim como não há capitalismo gentil. Não há remédio para a indústria da moda que não passe pela transformação total das nossas relações de consumo. Isso aí só será possível com o fim do capitalismo que massacra nossos trabalhadores. Consumo consciente não vale de nada se não vier acompanhado de consciência de classe.

*Camila Mattos da costa é doutoranda em ciência da informação e curiosa pelo universo da moda. Um dia, aprenderá a confeccionar as próprias roupas sem esquecer que os tecidos também são feitos com base na exploração dos corpos.
**As denúncias podem ser encontradas na reportagem publicada pelo Universa, em 20/05/2019, e pode ser acessada no link: https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2019/05/20/racismo-gordofobia-e-assedio-moral-funcionarios-denunciam-marca-carioca.htm?cpVersion=instant-article
*** A reportagem pode ser encontrada na página do Repórter Brasil, publicada em 21/12/2019, e pode ser acessada no link: https://reporterbrasil.org.br/2018/12/com-amissima-sao-38-as-marcas-de-moda-envolvidas-com-trabalho-escravo-no-brasil/

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