Felipe Werminghoff

Futebol, política e geopolítica: as correlações de forças nas arquibancadas pelo mundo

Por Felipe Werminghoff

Futebol, política e religião se discutem sim. Em muitos casos, esses termos estão imbricados e nos fornecem subsídios para o entendimento do mundo contemporâneo. Esse texto pretende realizar uma breve análise da relação entre os elementos esportivos e geopolíticos dentro e fora dos gramados. Buscamos apontar que o esporte bretão, originado na Inglaterra no século XIX, não é apenas um jogo. 

O futebol tem marcante ligação histórica com as ferrovias, os subúrbios industriais e os movimentos operários. Longe de ser somente alienação, é um elemento da cultura popular e de massas que deve ser disputado pela esquerda. Focaremos nos movimentos progressistas das arquibancadas europeias e nas questões que envolvem a luta de classes, com exemplos de diferentes clubes. 

O neoliberalismo e a globalização do esporte trouxeram um processo de marginalização dos torcedores, seguido de uma elitização dos estádios, contexto expresso nas famigeradas “arenas”. Criminalização das torcidas organizadas, reformas nos grandes estádios e encarecimento dos ingressos são ingredientes de um mesmo projeto político elitista e racista, que visa afastar os pobres, negros e imigrantes das arquibancadas ao redor do mundo. 

Iniciado na Europa, na Inglaterra, esse receituário chegou com força ao Brasil na última década, legitimado pelos megaeventos esportivos e por um suposto combate a violência nos estádios. Tratada como caso individual e meramente comportamental, e não como fenômeno social, o combate à violência assume um caráter punitivista por parte da grande mídia e do poder público. A realidade e a história nos mostram uma natureza diferente da passada pela narrativa hegemônica: a atuação dos hooligans na Terra da Rainha explodiu justamente durante o governo de Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro”, primeira-ministra que realizou sucessivos ataques aos trabalhadores britânicos e aumentou de forma exponencial a pobreza no país nos anos de 1980.  

No caso brasileiro, as brigas e rixas entre torcidas são produtos, em sua imensa maioria, de rivalidades locais, regionais ou de uma aliança entre suas organizadas. Na Europa, contudo, os conflitos entre os ultras (torcedores organizados) – tanto de times quanto de países – têm forte cunho político, desde as questões históricas, religiosas até as geopolíticas. As arquibancadas europeias apresentam de movimentos progressistas à organizações comunistas, de caráter antifascista e a esquerda.

Na Itália, em Livorno, região da Toscana, Gramsci ajudou a fundar o Partido Comunista italiano em 1921.  A cidade portuária até hoje é um reduto eleitoral da esquerda na Velha Bota. O clube de mesmo nome e sua torcida tem fortes vínculos com os ideais comunistas, sendo normal ver em suas arquibancadas martelos, foices e bandeiras da União Soviética. A Brigada Autônoma Livornesa é conhecida por sua posição socialista e pela violência contra os ultras de direita, especialmente os Irreduccibili da Lazio, clube que tem diversas manifestações exaltando o fascista Mussolini, o “duce”, vindo de setores da curva nord do Estádio Olímpico de Roma.

BAL –Livorno.

Olympique de Marseille tem uma torcida aliada aos ultras do Livorno. Localizado em uma cidade do litoral Mediterrâneo com presença significativa de imigrantes, o clube francês tem seguidores adeptos do socialismo e que carregam toda a pluralidade cultural de seus fãs. O ex-jogador Eric Cantona, famoso por dar uma voadora em um torcedor inglês de extrema-direita quando jogava pelo United, já atuou pela equipe do sul da França, onde nasceu. Zinedine Zidane, descendente de argelinos, surgiu de uma comunidade de árabes localizada em Marselha. O time tem como um dos maiores rivais o PSG, que tinha uma organizada nazista, os Bolougne Boys, banidos em 2008.

Além da Autônoma Livornense 99 e o Commando Ultras 21, do Marseille, temos a Original 21, do AEK Atenas, da Grécia. O clube é conhecido por ser composto em grande parte por descendentes de refugiados que viviam na Turquia e retornaram para o território grego no início do século XX. As três torcidas formam um grande eixo de esquerda e antifascista na Europa, daí seus laços e aliança. 

Ultras do AEK Atenas.

O St. Pauli, da cidade de Hamburgo, não se destaca pelos resultados dentro de campo, mas sim pelo engajamento de sua torcida fora dos gramados. Sua torcida é conhecida na Alemanha pelo combate ao neonazismo e todas as formas de discriminação. Cabe ressaltar que as arquibancadas do futebol alemão têm uma série de manifestações antifascistas, a partir de diversos times. A equipe, inclusive, teve um presidente declaradamente homossexual entre 2002 de 2010. O clube tem uma caveira como principal símbolo e uma ligação intensa com o rock’n’roll, dentre eles o punk, fato que aproximou a cultura do bairro aos ideais de esquerda. 

Torcida do St. Pauli.

Na Escócia, o derby de Glasgow respira política. O Celtic, clube de origem irlandesa, é composto por católicos e defende a república. Seu rival, o Rangers, tem uma formação protestante e unionista, ou seja, apoia a permanência escocesa no Reino Unido e na monarquia parlamentarista. Os torcedores do Celtic, em sua maioria, votam no Partido Trabalhista, além de se manifestarem a favor da causa palestina, enquanto seus adversários são adeptos, em grande parte, do Partido Conservador.

Em Madrid, no distrito de Vallecas, de tradição operária, temos o Rayo Vallecano. Primo pobre dos gigantes da cidade, o clube tem amizade com o St. Pauli, pois as instituições possuem concepções políticas parecidas, incluindo a luta contra a homofobia, que já foi expressa em seus uniformes. Seus ultras mais radicais, os Bukaneros, são famosos por suas posições antifascistas. O meia ucraniano Zozulya, simpático ao nazismo, teve sua contratação barrada pelos torcedores da equipe espanhola. 

Ainda na Península Ibérica, em Portugal, seus principais clubes também carregam questões históricas e sociais para a construção das rivalidades nacionais. O Benfica, equipe mais popular do futebol lusitano, tem nos “encarnados” o orgulho de ser o time do povo; já o seu rival local, o Sporting, se gaba por ser a equipe dos lisboetas mais abastados. O Porto, potência esportiva do Norte e da cidade mais desenvolvida da região, é o maior rival dos times de Lisboa, mais próspera, ao sul. De forma pejorativa, os “Dragões” se referem aos torcedores da capital como “Mouros”, em alusão ao passado de domínio árabe. 

O Tottenham, clube inglês de Londres, sofre com o antissemitismo de facções de extrema-direita da Europa. A equipe tem marcante presença judaica em sua torcida. O termo “Yid”, pejorativo, foi apropriado pelos Spurs em resposta aos adversários racistas, caso dos ultras do Chelsea, rival londrino. No futebol Holandês, a F Side, do Ajax, também luta contra a perseguição aos judeus e ergue bandeiras com a Estrela de Davi nas arquibancadas da Johan Cruyff Arena. Cabe ressaltar que ambos os times usam as bandeiras de Israel como meio de enfrentamento aos nazistas, não para apoiar um projeto sionista. 

Esse panorama das arquibancadas, além de resumido, ficou restrito à poucos clubes europeus. Nossa mensagem é de que a correlação de forças está presente nos estádios, dos comunistas aos nazistas. O futebol é um termômetro importante da política, está enraizado na maioria dos países do mundo e tem caráter de massas. Os campos são uma ferramenta importe de diálogo com o povo. Cabe a esquerda fazer essa disputa, sair da vanguarda e não cair na sedutora ideia de que bola correndo nos gramados é mero instrumento de alienação da burguesia. Indo na contramão desse pensamento elitista, defendemos que os gols têm um forte elemento de mobilização e fazem parte da cultura de milhões de homens e mulheres. 

Felipe Werminghoff é professor, mestrando em geografia e militante do PSOL.

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