Gustavo Miranda

A luta é uma só

Por Gustavo Miranda

Quando pela manhã iniciaram-se os atos em defesa da educação ainda não era possível mensurar a dimensão da proporção que estes teriam. Havia muita expectativa de que os atos fossem significativos, mas fora os muito otimistas, quando lá pelo final da noite as últimas manifestações se encerravam, o resultado mostrou-se para além do esperado.

Para isso não podemos considerar somente a quantidade de gente, sempre uma boa referência, mas também a unidade de amplos setores organizados e a participação de um público que não costuma participar de atos. Este foi o quadro no Rio de Janeiro, presumo no Brasil inteiro.

Frente ao gigantismo das manifestações, as principais emissoras de TV aberta não puderam mais ignorar as mobilizações e optaram por buscar interferir no seu tom. Eliminaram toda e qualquer menção à Reforma da Previdência e noticiaram que o ato era defesa da educação. Singelamente pouco falaram em cortes e também “esqueceram” de mencionar o termo pública.

Não há dúvidas de que o tema da educação secundarizou a pauta da previdência, que era o mote da convocação da CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores da Educação), mas a vitória política obtida com força demonstrada pela oposição ao bolsonarismo compensou.

A centralidade da reforma da previdência para o governo Bolsonaro é uma verdade incontestável. É a reforma aprovada que garantirá o apoio do mercado financeiro a Bolsonaro. Pela importância do tema e o desgaste na sociedade, é uma demonstração de força. Por outro lado, a não aprovação da reforma previdenciária colocará o governo na berlinda; a rigor, coloca em cheque até mesmo sua manutenção.

Dito isto, se é verdade que o governo não terá vida fácil para aprovar uma reforma robusta da previdência, também é verdade que venderá caro sua derrota. 

O ato em defesa educação entra neste quadro como um importante acúmulo de forças perante esse enfrentamento decisivo que é a aprovação ou não da reforma da previdência.

O ato passou a impressão de que haverá uma resistência massiva e pela primeira vez pode ter colocado uma dúvida na cabeça do núcleo do governo: recuar para diminuir tensão ou pagar para ver? Com um detalhe importante, quanto mais o governo endurece, mais o tema vai ganhando relevância. Ou seja, o governo pode transformar esse recuo numa fragorosa derrota.

De toda forma o movimento social organizado não pode se iludir, a luta contra Bolsonaro será prolongada, e com muitas idas e vindas. Acreditar que é possível, numa crescente e ininterrupta onda de protestos derrubar em poucos meses esse governo é não compreender o giro ideológico que deu parte das periferias das grandes cidades.

Bolsonaro ainda conta com muita popularidade, não é uma espécie de Collor. O bolsonarismo tem enraizamento social e ainda conta com um exército real de pessoas dispostas a defendê-lo. Digo real pois não podemos desconsiderar os robôs. Além do que toda sua pauta atende ao interesse do grande capital, e ao final de tudo é isso é que realmente importa.

Por tudo isso é acertada a tática de se manter a temperatura alta. O ato por si só deu um “gostinho de quero mais”. Já corre nas redes como um rastilho de pólvora a data do dia 30 de maio como a de mais um ato massivo em defesa da educação. O movimento social organizado deve incentivar o dia 30 com o mesmo entusiasmo que divulgou o dia 15 de maio e já divulga a greve geral do dia 14 de junho. 

Agora é hora de aproveitar que a oposição ao governo ganhou fôlego e massificar junto a quem se mobiliza para defender a educação de que a luta é pela educação pública, pela aposentadoria publica, pela saúde pública, em suma, pelo estado social. A defesa da educação, nesse contexto, não está dissociada das demais pautas. A luta é uma só!

Gustavo Miranda é professor e coordenador-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (SEPE)

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar