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O tal do Marxismo Cultural

Por Caio Teixeira

Jair Bolsonaro, Olavo de Carvalho, Brexit, Donald Trump, tentativa de golpe na Venezuela, a extrema-direita governando a Ucrânia, Hungria e Polônia, todos assumindo uma retórica e políticas que transformam socialistas, liberais (sentido clássico), negros/as, indígenas, muçulmanos, imigrantes em inimigos do Estado. Alianças com a extrema-direita governam a Itália e a Áustria, na Espanha apesar da vitória do PSOE, a extrema direita entrou no parlamento. No Brasil o presidente já elogiou torturadores, assassinos e a ditadura militar.

Como chegamos até aqui? Estamos focados apenas nas políticas identitárias e nas guerras culturais? Esquecemos a austeridade e a precarização do trabalho? Abandonamos a agenda de justiça social?

Na Europa, após o tatcherismo e a queda do Muro de Berlim, parcela dos partidos de esquerda se movimentaram para o centro. Na América Latina há uma baixa da Onda Rosa, onde governos à esquerda e progressistas estiveram no poder de vários países da região no início do século. O antipetismo se organizou durante o impeachment e radicalizou desde 2015 criticando o Judiciário e apostando nos militares e seu suposto legado positivo da ditadura militar. A guinada à direita na conjuntura global não é um movimento espontâneo, se dá por agentes e é gestada na luz do dia. Apesar das diferenças nos EUA, na Europa e da América Latina, a atual movimentação política se parece muito e tem a internet como ponte.

A coesão ideológica da chamada nova direita mistura conservadorismo, libertarianismo e reacionarismo. Soma-se a essas ideias a apologia do eugenismo e da segregação racial, fazendo com que a nova direita flerte com o nazismo e o fascismo. A diferença entre a “antiga direita” que surgiu após a Segunda Guerra Mundial e a nova direita – é que a nova direita rejeita a democracia liberal, ou qualquer sopro de democracia. A nova direita é contra muitas conquistas progressistas do século XX: a Declaração Universal dos Direitos Humanos, direitos das mulheres, direitos trabalhistas, instituições políticas multilaterais internacionais.

Já não é um consenso entre a direita os governos de Margaret Thatcher e Ronald Reagan na década de 1980 e o seu neoliberalismo gestado na Escola de Chicago. É na escola Austríaca que está as ideias da nova direita, bebendo dos mais radicais, basta consultar Hans-Hermann Hoppe, Democracia: o Deus que falhou (São Paulo, Instituto Ludwig von Mises, 2014) e Murray Rothbard, A anatomia do Estado (São Paulo, Instituto Ludwig von Mises, 2012).

Steve Bannon, que elegeu Trump e Bolsonaro, agora é agitador da extrema direita europeia – se define como um “nacionalista econômico” e tem como objetivo principal o “desmonte do Estado administrativo”. Ou seja, o Estado que deve ser desmontado é aquele que garante direitos ao povo e o Estado que deve ser mantido é aquele da repressão policial.

O mote da nova direita em relação à cultura é que os marxistas querem destruir a civilização ocidental, pois não conseguiram fazer revolução tomando os meios de produção. Segundo eles, os comunistas passaram para uma guerra cultural para derrubar o capitalismo. “Isso aí, é fakenews de vocês, taoquei?!”. Dessa paranóia surge ataques à refugiados, a agenda pelos direitos LGBTs, à ONU, Pablo Vittar, Anitta, Escola de Frankfurt e Antonio Gramsci.

Flávio Rocha empresário membro do Fórum da Liberdade, evento que reúne os “liberais” brasileiros falou que: “O fantasma que nos assombra diante dessa eleição [de 2018] é o fantasma do marxismo cultural”. Não é nova a ideia do “marxismo cultural” como conspiração, é uma reedição de uma teoria da conspiração da década de 1930: a do bolchevismo cultural. O termo bolchevismo cultural foi bastante usado pela propaganda do Partido Nazista, foi usado também por governos de extrema-direita europeus para denunciar movimentos modernistas nas artes.

Com o fim da Guerra Fria foi preciso criar uma estratégia eleitoral afastada do debate econômico, já que o liberalismo se tornou um consenso na direita e na esquerda norte-americanas, por isso dois conservadores – Pat Buchanan e William S. Lind trouxeram a narrativa do marxismo cultural de volta para o meio político. A ideia de um “marxismo cultural” criava um inimigo comunista onipresente: na educação pública, na mídia, nos ativistas dos direitos civis, na indústria cultural, etc.

É muito perigoso a aceitação da teoria da conspiração do marxismo cultural já que ela traz ideologias nazifascistas: teorias da degeneração cultural, racial, conspirações vagas que estariam tentando destruir você, sua família e sua propriedade. A conspiração precisa ser vaga, ampla e maleável: professores doutrinadores, artistas gayzistas e maconheiros financiados pela Lei Rouanet, banqueiros socialistas ou globalistas da ONU.

Dizer que o nazismo e o fascismo são fenômenos da esquerda é uma tática da extrema direita para buscar mais conservadores para o seu lado. 

Os piores pesadelos da humanidade voltaram à pauta e a esquerda está pouco preparada. Espero que possamos ler e responder rapidamente a conjuntura à altura dos desafios.

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