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O direito das mulheres de trabalhar

Por Juliana Drumond

A notícia de que o governo do estado contrataria militares reformados para as funções de porteiro, inspetor e mediador de conflitos nas escolas é mais uma tentativa de impor a militarização das escolas. Se valendo de um tema com apelo popular, que é a segurança dos (as) estudantes nas escolas, o governo apresenta de modo sutil uma intervenção no dia a dia da comunidade escolar.

A proposta mostra o desinteresse do governo em atender às verdadeiras necessidades das escolas públicas no estado do Rio de Janeiro. Além da natureza violenta e ameaçadora do projeto, chama atenção ainda o fato “dessa proposta de segurança”, que já é problemática, ter um caráter misógino, dado que o corpo dos profissionais da escola é composta por muitas mulheres.

Professoras, inspetoras, porteiras, cozinheiras, coordenadoras e diretoras. É no mínimo incômodo identificar a ausência de mulheres como possíveis instrumentos dessa “política de segurança”.

Pensar a escola com todas as suas vivências e todos os seus dissabores desde a falta de estrutura até as diversas situações violentas, é perceber que são as mulheres as protagonistas nas experiências vivenciadas no ambiente escolar. São essas profissionais que seguram “o boi pelo chifre”, são essas profissionais nas suas diversas áreas que colocam a escola para funcionar.

Sabendo da necessidade da mulher se manter empregada e ter acesso à dignidade e à cidadania através do trabalho, mesmo que seja a partir de um contrato de trabalho temporário, como pensar uma proposta para as escolas que não incluíam no seu corpo de funcionários as mulheres?
Contamos com uma imensa maioria feminina nas universidades de pedagogia, entre outras especialidades voltadas para o ambiente escolar. E os cursos de formação de porteiras e inspetoras também acompanham essa tendência. Então, como não incorporar esse contingente de profissionais?

Pensar uma proposta para as escolas que não contemple as mulheres enquanto trabalhadoras é colocar no colo de outras mulheres, as que já estão nas escolas, a culpa dos atuais problemas enfrentados. Uma vez que a solução apresentada se dá pelas mãos de um majoritário contingente de homens de meia idade. A imensa maioria dos reformados das forças armadas é de homens.

Essa misoginia para além do conteúdo simbólico tem um faceta econômica. Essas trabalhadoras da educação também sustentam suas casas, muitas vezes sem ajuda do companheiro.

Pensar a escola é perceber as mulheres que estão na construção desse ambiente escolar. É tirar do silenciamento mulheres em sua maioria negras e periféricas que estão experienciando o dia a dia das escolas e admitir que não dá pra pensar em proposta “de paz” para as escolas sem ouví-las, sem inseri-las nesse debate. Por isso, impedir que as mulheres possam participar da seleção para vagas abertas nessas contratações é retirar a possibilidade de sustento de várias famílias. Esse impedimento é mais um exemplo do modo como a misoginia se coloca velada – passando até mesmo despercebida – nas disputas por espaço, por trabalho e nas relações de poder.

Juliana Drumond é Professora da Rede Pública do Rio de Janeiro e do Movimento Resiste Meriti.

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Um Comentário

  1. Soluções a curto prazo podem se tornar bolas de neve, e neste caso ela já nasce como avalancha. Ora, governador, há de se conhecer melhor a realidade das escolas, ouvir a comunidade escolar para se tomar decisões. Se não torna-se espetáculo somente. Decisão com cara de sorvete no verão; não dura mais que alguns minutos de frescor.

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