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A Revolução portuguesa foi feita pelo povo

Por Thiago Mantuano

48 anos de ditadura derrubada por soldados simpáticos com cravos nas mãos. Os brasileiros que sabem o que houve no dia 25 de abril de 1974 em Portugal muitas vezes se deparam com a interpretação de uma revolução assim: esterilizada e sem povo. A memória pode ser culpada disto, porque durante as décadas de 40, 50 e 60 muitos portugueses fugiam da ditadura e encontravam no Brasil seu abrigo. Quando aqui os soldados não eram nada simpáticos e muito menos emancipadores, chegou a notícia da terrinha de que lá os jovens do Movimento das Forças Armadas conquistaram o poder ao povo e com cravos nos canos das baionetas.

O engano encobre tanto a Revolução, quanto o processo histórico de massas e também a dureza da ditadura salazarista. Décadas de guerra colonial, industrialização dependente e insuficiente, enriquecimento deliberado de um pequeno grupo de burgueses nacionais e submissão nacional face aos capitais internacionais associadas à repressão política, analfabetismo em níveis alarmantes e uma estrutura fundiária de mercado que esmagava os pequenos produtores, trazendo a fome de tempos em tempos para a cidade, fizeram da ditadura comandada por Marcelo Caetano um bicho anacrônico na Europa Ocidental. Anacrônico, mas conveniente, segundo alguns estudiosos da história portuguesa contemporânea.

O início da década de 1970 foi marcado pela fermentação interna e ilegal da contestação a esse estado de coisas. No exílio as denúncias eram frequentes e aumentavam a pressão sobre o regime de Caetano. Dentro das forças armadas as tensões entre os favoráveis e os contrários a guerra se converteram em tensões entre os favoráveis e contrários ao regime. Muitos portugueses morreram numa guerra sem sentido. Alguns historiadores dizem que foi o desgaste com a guerra colonial que derrubou, mesmo, a ditadura portuguesa.

A memória certamente engana, se é verdade que o 25 de abril foi convocado através do entoar de “E Depois do Adeus” de Carlos do Carmo, e da “Grândola” de José Afonso, na Rádio Renascença, pelos militares, também é verdade que o povo foi as ruas em solidariedade ao MFA, mas sedento por seu protagonismo.

E mais, além das ruas, os portugueses ocuparam as fábricas, as quintas, os bancos e passaram a constituir comitês de trabalhadores para gerir as unidades que os patrões abandonaram, também formaram sindicatos e fundaram partidos. Em realidade, deram corpo a antigos anseios e vida político-social aberta para boa parte das organizações que estavam na clandestinidade. Os partidos de esquerda foram fundados às dúzias e as suas lideranças, presas ou exiladas – que por anos deram muito trabalho à PIDE (polícia política) – alcançavam um prestígio incomum. Mário Soares, do Partido Socialista, e Álvaro Cunhal, do Partido Comunista Português, eram expressões da diversidade democrática e popular que o 25 de abril suscitou. 

Após alguns meses de mudança radical, estimam os economistas, que 18% das rendas do capital foram transferidas ao trabalho. O fascismo estava derrotado e o povo estava feliz!

A democracia que se projetou e, mesmo que apenas em partes, se construiu a partir do 25 de abril, não era algo como “meter mais um voto a urna” e, sim, era fruto de um profundo anseio do povo sobre dar rumo próprio ao seu destino.

Assim interpretou Sérgio Godinho:

“A paz, o pão, habitação,

saúde, educação 

Só há liberdade a sério quando houver 

Liberdade de mudar e decidir 

Quando pertencer ao povo o que o povo produzir 

Quando pertencer ao povo o que o povo produzir”

25 de abril sempre, fascismo nunca mais!

Viva o povo português!

Thiago Mantuano é professor de História e doutorando em História pela UFF.

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