Wanderson Pimenta

Em defesa da revolução

Por Wanderson Pimenta

“Todos os golpes decisivos são desferidos com a mão esquerda.”
(Walter Benjamin)

É provável que as imensas derrotas políticas no final do século 20 tenham colocado em crise profunda a perspectiva da construção de uma esquerda vocacionada à tomada do poder. E, quando me refiro a tomada, me refiro, necessariamente, à conquista do poder político pela classe trabalhadora e pelo povo pobre a partir de uma luta de libertação nacional. 


Reforço, por sinal, o caráter violento desse processo. Sem ilusões, já que não há registro histórico de dominação burguesa que não tenha sido imposta sob fogo e sangue. Muito menos conquista do poder por parte das massas fruto de benesse ou concessão dos opressores. Da luta encarniçada entre classes, na minha modesta opinião, nascerá os pilares do poder popular e da construção do socialismo. 


Esses “lugares-comuns” ou “chavões” parecem consensuais na esquerda organizada. Contudo, isso não é verdade. Primeiro porque a esquerda majoritária incorporou como tática uma suposta “luta permanente pela hegemonia”, seja lá o que isso signifique. Na prática, se transformou na vocação de governar a partir de vitórias eleitorais e amplas coalizões. Como resultado, a domesticação das organizações, o abandono da luta revolucionária e o conformismo frente à realidade objetiva, além do fortalecimento do inimigo camuflado na paisagem que soube dar o bote no momento certo. E a nossa ilusão sobre uma suposta estabilidade democrática, muito mais fruto dos nossos desejos do que das intempéries da vida real. Mesmo as montanhas vem abaixo ou são destruídas; as placas tectônicas, invisíveis, insistem em ranger e sacudir as estruturas; o vulcão sob silêncio perpétuo pode cuspir fogo a qualquer momento. E nós, seres dotados de desejos, necessidades, vontades e, sobretudo, capazes de ação, não podemos nos dar ao luxo de permanecer impassíveis frente o inimigo que se movimenta e ataca.


É certo que o triunfo do neoloberalismo atingiu duramente a esquerda. Na Europa, de bons administradores do capitalismo passaram a retirada de direitos dos trabalhadores, ruindo suas próprias bases. Na América Latina, o apego à legalidade constitucional ajudou a fragilizar as experiências democráticas no Brasil, na Argentina e no Equador. Venezuela, Bolívia e Nicarágua resistem com dificuldades. A ausência de um horizonte estratégico revolucionário, ou seja, um programa de tomada do poder político pelo povo, me parece colocar a esquerda socialista diante de um “beco sem saída”.


Lutar apenas com flores nas mãos contra quem domina o Estado e dirige o aparato repressivo não me parece ser a estratégia mais eficaz: decepciona e deseduca. 


É óbvio que as oportunidades colocadas a nossa disposição pela democracia burguesa, como eleições, participação em sindicatos, entidades e movimentos, atos e protestos, devem ser utilizados à exaustão, ainda que mediadas, controladas e submetidas à legalidade do Estado putrefato de direito. A unidade de ação contra o terrorismo de Estado também é fundamental. 

Contudo, é preciso urgentemente no âmbito das organizações de esquerda, sem idealizações e desqualificações, um projeto estratégico de tomada do poder. Contra o Estado de Exceção permanente, a rebelião sem tréguas dos oprimidos. Não haverá recuo por parte da reação sem uma resistência disposta a ir até as últimas consequências. 

Wanderson Pimenta é advogado, e militante da Seara Advocacia Popular, que é um coletivo de advogados formado para garantir defesa de lutadores sociais alvos de perseguição política e jurídica.


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