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#DossiêDitadura: Mario Prata

Nesta sessão do #DossiêDitadura, Luan Ribeiro e Camila Pizzolotto se revezam na escrita dos textos que relembram as histórias de cinco militantes que desapareceram ou foram assassinados pela ditadura militar. 

Enterrado numa vala comum como indigente em 1971, sob alegação no IML de que não tinha nem nome, nem lenço, nem documento, Mario Prata tinha isso e muito mais. Mario de Souza Prata nasceu em 1945, em Cantagalo, na divisa fluminense com o estado de Minas Gerais. Veio para o Rio de Janeiro estudar Engenharia na UFRJ. Conhecido por ser ativo, simpático com todos e bastante inteligente, foi o último presidente do Diretório Central dos Estudantes da UFRJ, antes de ambos – Mario Prata e o DCE-UFRJ – tornarem-se clandestinos.

No contexto da barbárie da Ditadura Militar no Brasil, considerou que a luta armada seria a opção viável para a construção de um mundo justo. Após breve militância na ANL, foi no Movimento Revolucionário 8 de Outubro que viveu a luta política e morreu por ela. Do MR-8, recebeu a tarefa de comandar um “aparelho”, um esconderijo dos aparatos de confronto do movimento. No aparelho, localizado em Campo Grande, Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, era onde vivia com sua companheira de luta e vida, Marilena Villas-Boas.

Provavelmente foi na porta desta casa clandestina que sua vida foi ceifada, numa emboscada policial. Marilena também foi alvejada por balas policiais, mas não morreu ali. Ainda foi levada pelos militares e torturada, até morrer com um tiro no pulmão . Mario teve seu corpo levado ao DOPS, e marcas de espancamento são vistas na foto em registro do necrotério, o que levanta dúvidas ele morreu no local ou não. Aumenta a dúvida o fato de só ter sido enterrado 20 dias depois. Mesmo que fichado e facilmente identificado pela polícia do Regime Militar, foi dado pelo DOPS como indigente e enterrado no cemitério de Ricardo de Albuquerque. Sem que a família e amigos soubessem de seu paradeiro, não houve velório.

Hoje, 48 anos após sua morte, a história resgata sua alma do amontoado de ossos da vala comum. Seu nome reverbera, pois foi simbolicamente escolhido para representar o DCE da UFRJ, e mais alguns diretórios e centros acadêmicos pelo país a fora. Quando os estudantes da maior universidade federal do país gritam “Mario Prata: presente!”, dão um novo peso ao nome que a ditadura tentou fazer esquecer e falhou. Mario de Souza Prata é, talvez, o indigente desaparecido mais famoso que já se teve notícia, no Rio de Janeiro.

Luan Ribeiro é professor de História e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio) 

Camila Pizzolotto é doutoranda em História e militante da APS.

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