Ditadura

#DossiêDitadura: Aderval Alves Coqueiro

Nesta sessão do #DossiêDitadura, Luan Ribeiro e Camila Pizzolotto se revezam na escrita dos textos que relembram as histórias de cinco militantes que desapareceram ou foram assassinados pela ditadura militar. 

“Atira e mata”. Essas foram provavelmente as duas últimas palavras que Coqueiro ouviu antes de morrer, no apartamento em que morava no Cosme Velho. Sem camisa e de samba-canção, a única foto de seu assassinato foi feita no pátio do prédio, para onde fora arrastado seu corpo. 

Nascido em Aracatu, interior da Bahia, e só tendo estudado até o primário, Aderval teria uma vida próxima com a de seus conterrâneos que imigravam para o Sudeste em busca de melhores dias. Foi candango na obra de Brasília e trabalhou em São Paulo como operário da construção civil, além de ter sido operador de máquinas e vendedor. Seu destino final poderia parecido como a vida de muitos, não fosse a opção de se organizar no Partido Comunista Brasileiro.                                                                                              

A este homem, que só tinha a força de seus braços para oferecer em troca de salário, o mundo parecia sufocante, injusto. Depois de se desligar do PCB, “Baiano”, como era chamado por alguns, decide integrar o PCdoB e, por volta de 1967, torna-se militante da Ala Vermelha. Em 1969 é preso e torturado por Sergio Fleury, o mesmo Fleury que torturara alguns de seus companheiros de luta. 

Com o sequestro do embaixador alemão por parte de militantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN) e da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), a ditadura civil-militar decide libertar 40 presos políticos em troca do diplomata. Coqueiro era um desses que, tendo sido banido do território brasileiro, foi enviado para Argélia e depois seguiu para Cuba. Treinou a guerrilha, conheceu o socialismo como tanto almejava. 

Em janeiro de 1971, volta ao Brasil, na clandestinidade. Tinha deixado aqui Isaura, sua esposa, e suas duas filhas. Instalado em um apartamento na Rua Cosme Velho, Coqueiro viveu somente um mês até que as forças de segurança descobrissem seu paradeiro. 

Na notícia sobre sua morte, o Jornal do Brasil relatava que o militante havia reagido violentamente à prisão, onde teria trocado tiros com os policiais. Na foto, Baiano está de costas para cima e próximo de seu corpo aparece uma arma. O jornal comprava a versão da polícia e foi, coincidentemente ou não, o único órgão da imprensa permitido a fazer foto do cadáver. 

O zelador do prédio Francisco Soares conta que, ao ouvir a chegada da polícia ao local, foi logo à janela ver o que acontecia. O oficial do Exército manda Francisco entrar e, logo em seguida este ouve “atira e mata”. Francisco, chegando aos fundos do prédio, observou diversas marcas de tiro “não sabendo dizer quantas, estando ele [Coqueiro] somente de calção, sem camisa e desarmado. Também ouvi o policial dizer ‘bota a arma do lado dele’ […]”.

A versão do zelador do prédio, menos romanesca que a do jornal, só foi ouvida 25 anos depois da morte de Coqueiro, pela Comissão de Familiares Mortos e Desaparecidos Políticos. 

Aderval Alves Coqueiro foi alvejado pelas costas, no dia 8 de fevereiro de 1971, aos 34 anos. O sepultamento de seu corpo aconteceu no Cemitério de Inhaúma, Zona Norte do Rio de Janeiro. 

Camila Pizzolotto é doutoranda em História e militante da APS.
Luan Ribeiro é professor de História, pesquisador-colaborador na UFRJ e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio) 

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