Rio de Janeiro

As enchentes no Rio de Janeiro têm a assinatura de Marcelo Crivella

Por Luan Ribeiro

Nesta segunda-feira (08/04), o Rio de Janeiro viveu uma tensa noite de alagamentos e deslizamentos, devido a uma forte chuva, deixando vítimas fatais. Intermináveis plantões de notícia davam informações do caos na cidade, e filmagens aéreas mostravam os engarrafamentos quilométricos que se desenhavam nas avenidas cariocas.

Este já é o terceiro grande alagamento no Rio de Janeiro em 2019, num ritual que se repete ano após ano, mas que a cada vez se torna mais satânico. A cada chuva, mais casas perdidas e mais vítimas encontradas. E falando em encontrar, o que ninguém conseguiu achar foi a ação do prefeito Marcelo Crivella (PRB), que tem a habilidade especial de ser vago e omisso na administração da segunda maior cidade do país.

Nos comentários dos defensores do prefeito, nas redes sociais, lia-se correntemente o argumento de que a culpa é dos moradores, que jogam lixo nas ruas e encostas, entupindo bueiros e provocando deslizamentos. No liberalismo vira-lata, a culpa é sempre do Estado, a não ser que o governante seja de direita, porque aí a culpa é do povo, marginal por excelência. Ainda bem, então, que para rebater os cuidadores de prefeito, temos números:

Segundo matéria d’O Globo, a Prefeitura não gastou um centavo esse ano em drenagem de águas, nem em contenção de encostas. Se a gestão de Eduardo Paes (ex-MDB, atualmente no DEM) já deixava a desejar e ainda via seus cidadãos sofrerem com as anuais chuvas de início de outono, podemos dizer que Crivella supera facilmente seu antecessor em incompetência: Paes deixou a Prefeitura em 2016 gastando aproximadamente R$53 milhões em drenagem e R$62 milhões na contenção de encostas. No ano passado, o atual prefeito não gastou nem metade desta quantia para os mesmos serviços.

É claro que, sim, lixo na rua e em locais de risco não são o ideal para uma cidade de 7 milhões de habitantes, vivendo em meio ao caos; mas é de responsabilidade do cidadão comum a administração da conservação e saúde da capital do estado? Aquele que prometeu “cuidar das pessoas” nas eleições municipais de 2016 tentou, a qualquer custo, cortas os gastos para pasta de saúde e saneamento básico em mais de R$700 milhões para 2019. O corte, pela pressão dos movimentos da saúde, foi menor. Apesar dos recursos baixos, havia dinheiro; e ainda assim, os gastos estão visivelmente abaixo da verba disponível: entre 2017 e 2019, o prefeito gastou apenas 22% do que havia em caixa para a contenção de tragédias pluviais.

As enchentes, portanto, podem chegar de surpresa, mas não é desculpa para que a casa não esteja arrumada. O estrago explica-se na falta da coleta efetiva do lixo da cidade, combinada com a deficiente reposição de lixeiras pelo Rio de Janeiro, a pouca manutenção dos canais e dos piscinões subterrâneos e a ação a dos órgãos públicos. A Prefeitura, após dois anos e meio de mandato, ainda não tem um plano contingencial para o anual evento das chuvas. Se um dos pilares da campanha de Marcelo Crivella foi em 2016 a instalação de bueiros eletrônicos, que avisassem dos perigos de enchente, na realidade nem mesmo a competência de acionar as sirenes de emergência, em área de risco, a administração municipal teve. Não coincidentemente, duas vítimas fatais da chuva de ontem eram moradoras do Morro da Babilônia, na Zona Sul, e neste morro não foi acionada a sirene por simples negligência.

O despreparo da Prefeitura para lidar com o corriqueiro é uma receita de tudo de ruim: combina uma dose de incompetência com uma colher de desmonte da coisa pública. É cada vez mais nítido ao carioca que o corte de verbas na saúde, no saneamento e na prevenção de tragédias é um projeto aloprado de uma administração indiferente à sobrevivência ou não de sua população. Há a responsabilidade de cada cidadão em manter seu município numa situação salubre. Entretanto, na megalópole carioca, ação individual é obviamente insuficiente: e é por isto que se votou em um prefeito, que teoricamente daria estrutura para que o Rio não se afogue nem em lixo e nem em lama. Porém, infelizmente, este que recebeu os votos foi justamente Marcelo Crivella.

*Luan Ribeiro é professor de História, pesquisador-colaborador na UFRJ e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio)

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