Ditadura

#DossiêDitadura: O papel da cultura na resistencia à ditadura militar

Por Caio Teixeira

Nós da esquerda sabemos que o regime vivido no Brasil entre 1964 e 1985, foi resultado de um conluio de parcela dos militares com setores empresariais civis. Também entendemos que quem mandou de fato, quem exerceu o poder político, foi o Alto Comando das Forças Armadas. Os militares tomaram a Presidência da República, cargos centrais em todos os órgãos da administração federal direta e indireta, como ministérios e empresas estatais, alguns se tornaram governadores de Estado. 

Controlavam a sociedade com aparelhos de informações, liderado pelo Serviço Nacional de Informações (SNI) e formada por milhares de informantes, e com tentáculos operacionais como: Operação Bandeirante (OBAN), Centro de Informações do Exército (CIE), Centro de Informações da Aeronáutica (CISA), Centro de Informações da Marinha (CENIMAR) e o Destacamento de Operações de Informação – Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI). Ainda contavam com ajuda de organizações civis financiadas por empresários de São Paulo, Rio de Janeiro e do governo dos EUA, como o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES) e do Instituto Brasileiro de Ação Democrática (IBAD).

A censura colocada a partir de 1964 criou uma série de assuntos proibidos, tentativa essa, de impedir que a população conhecesse os acontecimentos tenebrosos da ditadura e sua violência imposta à população. A comissão da Verdade do Estado de São Paulo Rubens Paiva concluiu em seus trabalhos que os temas apresentados pela imprensa alternativa carecem até hoje de um debate mais amplo. A Comissão entendeu que a censura e cultura imposta impedem até hoje que sejam superados problemas vividos por integrantes de movimentos sociais. 

O cenário musical, o teatro e o cinema tiveram um protagonismo indiscutível. No final dos anos 60 e nos anos 70 a arte falava do seu tempo, que também era momento de mudanças nos costumes: abertura na sexualidade e protagonismo da mulher na sociedade, por exemplo. As artes são influenciadas por esses elementos e impulsionam movimentos contra a burguesia e contra a ditadura militar.

A repressão não impediu que os mais variados setores da sociedade tenham se mobilizado em reação aos desmandos dos governos militares. Ao contrário, quanto mais as censuras se aprofundavam, os movimentos de resistência radicalizavam, a Passeata dos Cem Mil e o crescimento de organizações da luta armada, são exemplos.

No teatro, muitas peças tinham um forte teor revolucionário. Nos palcos do Arena, TUCA, Opinião e Oficina, espetáculos eram montados contra a ditadura e seu conservadorismo social. O Centro Popular de Cultura (CPC), ligado à União Nacional dos Estudantes (UNE), era fortemente influenciado por Bertolt Brecht, entendendo o teatro como uma importante ferramenta política. Com o AI-5, muitas companhias de teatros foram perseguidas e fechadas, isso não impediu a realização e a força de mobilização dessas peças. 

Já no cinema, a maioria das produções era realizadas pelos artistas do Cinema Novo. O movimento trouxe reflexões sobre a identidade nacional brasileira e possuía engajamento político na luta pela democracia. O Cinema Marginal, que surgiu ainda na década de 60, também foi vanguarda no papel de conscientização sobre a triste realidade brasileira.

A produção musical passou por Tom Jobim, Vinicius de Moraes, Gal Gosta, Os Mutantes, Secos e Molhados, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque entre outros e outras, que elevaram a música nacional a níveis de criatividade que fizeram muito barulho. O Tropicalismo foi um dos movimentos mais representativos desse período, se posicionavam contra o imperialismo econômico norte-americano usando a guitarra elétrica. Os festivais de música eram a válvula de escape dessas produções e foram muito importantes por serem transmitidos por grandes emissoras de TV como Excelsior, Record e Globo.

Os anos da ditadura militar fizeram com que fossem canalizados boa parte da resistência ao regime para a produção cultural de esquerda, houve uma boa articulação entre os estudantes, artistas e produtores culturais fizeram artes emblemáticas para a politização e renovação cultural.

“Quem tem consciência para ter coragem

Quem tem a força de saber que existe

E no centro da própria engrenagem

Inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado

Quem já perdido nunca desespera

E envolto em tempestade decepado

Entre os dentes segura a primavera”

Secos e Molhados – Primavera nos dentes, 1973

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