Brasil

A mobilização impede retrocesso na saúde indígena

Por João Carlos Barreto

Depois de muitas manifestações dos povos indígenas de Norte a Sul do país, no final do mês de março 2019, os índios tomaram ruas e praças, fecharam rodovias e ocupando repartições, com ampla cobertura da insatisfação nas redes sociais com a medida do Governo Bolsonaro de municipalizar a Saúde Indígena. A imprensa nacional deu pouca ou nenhuma cobertura, mesmo assim as denúncias nas mídias sociais e a força dos povos indígenas evitaram o pior.

A Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), no dia 28 de março, distribuiu nota sobre a reunião da instituição com o Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Na nota a Abib informa que “Inicialmente o ministro se mostrou irredutível, inclusive apresentando uma visão ultrapassada sobre os povos indígenas. Demonstrando clara intenção de adotar um modelo fragmentado. Expressou ainda, uma classificação de “índio antropizado”, “semi antropizado” e “não antropizado” para justificar mudanças na política de atenção a saúde indígena. Todos as lideranças indígenas presentes foram unanimes em afirmar a continuidade do subsistema de saúde indígena, mantendo a estrutura atual: Sesai, Distrito Sanitário Especial Indígena (Dsei`s), Casas de Saúde Indígena (ASAIs)  e Pólos base; com o aprimoramento das ações”.

Por sua parte os indígenas presentes ao encontro enfatizaram que “não somos coniventes com nenhum tipo fraude, corrupção e desvio, sendo que ele como ministro tem o poder-dever de investigar e determinar providências. E ainda, o movimento indígena ressaltou que há anos as lideranças vêm denunciando as indicações e interferências política para os Dsei`s”.

Ao final do encontro ficou acertado haver encaminhamento concreto com o ministro afirmando que a Sesai permanece e que irá instalar o grupo de trabalho já proposto anteriormente para fazer a avaliação da política de atenção à saúde indígena e levar para decisão na 6º Conferência Nacional de Saúde Indígena.

Estiveram presentes na reunião representantes do Fórum de Presidentes dos Conselhos Distritais de Saúde Indígena (Condisi), do Sindicato dos Profissionais e Trabalhadores da Saúde Indígena (SindCoPSI), representantes das organizações indígenas regionais e lideranças de vários povos indígenas.

Saúde diferenciada

A maioria das pessoas pensa que os tratamentos de saúde entre brancos e indígenas são os mesmos, em parte, sim, o corpo humano é o mesmo, mas existem alguns detalhes que muitas vezes tornam o tratamento indígena mais especifico e até potencialmente mortal. Sobre essa diferença ouvimos o indigenista e escritor, Fernando Schiavini.

De acordo com Schiavini, “são populações que não possuem resistência orgânica para determinados vírus, doenças que foram trazidas desde a colonização e até hoje acometem as populações indígenas, mas aqueles vírus iniciais de tuberculose, sarampo, varíola, etc. Hoje razoavelmente controlados pelas vacinas, foram substituídos pela diabetes, que é gravíssimo, cardiopatias, pressão alta, que são as doenças modernas do mundo moderno devido a alimentações que são impostas a eles também, tudo que provoca doenças aqui, começam a provocar lá, também.”

“O problema continua sendo a pouca resistência (imunológica), se o acesso a Saúde Pública para a população em geral já é difícil, imaginem para o indígena que é discriminado nas cidades próximas, tidos como pessoas de última categoria. Nunca vão ter chances de realmente ver um médico. Além disso, eles estão a grandes distâncias, muitos quilômetros, aldeias na Amazônia com acessos só por avião ou vários dias de barco. Quem é que vai lá prestar assistência para as doenças que nós levamos para eles? Doenças que eles não pediram que nós levamos constantemente e continuamos levando.”

“Isso é obrigação de Estado, sim, Rondon pregou isso, esse é o nosso trabalho. Que o Estado faça o melhor na proteção às vidas e dos territórios indígenas, esse é o legado rondoniano que a gente segue. Infelizmente tem governos dentro do Estado que fazem esse tipo de ameaça, querendo abandonar os indígenas a própria sorte. É a morte, morte de muitos, de milhares, já morrem muitos nas aldeias pessoas jovens com o atendimento deficiente da CESAI, imaginem se não houver a CESAI?  Vai morrer muita gente ”. Concluiu Fernando Schiavini***.

***Fernando Schiavini é autor dos livros De Longe Toda Serra é Azul, Os Desafios do Indigenismo e Diário de Campo 2008/2009.

João Carlos Barreto é jornalista e é de Goiânia-GO

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