DitaduraDossiês

#DossiêDitadura: Dia da Mentira

A Companhia de Circo Pétalas ao Vento surgiu em 2013, com o objetivo de difundir as técnicas circenses como ato de resistência. Além das aulas de técnicas circenses, o grupo produz espetáculos que discutem gênero, desigualdade social e contextos de opressão. 

Dia da mentira é um espetáculo multimídia convergindo diversas linguagens artísticas e tendo como tema central a Ditadura militar no Brasil.

O nome da obra se constituiu a partir da data em que foi instaurado o golpe militar no Brasil. Coincidentemente à data na qual é comemorado o dia da mentira, na madrugada de 1o de abril de 1964, o presidente João Goulart foi deposto por um golpe de Estado. João Goulart anunciava colocar em prática as Reformas de Base, com objetivo de reduzir a concentração de renda e de terras no país. Visando assegurar a hegemonia de uma determinada classe social, a direita acusou o Presidente de ser comunista. Tal como muitos mitos são disseminados a respeito da disciplina, ordem e da bonança econômica no Brasil, o golpe militar se baseou numa grande mentira. 

A produção artística é resultado de um estudo aprofundado sobre os casos de perseguição política e tortura e foi concebido como resultado de uma pesquisa que se desenvolveu através de diversas entrevistas realizadas, acerca das memórias dos perseguidos e exilados pela ditadura militar brasileira em especial, os que tiveram entes queridos desaparecidos.

As entrevistas, realizadas pela artista Marthinha Böker-Tôrres, tinham, inicialmente o intuito de investigar o desaparecimento de um tio que, segundo relatos, teria sido preso em 1976. Seu tio jamais foi encontrado. Em 2016, durante a votação do impedimento do mandato da Presidente eleita, Dilma Rousseff, nervoso com o discurso do Deputado Jair Messias Bolsonaro que, exaltava o torturador Ustra, o pai da artista, teve um AVC que, o levou a óbito. Marthinha tinha uma centena de registros e muitos sentimentos relativos ao tema e decidiu propor uma montagem junto aos integrantes do Grupo Pétalas ao Vento. 

O trabalho foi concebido num formato que representa três momentos significativos: IN MEMORIAN, com relatos a respeito de mulheres torturadas e desaparecidas; RESISTÊNCIA, com a leitura dramática que apresenta a tortura e o ato de luta dos revolucionários da esquerda brasileira à favor do socialismo; e DESPEDIDA, com a encenação que recria o momento saudoso entre um casal separado pelos militares em 1968 que, jamais voltaram a se reencontrar. Interpretamos diversos discursos através das três personas. O espetáculo mescla a ficção com o real, expondo biografias de pessoas que atravessaram o universo estudado. Apresentamos um compromisso com a realidade, sem que se configure uma reprodução fidedigna do real, nem tampouco um afastamento total do ficcional. 

Muitos dos entrevistados pediram que seus nomes não fossem revelados e que suas vozes gravadas, não fossem reproduzidas em público. Assim, algumas narrativas foram reescritas e gravadas nas vozes de alguns artistas. A partir das entrevistas e de diversas pesquisas, Felipe de Gois mixou narrativas, criando um formato que chamamos de “relato poético”. Os relatos das experiências esquivavam-se do real para manter em sigilo as identidades dos entrevistados, mas mantendo a veracidade do discurso e do vivido.

Durante o espetáculo, Marthinha, Douglas Rodrigues e Lara Böker quebram a quarta parede, entregando ao público, poesias e relatos de Alex Polari, Frei Tito de Alencar, Torquato Neto, Caetano Veloso, Ivan Lins e Chico Buarque.

Articulando investigações em dança e técnicas circenses e utilizando-se também do teatro documental os intérpretes exploram o espaço aéreo, compondo uma sucessão de imagens, cuja mensagem é uma tradução subjetiva das projeções de vídeo e relatos gravados. 

O trabalho é uma produção contemporânea e híbrida, independente, que parte de um estudo sobre resistência, memória e discute a temática sob uma ótica poética e sensível, no qual honramos a memória daqueles que sofreram tentando iluminar o mundo com um pouco de verdade.

Intérpretes-criadores: Douglas Rodrigues Lara BokerMarthinha Boker Leitura dramática: Felipe de Gois, Mario Costa, Sofia Costa e Tais Besseau. Vozes dos Entrevistados: Diva Santana, Giulia Pegna, Jorge Carrano e Wanderson Pimenta.

Parte do Espetáculo pode ser assistido no link a seguir: https://www.facebook.com/marthinhaboker/videos/10205844457907866/


Companhia de Circo Pétalas ao Vento

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar