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#DossiêDitadura: Ditadura na literatura brasileira hoje: indicações de leitura

Por Carolina Peters

Nos anos 2000, com a vitória de coalizões progressistas em diversos países
da América Latina, o Sul do continente deu início a um importante processo de reconstituição histórica e avanços democráticos. “Memória, verdade e justiça” foi o lema que embalou partidos, movimentos sociais e setores organizados da sociedade civil a reabrir arquivos das ditaduras, ouvir testemunhos de vítimas, torturadores e colaboradores dos regimes ditatoriais, punir crimes cometidos contra a humanidade e reescrever narrativas nacionais. Em seus exemplos mais avançados, como na Argentina, Uruguai e Chile, em maior ou menor grau os Estados produziram autocrítica expressa, ressignificaram-se edifícios públicos e privados onde outrora se instalaram centros clandestinos (ou não) de repressão, e condenou-se dirigentes e colaboradores dos regimes à prisão.

No Brasil, as tímidas iniciativas governamentais restringiram a atuação da
Comissão Nacional da Verdade à coleta de dados, não resultando este material em qualquer ação judicial ou revisão da Lei da Anistia, a despeito da recomendação da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Contudo, iniciativas populares promoveram escrachos a notórios torturadores e apoiadores do golpe civil-militar de 1964; Comissões da Verdade foram instauradas em estados, municípios, universidades etc. e, a partir de seus trabalhos, pequenas reparações foram feitas, como é o caso da reversão pela Congregação do Instituto de Química da USP da demissão da professora Ana Rosa Kucinski por “abandono de função”, quando
desaparecida pelo Estado Brasileiro em 1974.

No vácuo das ações políticas – que nos custaram tão caro –, a arte e, em particular, a literatura, se abrem para revisitar o passado recente e debater os caminhos de nossas jovens e já moribundas democracias. Ainda longe de se consolidar como tema, os anos de chumbo ocupam um espaço modesto, mas significativo da produção contemporânea brasileira, seja como atitude política consciente e dirigida, seja porque a permanência do autoritarismo e do que Paulo Arantes apontou como “poder desaparecedor” (lembremos do pedreiro Amarildo) parece incontornável à sensibilidade artística. Seu maior expoente talvez seja K. – relato de uma busca, romance de estreia de Bernardo Kucinski, professor aposentado da Universidade de São Paulo. Baseado na história de sua irmã, Ana Rosa, K. foi lançado em 2011 pela pequena Expressão Popular, concorrendo no ano seguinte aos importantes prêmios São Paulo de Literatura e Portugal Telecom. Ganhou nova edição em 2014, pela finada Cosac Naify, acompanhando a publicação do volume de contos Você vai voltar pra mim, produzido a partir de depoimentos às audiências da Comissão Nacional da Verdade, e que conferiu a Bernardo o Prêmio Literário da Fundação Biblioteca Nacional. Com o fechamento da
editora, seus direitos de reprodução foram adquiridos pela Companhia das Letras.

Também pela extinta Cosac Naify, o ilustrador e roqueiro da cena underground Cadão Volpato publicou em 2013 seu primeiro romance, Pessoas que passam pelos sonhos. Ambientado nos anos 1960, entre Brasil e Argentina, retrata o encontro de duas famílias de classes sociais e trajetórias distintas, cindidas pela repressão. O tempo transcorre fora da linearidade rígida dos relógios, regido pelo estado psicológico de suas personagens: como num longo pesadelo, por vezes se adensa com as angústias da violência, por outras de dissolve em fantasias amorosas, impossíveis sob o jugo ditatorial. Republicado recentemente pela SESI-SP Editora, mantendo o mesmo projeto gráfico soturno e onírico, tão condizente com o tom da narrativa, pode mais uma vez ser facilmente acessado. Numa linha semelhante, a violência do regime militar e seu impacto sobre a postura que adota um patriarca em sua vida íntima é pano de fundo para Inventário de coisas ausentes (Companhia das Letras, 2014), de Carola Saavedra. Neste romance da autora de origem chilena, aquilo que resta da ditadura em nossa sociedade orienta as relações interpessoais, o desenvolvimento e manifestação – ou interdição – dos afetos. 

Em seu provocativo História natural da ditadura (Iluminuras, 2006), livro de difícil definição – seria um conjunto de contos de forte verve ensaística? um romance de tese composto por quadros de relativa autonomia? um misto de crítica de arte e relatos autobiográficos romanceados? – e leitura exigente, Teixeira Coelho nos convida a partilhar memórias e reflexões teóricas encenadas pelo próprio autor, pelo filósofo alemão Walter Benjamin, pelo artista plástico argentino León Ferrari… O livro se encontra, muitíssimo infelizmente, esgotado, caso semelhante ao de Volto semana que vem (2015), da jornalista e ex-militante trotskista Maria Pilla, mais um órfão da Cosac Naify e atualmente cotado por valor exorbitante em sites de revenda. 

A narrativa confessional escrita por Pilla se organiza como o diário de uma época fragmentada, onde a sequência das entradas – aludidas por ano e local de ocorrência do episódio narrado – não corresponde à sequência factual, mas a um movimento da memória que entrelaça os cheiros da casa e o convívio familiar à luta política e enfrentamento às ditaduras no Brasil e na Argentina, tecendo ao leitor uma história ao mesmo tempo particular e de seu continente. A organização das antigas lembranças dos anos de chumbo também serve de fio condutor para Não Falei, de Beatriz Bracher, publicado em 2004, pela Editora 34, e reeditado em 2017. Sob a sombra da tortura, a tensão entre as confissões e os não-ditos estilhaça a consciência e os laços afetivos do protagonista. 

Veterano na literatura e no tema, Marcelo Rubens Paiva lançou Ainda estou aqui em 2015, pela Alfaguara, quando se completaram 35 anos de Feliz ano velho, romance no qual trata do desaparecimento de seu pai, o deputado Rubens Paiva. No mesmo ano, Julián Fuks lançou seu premiado romance, A resistência,que retrata a busca de um jovem escritor por reconstituir a história de sua família, emigrada da Argentina para o Brasil nos anos 70, escrevendo um livro sobre o irmão adotivo. Repleto de coincidências autobiográficas, esta é e não é também a história da família do próprio autor. Mas o aspecto que mais me intriga neste romance, que pude investigar em um projeto de iniciação científica entre 2016 e 2017, é uma fala do personagem pai, em diálogo com o protagonista:

“As ditaduras, elas podem voltar.”

Reveladores, a despeito do senso comum, de uma literatura viva, implicada com seu país, diversa e eventualmente ousada em sua expressão, esse breve e incompleto catálogo de publicações demonstra, no campo da ficção e da produção artística, uma sensibilidade semelhante àquela recomendada por Walter Benjamin ao historiador materialista, para quem “articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘tal como ele propriamente foi’. Significa apoderar-se de uma lembrança tal como ela cintila num instante de perigo” (Sobre o conceito de história, VI).

Carolina Peters é militante feminista.

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