Gustavo Miranda

Redentorismo 2.0

Por Gustavo Miranda

Ganhou destaque na mídia na semana passada a escolha do Queniano Peter Tabichi como melhor professor do mundo. O prêmio é concedido pela Varkey Fondation. A vitória de Tabichi foi celebrada pela imprensa brasileira, que destacou, sobretudo, o fato do professor Queniano doar 80% do seu salário para ajudar as famílias de seus alunos.

Primeiramente é importante ressaltar o feito do professor que conseguiu avançar no aprendizado de crianças que convivem com muitas necessidades básicas, numa escola precarizada e em uma comunidade paupérrima. Algo a ser sempre reverenciado. Aliás essa é a realidade da maioria dos docentes no Brasil, que somado a isso convivem com a violência cotidiana e a cultura do ódio que se alastra entre nossos adolescentes. Além do contexto, o prêmio combinou criatividade, dedicação e superação do professor. Daí considerar também o fato de Tabichi trabalhar numa sala de 58 alunos, ter somente um computador e contar com precária internet.

O que está por traz da lógica desse e de tantos outros prêmios é a construção do professor como portador de missão redendorista. Isto é, o professor salvador, que traz para si a responsabilidade sobre a condição de aprendizagem do aluno, desconsiderando o meio social que o próprio aluno está inserido. Aquele que cujo ofício é uma missão, não uma profissão.

É muito comum se exigir esse comportamento do professor. Em geral essa lógica é reforçada pelos meios de comunicação empresariais, mas não somente estes. Os sistemas privados de ensino, com suas “palestras motivacionais”, as secretarias de educação e tantos outros “filósofos da educação”. Sem dúvida é uma imagem que está colada no ofício docente.
Imagine a hecatombe que seria se o melhor advogado ou engenheiro do mundo fosse aquele que doasse 80% dos seus ganhos para seus clientes. Infelizmente o redentorismo persegue à docência.

É uma cobrança cuja única contrapartida parece ser os parabéns no 15 de outubro. Pois, no caso do Brasil, até o direito de aposentadoria se pretende acabar com a dita “reforma da previdência”.

Essa lógica é reforçada pelo que mais parece um contrassenso que foi a entrega do prêmio ser feita pelo presidente do Quênia. No país com tamanhas debilidades para o exercício da profissão de educador o presidente é recebido com honras e ainda utiliza a premiação para fazer seu marketing pessoal. Fica a pergunta: no que a aquela premiação ajuda na melhora da educação do Quênia?

Fica óbvio que mais uma vez a culpa recai nos educadores, pois se não se atribui a responsabilidade ao gestor da educação daquele país a culpa só pode ser do professor.

Dito isso não resta dúvida que a luta por uma educação de qualidade e universal passa pela defesa da dignidade da profissão de educador. Homenagear essa profissão é tomar partido na defesa das suas condições de trabalho e de remuneração, valorizando a autonomia pedagógica, garantindo que o professor seja decisivo para incentivar mudanças estruturais na sociedade onde exerce seu ofício.

Gustavo Miranda é professor e coordenador-geral do Sindicato Estadual dos Profissionais de Educação do Rio de Janeiro (SEPE)

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