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#DossiêDitadura: Osvaldão

Nesta sessão do #DossiêDitadura, Luan Ribeiro e Camila Pizzolotto se revezam na escrita dos textos que relembram as histórias de cinco militantes que desapareceram ou foram assassinados pela ditadura militar.

Tinha quase dois metros de altura e calçava 46, tamanho que ajudava na luta. Osvaldo gostava da adrenalina que o boxe trazia, o suor a cada trocada de braço. Foi campeão no esporte pelo Vasco. Assim como muitos do seu tempo, gostava de ouvir Chico Buarque. Assim como poucos do seu tempo, o menino antes estudante de engenharia agora se aprofundava mais na luta por uma vitória da classe trabalhadora. 

Em 1964, entra na clandestinidade. A ditadura apertava cada vez mais o cerco sobre aqueles que não queriam se calar. O Ato Institucional número 5 decretava que o presidente da República poderia fechar quaisquer instituições federais quando bem entendesse. Além disso, também poderia suspender os direitos políticos de qualquer pessoa “no interesse de preservar a Revolução”. A discordância política seria motivo para prisão. As paredes tinham olhos.

Osvaldo decide se juntar ao Partido Comunista do Brasil (PcdoB). Desde 1966 o partido levava militantes para áreas no interior do país que, além de aprenderem novas profissões, ensinavam as crianças e moradores. Acreditavam na construção de um mundo justo ombro a ombro com os trabalhadores. Osvaldo viera nessa leva de guerrilheiros, para atuar no garimpo, na região do Araguaia, Pará. Eram ao todo 59 homens e 14 mulheres militantes na região, sendo que apenas 69 atuando na floresta. 

A luta incansável teve seu fim quando o exército descobriu as movimentações. Na primeira leva foram 3.200 soldados e logo depois mais 1.500. Além dos militantes, os que viviam no Araguaia também foram torturados pelo exército.  

Osvaldo levou um tiro na tarde do dia quatro de fevereiro de 1974. Para servir de exemplo para os moradores da região, que tinham muita simpatia pelo guerrilheiro, seu corpo foi içado e pendurado por uma corda em um helicóptero. Antes de sumirem com seu corpo, teve a cabeça cortada.     

Osvaldo Orlando da Costa ou Osvaldão, como ficou conhecido, virou lenda no Araguaia. Pela capacidade de se esconder na mata, alguns acreditavam que ele tinha o corpo fechado e poderia se transformar em borboleta, pedra ou árvore. Sua ossada nunca foi encontrada.

Camila Pizzolotto é doutoranda em História e militante da APS.

Luan Ribeiro é professor de História, pesquisador-colaborador na UFRJ e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio)

Fontes:

Gaspari, E. A ditadura escancarada. Cap. A floresta dos homens sem alma, São Paulo: Companhia da Letras, 2003.

http://cartamaior.com.br/?/Editoria/Cultura/-Osvaldao-narra-a-historia-do-mitologico-comandante-da-Guerrilha-do-Araguaia-/39/32021

http://legis.senado.gov.br/legislacao/ListaPublicacoes.action?id=194620

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