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#DossiêDitadura: A luta pela memória na cidade dos atrasos

Por Yuri Moura

Petrópolis sempre foi um dos cenários nos grandes acontecimentos políticos do Brasil. Assim foi na tão lembrada e constante presença da família imperial, na industrialização do país e seus consequentes movimentos de trabalhadores no início do século XX, também nos bastidores, na opressão e até na resistência do período da ditadura militar. A história do Brasil passa por nossa cidade!

No imaginário genérico somos uma quase província, um legado do que existe de mais conservador e elitista. O que se reproduz nas relações políticas e de poder, criando um município excludente, muito além do seu belo Centro Histórico. Porém, na materialidade da história, surgiram a resistência dos negros em seus quilombos da região serrana, as lutas dos trabalhadores e do movimento sindical contra o fascismo e em suas greves históricas, além das inúmeras invasões por moradia popular que até hoje nos dão esperança no sentido da organização comunitária. Petrópolis nunca foi simples de se entender, a sensação do interior sempre esbarrou na dinâmica de proximidade do grande Rio de Janeiro. O conservadorismo sempre foi incomodado pela mobilização do contraditório.

O resgate dessa memória será a coluna na construção de uma real identidade petropolitana; livre dos atrasos e do pensamento retrógrado imposto cotidianamente para seu povo. Este resgate se dará por meio de significados, de valores adormecidos em uma cidade atolada em problemas culturais, socias e econômicos. Princípios que foram forçosamente jogados para debaixo do tapete pelo interesses de poucos. Por aqueles os quais não é um bom negócio o povo saber que aqui se lutou e que aqui se pode lutar!

A Casa da Morte neste contexto é um símbolo, a possibilidade de disputa por um projeto de sociedade que se construa nos valores da democracia. A sua transformação em um Centro de Memória, Verdade e Justiça é a confirmação de tantas lutas por aqui travadas, a lembrança de que muita gente deu a vida por liberdade. Liberdade ao povo brasileiro, que é também a liberdade aos que ainda hoje morrem soterrados nas tragédias e suas encostas da serra, aos jovens que apanham do poder público nas praças da cidade, ao povo pobre refém de inúmeras máfias que enriquecem às suas custas. Ou seja, liberdade contra um projeto opressor de sociedade que compartilha sim das bases do ideário conservador da ditadura militar e que precisa ser exposto pela memória dos torturados e mortos na famigerada casa.

Após esforços da Comissão Municipal da Verdade de Petrópolis, do Centro de Defesa dos Direitos Humanos, do Grupo Inês Ettiene Romeu e de inúmeros movimentos sociais, hoje a casa está tombada. Mas a luta continua por sua desapropriação e transformação em um centro que não esconda a verdade. Os esforços continuam, não só nesta semana emblemática, mas também no dia a dia de quem conhece a história que não contaram sobre Petrópolis. O avesso do mesmo lugar!

Viva Leonardo Candu que aqui foi assassinado pelos fascistas. Viva Inês Ettiene Romeu que aqui foi torturada. Viva Marielle Franco que aqui foi desrespeitada. Viva cada negro e indígena escravizado que aqui deu sangue construindo a cidade. Viva a militância petropolitana que aqui não deixou que todos estes fossem esquecidos!

Yuri Moura é professor de história, gestor público e militante do PSOL Petrópolis.

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