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#DossiêDitadura: Meu tio Alaim e a memória da ditadura

Por Bárbara Araújo

No ano em que o golpe militar no Brasil completa 55 anos, descortinei um aspecto do meu passado. No ano em que o presidente do Brasil é um militar misógino, racista e amante do regime militar que exalta torturador. No ano em que o início de uma era de terror será comemorado pelos militares com respaldo (aliás, segundo a recomendação) institucional do Estado. Nesse ano eu resolvi perguntar mais uma vez sobre meu tio avô materno, Alain. E descobri uma porção de coisas.

Eu sabia, desde pequena, que meu tio avô Alain tinha sido algum tipo de ativista político torturado pela ditadura militar, que fora exilado e viveu a maior parte da sua vida na Alemanha. Não conheci meu avô, que morreu antes de eu nascer, e não tive contato com a família dele, pai da minha mãe, depois de já me entender por gente. Quando eu comecei a estudar História, principalmente nas reflexões sobre a ditadura militar, eu me lembrava do meu tio avô e imaginava… A que organização ele teria pertencido? Será que ele foi guerrilheiro? E nessa hora, é claro, como aprendi na faculdade, a “ilusão biográfica” corria solta. Eu ficava pensando que tinha uma origem da rebeldia naquela genealogia: um parente que havia sido perseguido na ditadura dava um ponto ancestral pra minha trajetória pessoal como militante política, de esquerda, feminista. Nós, que amamos a revolução.

Então em 2019, com a proximidade do aniversário do golpe, essa memória voltou. E resolvi perguntar mais uma vez. Meu tio fez uma rápida busca no Google e achou algumas coisas. E descobri que nunca tinha achado nada porque procurava “Alain” e não Alaim, como se escrevia corretamente o nome dele. Dei uma olhada no Google. E o primeiro resultado foi um livro em pdf, editado por um pastor protestante alemão, com cartas do meu tio-avô. O livro trazia um prefácio contando sua trajetória. Eu não tive acesso aos documentos citados e, como historiadora formada, sei que não dá pra confiar em uma fonte primária ou secundária sem fazer-lhe a crítica. Mas era a primeira vez que tinha informações sobre o meu tio, de quebra em forma narrativa, um texto corrido contando a vida dele. Mergulhei.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir: meu tio avô era de direita. Aparentemente um anti-comunista ferrenho. Que ironia ter tido uma neta marxista! Ele foi jornalista e escreveu para a Tribuna da Imprensa, veículo de Carlos Lacerda, ex-governador do estado da Guanabara e udenista proeminente. Parece que o tio Alaim era parceiro do Lacerda – que teria sido inclusive, quem articulou sua fuga do Brasil no início de 1969.

Ideologicamente alinhado ao Lacerda, meu tio teria sido opositor do governo João Goulart – ele era daquela galera auto-proclamada democrata liberal até o talo, que desprezava tudo que parecia comunista. E sabe o que o pessoal que era anti-comunista e detestava Jango e Brizola achou do golpe  de 1964, né? Pois é.

Estou escrevendo esse texto por dois motivos. Primeiro que fiquei meio abalada. Quando os nossos mitos de origem caem, não é mole segurar. O segundo motivo falo mais adiante.

Como o Lacerda, meu tio avô tomou uma rasteira com a ditadura. O A.I. 5 o derrubou: no fim das contas, a perseguição não se reservou aos comunistas. Campeão da direita nos anos Vargas e apoiador do golpe de 1964, Lacerda viu o tamanho do monstro que ajudou a alimentar quando já era tarde: foi companheiro de cela dos comunistas que tanto detestava no cárcere da ditadura. Já meu tio avô conseguiu fugir antes de ser preso novamente (a primeira prisão dele teria sido ainda em 1963, no governo Jango) e, no exílio, continuou escrevendo artigos para a Tribuna e foi publicado em outros veículos da imprensa nacional, atacando o governo e o Exército e defendendo o retorno da democracia.

O que me leva ao segundo motivo da escrita desse texto.

Na cena pública brasileira dos últimos anos discursos de repúdio à ditadura convivem com clamores pela volta dos militares ao poder e exaltações à tortura. A falsificação do passado vitimou a nós, professores de história, que nos tornamos inimigos de estudantes cujos gurus são youtubers raivosos que nos chamam de mentirosos porque nossas aulas apontam para os horrores do passado. Não só a tortura, mas o congelamento de salários da classe trabalhadora. Não só a censura, mas a concentração de renda gerada pela ditadura, o desmonte da educação pública de qualidade e a multiplicação da dívida externa brasileira.

Isso tem a ver com o fato de que quem orquestrou o golpe e comandou o regime não foram apenas os militares, mas empresários de companhias que nunca deixaram de defender seus interesses privados inclusive no plano ideológico. Eles financiam também essa falsificação do passado, muito ajudada pela forma como a ditadura veio a cabo no nosso país: como uma anistia que incluiu os algozes, os torturadores, os perpetradores dos horrores a mando do Estado. Nós não fizemos o luto desse processo histórico. Não julgamos os nossos algozes como os argentinos e os chilenos, não fizemos monumentos grandiosos de memória como os alemães fizeram para as vítimas do holocausto. Varremos para baixo do tapete. Apostamos no esquecimento. Eles apostaram que esqueceríamos. Alguns esqueceram, outros nem chegaram a aprender. E nos encontramos hoje tendo como presidente um homem que faz o elogio do horror, cujo ídolo maior é um torturador dos mais sádicos do regime.

Hoje há quem esteja convencido, na mesma linha de que “bandido bom é bandido morto”, de que a ditadura só matou “vagabundo comunista” e que as pessoas “de bem” ficaram ilesas e seguras. Isso é discutível de uma série de perspectivas: desde o fato de que no Brasil não há pena de morte e mesmo a lógica de encarceramento de pessoas que descumprem leis é problemática, até o fato de que crianças pequenas foram vitimadas pela tortura e pessoas dos mais diversos espectros políticos. A suspensão da democracia não silencia apenas a esquerda, ou pessoas progressistas, ou revolucionários comunistas. Ela atinge todo mundo. Ela atingiu Carlos Lacerda. E atingiu – e muito – meu tio avô também. O exílio não tinha nada de glamuroso. Pense na situação dos refugiados pelo mundo hoje. Então…

Mas a História, ao contrário do que queriam os iluministas, não é Mestra. O Lacerda aprendeu uma lição, mas essa lição se desmancha no ar, como tudo que é sólido sob esse sistema social em que vivemos. O liberalismo democrata do meu tio-avô não o protegeu de ser vitimado pela ditadura. Nem seu anti-comunismo. Mas o discurso anti-comunista legitimou o golpe de 1964 no cenário público. Era uma salvação do Brasil diante do perigo vermelho. Tudo, menos os vermelhos. A nossa bandeira jamais será vermelha. Familiar, não? Atual.

Em 2019, na disputa pela memória também estamos perdendo. Mas não podemos abandonar essa luta, pela memória e a exemplo daquelas e daqueles que lutaram contra o regime que vitimou tanta gente – e ainda hoje o faz, se pensarmos nas famílias que ainda sofrem com a falta de respostas sobre seus “desaparecidos”. Se meu tio avô não era o comunista que eu sonhava, foi, apesar de tudo, um democrata no exílio. Depois do choque, chega a ser engraçado imaginar o que ele ia acha da sobrinha neta comunista. Admiradora de Jorge Amado, de Marighella, de Thereza Santos, nossos mortos heróis. E como disse o marxista alemão Walter Benjamin, “também os mortos” – e os desaparecidos – “não estarão em segurança se o inimigo vencer. E esse inimigo não tem cessado de vencer”. É por nós e por eles. Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

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