Gustavo MirandaWanderson Pimenta

Fogo no andar de cima

Notícias dão conta da prisão de Michel Temer e seu ex-ministro Moreira Franco. Elas ocorreram no âmbito de um dos inúmeros inquéritos que o ex-presidente respondia quando possuía foro privilegiado mas que foram deslocados para a primeira instância a partir do fim do mandato. Marcelo Bretas, Juiz Federal da Sétima Vara Criminal do Rio de Janeiro expediu o mandado de prisão. 
Não precisa estar muito atento para perceber que esse fato está diretamente relacionado a um dos tentáculos da Operação Lava Jato. Michel Temer, que soube melhor do que ninguém se beneficiar dos louros dessa operação quando esta se virou exclusivamente contra o PT, longe de ser a pessoa mais íntegra do País, costurou o quanto pode a sua não ida à prisão.

Dito isso, importante destacar o papel de alguns agentes nesse cenário. O STF, que ensaia uma briga com a “Força Tarefa”, nos episódios da criação do fundo bilionário para um setor do MPF e na abertura de inquérito para apurar “fake news” contra o Tribunal, sempre “passou pano” para a Lava Jato. Uma ou outra vez, como no episódio envolvendo o “capo” da Fetranspor, Jacob Barata, Gilmar Mendes peitou Bretas  (na oportunidade Bretas atropelou um Habeas Corpus concedido por Mendes no que foi sucedido por uma outra ordem do Ministro do Supremo).
Mas o que uma coisa tem a ver com a outra?
Se tudo isso fizer sentido, a prisão de Temer é um ataque da Lava-Jato contra o STF. O ex-presidente, cujo perfil revela uma notória capacidade de articulação política nos bastidores, esteve sempre na proa da política nacional nas últimas décadas. De antigo advogado de bicheiros em São Paulo, passando por festejado constitucionalista e professor universitário, Temer foi constituinte em 1988; deputado federal pouco votado mas extremamente influente nos governos FHC e Lula; de longevo Presidente do PMDB, não demorou muito para abocanhar a vice na chapa de Dilma Rousseff e, nessa posição privilegiada, ajudar a derrubá-la.
Por outro lado, é uma resposta a um outro articulador do governo Temer, o atual presidente da Câmara, Rodrigo Maia. Basta lembrar que Moreira Franco, por exemplo, é o seu sogro. Ao comprar uma briga pública com o Ministro Sérgio Moro por conta do tal “pacote anti-crime”, que qualquer leigo mais atento sabe que o tal projeto é uma gambiarra jurídica, Maia atraiu a ira da “Força Tarefa”. No bolo dessa rinha, uma pressão extra para que Rodrigo Maia conduza sem pestanejar o desmonte da previdência e o armengue de Moro.

Numa cajadada só a Força Tarefa matou dois coelhos, ou melhor, prendeu Temer e Moreira Franco, vulgo “Gato Angorá”. De quebra, espremeu contra a parede todo o STF  (não nos esqueçamos que o relator do inquérito que investiga as fake news contra o Supremo é Alexandre Morais, indicado por Temer) e Rodrigo Maia.

 Eis somente terrível briga no “andar de cima”. Uma disputa encarniçada entre órgãos de representação (legislativo e executivo) e órgãos de controle (Ministério Público, Polícia Federal), com uma participação especial do Judiciário. 
Ambos numa conspiração sem precedentes para dominar o poder político, destruir os direitos e qualquer forma de organização e representação dos trabalhadores e dos pobres, se apropriar de todo e qualquer coisa que for considerado ativo financeiro do País e prestar contas aos Estados Unidos.

Wanderson Pimenta é advogado, e militante da Seara Advocacia Popular, que é um coletivo de advogados formado para garantir defesa de lutadores sociais alvos de perseguição política e jurídica.

Gustavo Miranda é professor de História e coordenador geral do SEPE-RJ

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Verifique também

Fechar
Fechar