Wanderson Pimenta

A direita dobrou a aposta

Estamos diante de alguns elementos políticos relativamente novos. Identificar a correlação de forças pode ajudar as organizações políticas na luta pela conquista do poder político. 

Uma primeira observação é mudança de nível de movimentação da direita no Brasil. Em 2015 ganharam as ruas em protestos massivos e em 2016 a partir de uma articulação entre tais setores, conseguiram derrubar Dilma Rousseff. Com o controle do Judiciário, do Ministério Público, do Legislativo, arrastaram o Executivo sem enfrentar resistência. 

Vou chamar essa mudança de grau de um deslocamento da direita brasileira da “guerra de posição” em que se encontrava desde o fim da ditadura militar para uma “guerra de movimento”. Essa é uma segunda observação. Embora o marco utilizado aqui seja o “impeachment”, há outras possibilidades como “junho de 2013” ou mesmo a reação política à crise econômica do capital em 2007/2008. Embora tais elementos estejam imbrincados, prefiro o “golpe de 16” por ser uma faceta pública. 

O fato é que o cenário mudou de qualidade com a direita dobrando a aposta. E, pela primeira vez em décadas, a ofensiva ocorre em todos os campos, não há uma só arena em que não haja disputa. Levam larga vantagem no domínio do Estado, desde os três poderes, passando pelos órgãos de controle e os instrumentos represessivos, até um quase consenso no âmbito do que vou chamar de “sociedade civil”. A equipe de governo de Bolsonaro são os responsáveis atuais pela execução desse plano. 

O deslocamento do adversário obriga, necessariamente, o movimento do outro. Se a ideia de que a direita saiu da “guerra de posição” para a “guerra de movimento” fizer sentido, significa que a ofensiva será consistente, se estendendo no tempo. Eles sabem que não podem errar. 

A política externa de realinhamento automático e submissão aos Estados Unidos; o patrocínio da intervenção na Venezuela; a amplíssima articulação com setores armados, legais e ilegais; a guerra cultural e religiosa; a disseminação ostensiva de notícias falsas; a caçada aos sindicatos; o fim da aposentadoria. Estamos diante de circunstâncias que evidenciam uma luta política que terá que ser travada em outro patamar. 

A esquerda apostou em vias de luta desde o fim da ditadura militar que, no atual cenário, parecem ser insuficientes. Longe de serem abandonadas, precisam ser problematizadas e intercaladas com outras formas, que, na minha opinião, não são necessariamente novas. Mas isso é tema para uma outra conversa.

Wanderson Pimenta é advogado, e militante da Seara Advocacia Popular, que é um coletivo de advogados formado para garantir defesa de lutadores sociais alvos de perseguição política e jurídica.

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