Carolina Peters

A luta das mulheres é a linha de frente da resistência

Por Carolina Peters

Ainda estamos em março, e o Brasil já ultrapassou a marca de 200 feminicídios registrados em 2019. Não se trata de assassinatos comuns, que encontraram tragicamente entre suas vítimas mulheres. A tipificação, corrente em nossas leis desde 9 de março de 2015, designa aqueles crimes motivados contra a nossa simples existência. A brutalidade das notícias que desde o primeiro dia do ano nos assolam demonstram o ímpeto de controlar nossas sexualidades e desejos, nossas condutas e toda a nossa vida: uma motorista de Uber foi estuprada e morta por um passageiro; um casal de namoradas foi alvejado no interior da Bahia por um grupo de homens armados; uma travesti foi assassinada e teve seu coração arrancado… só na última madrugada, três mulheres foram esfaqueadas por seus companheiros.

A enxurrada de manchetes trazidas pelos jornais ou uma simples busca no google nos defrontam com a violência generalizada – e ao mesmo tempo diferenciada, expressa na maior letalidade da violência contra a mulher que atinge as negras; a exclusão social diária, a baixa expectativa de vida e os requintes de crueldade nos assassinatos de travestis e transexuais; as violências sexuais e físicas perpetradas contra lésbicas, buscando “readequá-las” à heterossexualidade compulsória. Mas onde a sociedade machista busca perpetrar uma experiência comum de dor e arbítrio, o feminismo se propõe a unificar as mulheres em torno do exercício da autonomia e superação da violência. Por isso, há mais de um século, em todo o mundo, saímos às ruas por uma vida que valha a pena ser vivida para todas nós! E no Brasil, essa agenda tem como ponto de partida a oposição ao governo de Bolsonaro e a derrota da Reforma da Previdência.

A eleição de Jair Bolsonaro eleva a violência de gênero a política de Estado. Não só pela virulência de seus discursos, apologéticos ao estupro, a estupradores e pedófilos; favorável à desigualdade salarial entre homens e mulheres; e por aí vai uma lista longa de declarações misóginas. Na própria composição de seu ministério, se as parcas indicações de ministras sinalizam para a desvalorização política das mulheres, a nomeação de uma figura como Damares Alves assinala o desmonte das políticas públicas para as mulheres: o combate à violência de gênero não é mais responsabilidade do Estado brasileiro, mas um assunto privado, com resolução divina. Contudo, dentre todas, a proposta de Reforma da Previdência é sem dúvida o ataque mais profundo às brasileiras.

A proposta em discussão nos afeta diretamente ao aumentar a idade mínima para recebimento e diminuir a diferença etária para a aposentadoria de homens e mulheres (diferença que busca diminuir a desigualdade entre os trabalhos domésticos não remunerados, mas elementares à manutenção da vida e da sociedade, entre os gêneros). Afeta também ao propor a uniformização das regras para categorias já tão desvalorizadas e majotirariamente femininas, como de professores, cujo regime especial está longe de ser um privilégio. Às vésperas do dia de luta das mulheres, o DIEESE nos oferece uma nota técnica sobre o impacto extremamente danoso da proposta <https://www.dieese.org.br/notatecnica/2019/notaTec202MulherPrevidencia.html>, que merece leitura atenta e ampla divulgação. Expõe também o cenário perigoso, diante do qual mais de 1/3 das mulheres inseridas no mercado de trabalho ganha até um salário mínimo, e 64% delas não estavam contribuindo para a Previdência. Além disso, é fundamental ressaltar que o desmonte em outras áreas de investimento público, como a educação (pasta na qual o estulto presidente considera se gastar demasiadamente), fortalece a tendência já bastante expressiva de informalidade entre as trabalhadoras, na medida em que contribui com a sobrecarga de trabalho doméstico e de cuidados realizados pelas mulheres. Derrotar a Reforma da Previdência é resguardar o presente e o futuro dos que vivem do trabalho, não somente pelo conteúdo da seguridade social, mas porque impor essa acachapante derrota ao governo Bolsonaro é elementar para estabelecer uma correlação de forças favorável às lutas sociais no próximo período.

Hoje, mais uma vez, como há mais de um século, as mulheres tomam as ruas no dia 8 de março para reivindicar direitos, celebrar as conquistas passadas, e projetar novos futuros. Mas não podemos negar que nos falta, neste dia, uma de nós: Marielle Franco, feminista negra e favelada, como ela mesma assinava. A vereadora eleita pelo PSOL no Rio de Janeiro foi executada em pleno centro da cidade em 14 de março de 2018. Teve a vida ceifada por ousar desafiar as estatísticas, e por representar o anseio e a disposição dos de baixo de romper as estruturas de uma sociedade opressora e excludente. Prestes a completar um ano do seu assassinato, ao lado do motorista Anderson Gomes, marchamos também em sua memória e antecipando grandes atos por todo o país no dia 14, quinta-feira que vem. Marchamos para lembrar nossa companheira querida; reanimar as lutas que travou em vida e que, por mais que tentem seus algozes, não deixarão de florescer com sua morte.

Carolina Peters é militante feminista.

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