Bruno Porpetta

Futebol S/A

Por Bruno Porpetta

Penso que as coisas não acontecem por acaso. De alguma forma, seja material ou metafísica, tudo o que acontece tem alguma ligação entre si. Caso contrário o Brasil seria conhecido mundialmente como o paraíso das coincidências.

Sabemos que não é o caso. Somos o paraíso penal para os ricos, isso sim. Só pra ficarmos em um exemplo.

Aqui no Brasil, ricos dão seus pulos para cumprir suas penas na praia, na piscina, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê. Quem paga penitência mesmo, em condições absolutamente desumanas, são os pobres.

Mas isso é assunto pra outro textão só sobre isso. Não dá pra dedicar poucas linhas.

Estamos completando um ano do assassinato de Marielle e Anderson, sem muitos avanços, sem nenhum responsável apontado. Só neste ano já tivemos três tragédias de comoção nacional, pra não falar das regionais, sem que um único responsável tenha sido sequer corajoso o suficiente para se colocar no olho do furacão.

Da Vale privatizada não se espera grande compaixão pelas centenas de vidas que ela levou pelo descaso em Brumadinho (MG).

Do Prefeito do Rio, Marcelo Crivella, todo mundo sabe que dali vem o discurso de que “choveu em um dia o previsto para um mês”. A credibilidade das previsões vai pro ralo e sobra tudo nas costas de São Pedro, que não pode se defender através de entrevistas.

De quem se esperava bem mais era do Flamengo, cuja responsabilidade fiscal se tornou uma referência para o futebol brasileiro, mas não se traduziu em responsabilidade social. Esta grife corporativa é positiva para a imagem das empresas, às custas de muito incentivo fiscal dos governos.

Resumindo, é um bom negócio ter responsabilidade social. Igualmente lucrativo.

Na hora que foi necessária tal conduta, o Flamengo vacilou.

Aceitar a proposta da Defensoria Pública, construída em conjunto com o Ministério Público, era não só fundamental para as famílias dos 10 garotos, mortos dentro das dependèncias do clube, como também boa para alavancar seus negócios.

A função primordial do acordo era inibir a ação de possíveis aproveitadores, sobrevoando como abutres sobre a tristeza dos familiares. Um acordo fechado com o Poder Público cria uma barreira para a atuação de advogados particulares e suas comissões sobre os valores pagos.

A segunda função era educativa. Parafraseando o próprio presidente do clube, durante uma coletiva concedida após longos 16 dias da fatídica noite do incêndio, a vida não tem preço. Mas é importante garantir, fundamentalmente, que as famílias não se sintam desamparadas para o futuro.

É bom para as famílias e, também, para a própria imagem do clube, que serve de exemplo para os demais.

Se o valor é alto ou baixo é um debate menor perto das vidas que se foram, portanto questioná-lo é uma burrice, aliada ao desprezo por qualquer referência humana na discussão.

Mais cômodo, além de covarde, esconder-se atrás do modelo de gestão empresarial que sempre foi elogiado. Empresas do porte do Flamengo são grandes o suficiente para serem ocupadas por ricos que, como vimos anteriormente, não penam no Brasil.

É por aí que eu quero começar a discutir.

Saiu na coluna do Ancelmo Góis, em O Globo, que o presidente da Câmara dos Deputados, o Botafogo, também conhecido como Mini Maia, ou simplesmente Rodrigo Maia, tem o desejo de colocar em votação e trabalhar pela aprovação do projeto que permite aos clubes brasileiros se tornarem empresas.

Com isso, a administração do futebol passa a ser apartada dos clubes sociais, geridas por uma empresa, com executivos profissionalizados e tal.

A ideia possui partidários diversos, como Mário Celso Petraglia, o higienista do Athletico Paranaense (ou AFlético, numa possível interpretação de pronúncia que só expõe o ridículo da mudança), e jornalistas sérios como Juca Kfouri.

O Flamengo, há algum tempo, é uma espécie de protótipo de funcionamento empresarial. Sofre com a falta de títulos importantes, mas saiu da capa da Placar para as capas da Istoé Dinheiro e do Valor Econômico. Virou a menina dos olhos do negócio chamado futebol.

Não por acaso a comparação absurda do clube com a boate Kiss, ou com a Vale. Estão todos se colocando no mesmo patamar, como empresas.

A diferença é que não é simples encontrar uma empresa com cerca de 40 milhões de apaixonados. O futebol está longe de ser um negócio qualquer.

Por isso exige-se mais da postura do Flamengo e por isso ela foi tão decepcionante. Foi a postura de uma empresa.

O futebol no Brasil tem se tornado diversão para poucos. A muitos só é dado o direito de tuitar para uma transmissão de TV. O estádio está cada vez mais se tornando um calabouço do futebol. Frio, úmido, cheio de ratos e baratas, por mais higiênico que possa parecer. Afinal de contas, para os nossos cartolas é preciso gastar dinheiro para poder cagar sentado na privada, lavar as mãos com sabonete em espuma e secar as mesmas com uma máquina com um bafo quente.

Tratar torcedor como gente, e não como um animal, é uma espécie de commodity que salga o preço do ingresso.

O torcedor é o personagem que representa o aspecto mais humano do nosso futebol profissional. O peso contrário da balança. O que insiste em sentir aquilo que os cartolas tentam a todo custo eliminar: a paixão.

Dentre os argumentos utilizados a favor da transformação dos clubes em empresas, existe a referência europeia, a qual tentamos fielmente reproduzir.

Acontece que não somos a Europa. Não temos os direitos básicos assegurados a maior parte da população, não temos as mesmas oportunidades, a mesma economia, a mesma cultura.

Não podemos, obviamente, defender que as coisas permaneçam como estão. Muito pelo contrário.

É preciso garantir o que já foi conquistado, como o ProFut, que, pelo menos, constrange um clube a não passar meses sem pingar o leite das crianças para atletas, treinadores e funcionários em geral. Disciplina um pouco a farra que era se endividar indefinidamente até o perdão presidencial de seus calotes. Ainda pode melhorar bastante, mas é melhor que nada.

No entanto, tornar os clubes empresas, para que valha a pena para quem assumir, no mínimo, repartirá a conta dos desmandos com os clubes e voarão sobre todos os lucros. Se sua paixão não virar dinheiro, dane-se ela.

Estaríamos preparados para, por exemplo, um grande time brasileiro se mudar de cidade?

Quem te garante que, ao sinal de vantagens tributárias e financeiras, uma dessas empresas não decide reduzir despesas em outro lugar, maximizando os lucros?

Faz tudo parte do negócio.

Inclusive a frieza tecnocrata diante das questões humanas, como demonstrou o Flamengo.

Para uma empresa, o valor de uma indenização é negociável. Porque tudo está na ponta do lápis.

O Flamengo, na prática, já antecipou nosso futuro diante desse projeto. O futebol brasileiro se transformando numa Vale, ou numa boate Kiss.

Bruno Porpetta é um comunista, rubro-negro, de bermuda, chinelo e camiseta. Este espaço funciona melhor se discutido em botequins, biroscas e demais ambientes regados a cerveja, torresmo e tremoço.

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