Luciano Frigeri

Um case de sucesso no empreendedorismo

Por Luciano Frigeri

De forma sorrateira e despretensiosa, eles começaram um pequeno empreendimento local, bastante vinculado ao território. A ideia inicial era bem simples: oferecer segurança para comerciantes e moradores da localidade. E know how para isso não faltava, já que era um grupo majoritariamente constituído por policiais militares, policiais civis, bombeiros e agentes penitenciários.

O pulo do gato de tal empreendimento veio de um conceito que podemos chamar de “protejo-te de mim mesmo”. A ameaça que gera a suposta necessidade de proteção é de fabricação própria, sem a necessidade de intermediários ou agentes externos. Isso faz com que todos os moradores e comerciantes daquele território determinado estejam, necessariamente, dentro da sua carteira de clientes. Na teoria, não tem como um modelo de negócio desses dar errado.

Com o sucesso inicial desse modelo de negócio, esses obstinados empreendedores resolveram ampliar e diversificar seus negócios. Existem muitos outros nichos comerciais que podem ser explorados por esse conceito de vendas, digamos, um pouco mais impositivo. E assim começaram a fazer a comercialização de gás de cozinha, item indispensável em qualquer residência. Assim foi também com o serviço de TV por assinatura e outros tantos mais que possam aparecer. E claro: a manutenção do monopólio sobre o produto é indispensável para uma boa lucratividade. Ter uma carteira de clientes exclusivos é sinônimo de sucesso de vendas.

Outro nicho promissor que logo foi explorado é o setor de transporte. Afinal, a necessidade de deslocar é fundamental, e a ausência estatal sempre é uma grande oportunidade de negócio. Sendo assim, oferecer um serviço de transporte paralelo num local onde transporte público oficial é falho, mostra o feeling de negócios desse grupo de investidores. E tem mais: o sistema é multimodal, operando com kombis, vans e mototáxis. Para tal, nem precisam adquirir tais veículos, pois basta terceirizar para algum trabalhador precarizado e cobrar uma “taxa de permissão” para que ele possa rodar, sem pagar impostos e direitos trabalhistas. E tem gente que diz que o modelo de negócio da Uber é uma inovação.

Por mais que muitas das necessidades do negócio sejam resolvidas internamente, com o próprio pool de empreendedores, algumas atividades necessitam da realização de parcerias. E um parceiro chave nesse empreendimento é o Estado. Afinal de contas, ninguém consegue atuar de maneira tão eficaz na ausência dele sem a sua própria anuência e cumplicidade. E essa parceria é ampla e vai muito além do que a simples manutenção do negócio. Além de fornecimento de ferramentas e mão-de-obra para o empreendimento, o Estado também é utilizado como terceirizado para abrir novas fontes de negócio. Ele chega numa determinada área através de uma operação, faz todo o mapeamento de mercado e elimina os concorrentes, deixando a área totalmente pronta e segura para receber o empreendimento.

Para que essa parceria com o Estado seja plena, uma necessidade é fundamental: apoio político. No início, esse apoio se deu através de muito network com alguns detentores do poder, num modelo que era atrativo para ambos os lados: o empreendimento garantia a exclusividade dos votos se utilizando do mesmo sistema da venda de segurança e o eleito se compromete com o auxílio estatal necessário. Isso deu tão certo na época que teve até prefeito, bastante empolgado, comemorando o resultado da parceria em entrevista concedida para uma emissora de TV. Essa política de relacionamento também se estendeu para outros setores que auxiliariam na estabilidade do negócio, como o Ministério Público e a magistratura.

Com o tempo, os investidores decidiram investir em capital político próprio. Por mais que mantivessem a boa relação com agentes públicos, a necessidade agora era outra. Resolveram assim eleger a si próprios para ocupação desses espaços públicos e negociar, sem intermediários, a necessária parceria com as forças do Estado. Como todo negócio que cresce e ganha visibilidade, sempre aparece alguém querendo criar dificuldades para o sucesso do empreendimento. Criaram investigações, fizeram relatórios e tentaram acabar com esse modelo de negócios. E isso nos mostrou a importância da atuação política da empresa. Por conta desse apoio, apesar do baque, o negócio continuou próspero e crescente.

Hoje o empreendimento é um case de sucesso absoluto. Apenas no Rio de Janeiro, possui centenas de filiais espalhadas pela capital, região metropolitana e interior. Expandiu seus negócios também para o ramo imobiliário, construindo prédios residenciais e comerciais em áreas de reserva, nunca antes exploradas. Abriram também um escritório para a execução de determinados serviços profissionais para si ou para terceiros. E, na seara política, conquistaram a maior de todas as vitórias: ocuparam dezenas de cadeiras no Congresso Nacional e chegaram, quem diria, até bem próximo ao Palácio do Planalto.

Luciano Frigeri é historiador e sociólogo. Iniciou sua militância política no Movimento Estudantil no início dos anos 2000. Hoje é membro da Direção Estadual do PSOL/RJ e coordenador do mandato do Deputado Federal Glauber Braga.

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