Bruno Porpetta

Força ao Flamengo?

Por Bruno Porpetta*

Certa vez, em um blog que eu alimentava, escrevi sobre o dever que o Flamengo tinha em dar todo o suporte necessário para que Adriano retomasse a sua carreira no futebol, tanto física quanto psicologicamente.

Faço questão de ressaltar novamente, não seria um favor a um grande ídolo, revelado nas categorias de base do clube e fundamental para o sexto título brasileiro do rubro-negro, mas sim uma obrigação.

Um dever, porque o Flamengo, de forma involuntária, mas, ao mesmo tempo, brutal, roubou os melhores anos da vida dele, a sua juventude.

Isso ocorre com todo e qualquer garoto que sonha em ser jogador de futebol no Brasil. Desde muito cedo, em uma idade em que o moleque deveria empinar pipa, jogar bola na rua, sair com as primeiras garotas, ir aos primeiros bailes, beber as primeiras cervejas, ele está treinando em um ritmo alucinante, absorvido em uma lógica competitiva extremamente feroz para a idade que tem.

Os garotos abrem mão de sua adolescência para realizar um sonho que, em algumas ocasiões, sequer é seu. É o sonho dos pais, que projetam no filho a possibilidade de romper com o amargo sabor da pobreza extrema através do futebol.

Os pais desses garotos não vislumbram a possibilidade de deixar a favela e uma vida cheia de privações se os seus filhos não se tornarem jogadores de futebol, cantores de pagode, etc. Coisas típicas de um país onde a mobilidade social é encarcerada em um projeto político que distribui a riqueza para poucos enquanto larga muitos à míngua.

Ou seja, o sonho de cada um que deixa sua juventude de lado para tentar se tornar jogador de futebol é o sonho de muitos que o cercam. Aquele papo de boleiro que o salário polpudo que ele ganha ajuda muita gente não é mera retórica.

A maioria dos garotos que compõe a base de um clube de futebol não se tornará jogador profissional de futebol, muitos vão ficando pelo caminho. Dos que sobrevivem ao funil que o passar dos anos na base vai impondo, a maioria não jogará em um grande clube, não estará na seleção brasileira, não distribuirá autógrafos ou selfies, sequer serão reconhecidos na rua.

Jogarão pelo prazer de continuar jogando, pela possibilidade de continuar sonhando, pela complementação de renda para continuar comendo, quando acumulam o futebol com outras profissões.

O nome na boca de milhares e milhares de torcedores é privilégio de menos de 5% dos profissionais  da bola, com seus salários na casa das dezenas ou centenas de milhares de reais, suas transações na monta de milhões de qualquer moeda do mundo.

O paraíso é muito pequeno para abrigar toda essa gente que vem do purgatório das categorias de base. Por isso, o clube deve muito mais do que salários a quem lá se forma. O clube deve parte considerável dos melhores anos desses garotos, dedicados a uma rotina insana de esforço físico e psicológico.

No entanto, o incêndio nas instalações do CT do Flamengo é o fim do sonho sem ele sequer ter começado. Pois até para sonhar o mercado é muito restritivo.

É prudente, por parte de qualquer torcedor ou jornalista, aguardar o término das investigações sobre as causas dessa tragédia para que se determine proporcionalmente as responsabilidades de cada parte na morte desses 10 garotos.

No entanto, não é admissível que se relativize, diminua ou até isente o clube de responsabilidade. Pode não ser o único, mas, com certeza, está no rol dos que ceifaram 10 vidas de adolescentes. Criminosamente, que se diga. Pois a negligência é uma ação violenta contra a vida das pessoas. Violenta e covarde, pois mata sem deixar suas impressões digitais na cena do crime.

Após uma catástrofe como essa, a primeira coisa que os responsáveis querem é tirar o seu da reta. Mas chegou a hora de dar um basta.

Quantas vidas mais vão se perder pela irresponsabilidade de quem põe os números acima das vidas?

Quantos mais vão pagar com a própria vida (que tem cor e classe social bem definida, diga-se de passagem) para que clubes, empresas e afins apresentem resultados satisfatórios aos olhos do mercado?

Aliás, convém perguntar quantos familiares essa entidade suprema chamada “mercado” já perdeu nessas tragédias como Mariana, Brumadinho, Flamengo e tantas outras?

Enquanto o mercado sorri, nosso povo vai contando seus mortos. Para eles, só números. Para nós, só lamento.

A tragédia no CT do Flamengo aconteceu dentro das instalações do clube, em um espaço sob sua responsabilidade. Por mais que outros atores possam compartilhar o dedo no gatilho que acendeu a chama que queimou os corpos dos meninos, o Flamengo é responsável por essas mortes.

Quem deseja força ao Flamengo, coloca o algoz no papel de vítima. E tudo o que o Flamengo não é nessa história, é vítima.

*Bruno Porpetta é um comunista, rubro-negro, de bermuda, chinelo e camiseta. Este espaço funciona melhor se discutido em botequins, biroscas e demais ambientes regados a cerveja, torresmo e tremoço.

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