Leonel Camasão

A falsa polarização entre a morte de PMs e a morte de Marielle

Por Leonel Camasão*

A falsa polarização entre a morte de PMs e a morte de Marielle

Li com perplexidade a coluna de Moacir Pereira desta terça-feira, 5 de fevereiro. Comentarista com maior audiência em Santa Catarina, Moacir esconde ou ignora dados extremamente relevantes sobre o problema da segurança pública no Rio de Janeiro, sobre a morte de agentes de segurança e sobre o assassinato brutal da vereadora Marielle Franco. Explico-me.

Ao citar que 71 PMs foram mortos no Rio em 2018, o jornalista afirma:

“Por que, afinal, a morte de Marielle Franco ganha há quase um ano mais páginas de jornais, mais debates nos parlamentos e mais espaços nos telejornais do que os homens que protegiam a sociedade e foram assassinados, muitos deles de forma traiçoeira? Investigue-se com rigor os mandantes da morte da vereadora, mas a prioridade primeira deveria ser a descoberta dos assassinos dos policiais que protegiam suas comunidades.”

Ora, Moacir. Todas as vidas humanas importam. Dos policiais, de parlamentares, de pessoas em situação de rua, de pobres e ricos. Toda vida humana que se perde é mais uma na tragédia mundial que vivemos. O raciocínio estapafúrdio visa hierarquizar as vidas que valem mais ou menos, e quais devem ser prioridade de investigação.

O que torna a morte de Marielle Franco excepcional não é o assassinato em si. É o que ele representa. Aceitar a execução de Marielle como “mais uma morte comum” é banalizar a situação que, no Brasil, você pode ser morto por ser oposição ao governo. É aceitar que não só parlamentares, mas juízes, promotores, jornalistas, e outros que investigam e denunciam crimes sejam assassinados para serem calados.

Lembremos que a morte de Marielle não vem sozinha ou isolada. Ela é uma ação política! Marcelo Freixo vive há anos sob escolta, jurado de morte pelas milícias, por ter presidido uma CPI que indiciou 226 pessoas. Marielle trabalhou nessa CPI.

A juíza que cuidava do caso e mandou prender dezenas de bandidos, Patrícia Acioli, foi assassinada na porta de casa. O deputado Jean Wyllys abandonou seu terceiro mandato e deixou o país sob ameaças de morte. Dani Monteiro, uma assessora de Marielle que se elegeu deputada, teve o carro pichado com ameaças, dentro do estacionamento da Alerj, no seu primeiro dia de mandato. Todos estes casos estão relacionados porque o PSOL do RJ faz um exemplar combate ao crime organizado.

Se tudo isso não for suficiente para justificar a magnitude do assassinato de Marielle, temos mais um grande bom motivo: o principal suspeito de executá-la empregava a mãe e a esposa no gabinete de Flávio Bolsonaro, quando este era deputado estadual. O próprio o homenageou com a Medalha Tiradentes, principal honraria da Alerj, e ainda, propôs a legalização das milícias no Rio.

Há uma conexão direta entre o filho do presidente da república – agora Senador – e o principal suspeito do assassinato de uma vereadora no Rio. Se todos esses elementos não tornam a morte dela excepcional e digna de atenção, não sei mais o que excepcional significa.

O que o colunista ignoras é que no Rio de Janeiro, pelo exemplar trabalho executado por Marielle Franco e por Marcelo Freixo na Assembleia Legislativa, há um protocolo sobre como atender policiais e familiares de policiais vítimas de violência. Todos eles são atendidos e socorridos pela – adivinhe – Comissão de Direitos Humanos da Alerj, que presta o amparo e o auxílio necessários. Esta comissão foi presidida nos últimos anos por Freixo, que tinha em Marielle seu braço direito até 2016, quando ela foi eleita vereadora.

Nessa nova legislatura, outra assessora de Marielle eleita para a Alerj – Renata Souza – assumiu a presidência da comissão, para continuar este trabalho. E colocou em seu gabinete um ex-comandante da PM do Rio, que tem expertise no assunto, para melhor amparar a polícia que mais mata e mais morre no país.

Mais do que isso: a morte de PMs no RJ caiu 40% entre 2017 e 2018, fruto também, mas não somente, deste trabalho que os parlamentares do PSOL lideram naquele estado.

Utilizar de dados distorcidos para justificar o pacote de medidas de Sérgio Moro é opção sua, mas revela falta de conhecimento, ignorância ou má fé em relação à realidade dos fatos.

A polarização Marielle x Policiais é conhecida e difundida, especialmente por Fake News. Mas todos sabemos que é falsa e não corresponde à realidade.

Ao invés de comemorar a suposta “guerra aos criminosos”, deviam lamentar que a proposta do ministro seja a de praticamente legalizar a execução sumária. Se isso prosperar, não estaremos mais em uma (já débil) democracia.


*Leonel Camasão é jornalista, ex-candidato ao governo de Santa Catarina pelo PSOL e mestre em jornalismo pela UFSC

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