Opinião

Um país de joelhos

Por Luiz Arnaldo Campos

Na metade dos anos 70, o governo do ditador Geisel deu uma guinada na política externa brasileira, abandonando o seguidismo automático em relação as orientações de Washington. Passo a passo, o Brasil rompeu o tratado de assistência militar com os Estados Unidos, exigiu o reconhecimento de sua presença na Antártida, reivindicou o limite territorial de 200 milhas marítimas e foi o primeiro país a reconhecer a independência angolana, liderada pelo marxista Movimento Popular de Libertação de Angola. Na prática, a ditadura brasileira buscava construir um espaço próprio para exercer suas ambições continentais.  Quarenta e cinco anos depois, o governo Jair Bolsonaro, com mais ministros militares do que qualquer outro dos tempos ditatoriais, abandona qualquer veleidade de soberania nacional e adota uma política internacional, cuja subserviencia à Casa Branca não tem paralelo na nossa história.

À serviço do Império

Desde a posse foi uma
avalanche de gestos simbólicos e ações práticas. Da continência para a bandeira
norte-americana ao oferecimento de território brasileiro para a instalação de
uma base militar estadunidense, o governo do ex-capitão se excedeu nas demonstrações
de sabujismo, chegando ao cúmulo de acenar com a troca da embaixada brasileira
em Israel, de Tel- Aviv para Jerusalém, uma iniciativa do governo Trump,
repudiada pelo mundo inteiro e até agora apoiada apenas pela Guatemala. Esta declaração
estapafúrdia que significa apoio irrestrito à ocupação de terra palestina pelo
governo sionista de Israel, além de romper com a tradição diplomática  brasileira na questão, acarreta prejuízos
comerciais para o nosso país, notadamente 
no que diz respeito à exportação de carnes e derivados para os países
árabes. Para entendermos o que move tamanho servilismo é preciso atentar para a
espécie de fundamentalismo religioso que está instalado no Itamaraty.

A volta da TFP

Apontado pelo astrólogo Olavo
de Carvalho, o atual ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, é uma
nulidade que possui o título de Embaixador sem jamais ter exercido a chefia de
uma representação diplomática brasileira em outro país. No entanto comunga -como
revela em seus escritos e discursos- de um ideário, muito difundido na década
de 60, por Plínio Correa de Oliveira, o fundador da Sociedade de Defesa da
Tradição, Família e Propriedade, a popular TFP. 
Segundo tais crenças o mundo caminha para um apocalipse, onde no Armageddon
final se defrontarão as forças do bem e do mal. Neste combate decisivo as
forças da cristandade são identificadas com o capitalismo, o mercado, a defesa
da propriedade e o inimigo diabólico – que nos tempos de Plínio Correa eram a
União Soviética e o comunismo ateu – são agora, nas palavras do ministro, “o
multiculturalismo marxista”. Nesta cruzada escatológica, o papel de paladino
cabe a Donald Trump e por isso o ministro sem nenhum temor ao mico e ao
isolamento internacional. Afirmou no seu discurso de posse que o Brasil se
alinhará com o eixo representado pelos Estados Unidos, Israel e a Hungria.
Nesta declaração de alinhamento ideológico estão inscritos inúmeros riscos para
o nosso país.

A vocação subalterna

Seguindo fielmente a cartilha
da Casa Branca, o governo Bolsonaro assumiu o papel

de guarda pretoriana do
imperialismo americano no continente e se lançou com os dentes arreganhados
sobre a Venezuela da Revolução Bolivariana. Com desembaraço a nova diplomacia
brasileira participou das conspirações da OEA e do grupo de Lima e lançou o
primeiro sinal do golpe iminente ao condenar o governo de Maduro em termos
equivalentes, segundo especialistas em 
relações internacionais, a uma declaração de guerra.  Após o fracasso de mais uma tentativa
golpista, o Brasil fica na incômoda posição de participante de uma intentona
ilegal à luz do direito internacional. Porém, isto não incomoda um governo tão
despido de amor-próprio, que trocou o papel de parceiro em condições de
igualdade com a Rússia, a China, Índia e África do Sul no BRICS, pelo de cão de
fila da Casa Branca, encarregado da manutenção da “pax americana” no
continente.

A salvação nacional

Afinal de contas é disto que
se trata. Abalado por uma crise sistêmica que vem corroendo sua hegemonia
mundial e sentindo-se ameaçado pela crescente aliança da  China e da Rússia, o complexo político, econômico
e militar dos EUA, sob a atual liderança de Trump busca o enfrentamento como
forma de empurrar a crise para a frente. Neste sentido recompor a ordem unida na
América Latina é um objetivo primordial, onde o papel assinalado ao Brasil é o
de gendarme da velha/nova ordem.

Como demonstra a fúria
privatista do governo Bolsonaro e sua avidez em liquidar a propriedade nacional
em todos os campos da economia, este é um papel desempenhado com gosto por
nossos governantes.

Para todos que valorizam a independência e a soberania nacional dar fim ao governo Bolsonaro é uma necessidade inadiável.

Luiz Arnaldo Campos é cineasta e presidente do conselho de curadores da Fundação da Lauro Campos.

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