Bruno Porpetta

Instinto coletivo

Por Bruno Porpetta*

“Faltou luz, mas era dia. O sol invadiu a sala, fez da TV um espelho refletindo o que a gente esquecia…”

Em razão da morte de Marcelo Yuka, além de passar horas escutando O Rappa, procurei algumas entrevistas, tanto dele como de outros membros da banda, para entender mais o que se passou no período da saída de Yuka da banda, após o trágico tiroteio que tirou dele a possibilidade de continuar tocando bateria.

Existe, inclusive, um documentário sobre a vida de Yuka pós-acidente onde a questão é tratada chamado O Caminho das Setas, que eu recomendo.

Yuka disse para um jornal, que agora não me recordo qual, que Marcelo Falcão, vocalista da banda, nunca entendeu exatamente o conteúdo das letras que ele próprio cantava.

Diante dessa declaração, fiz uma relação rápida na cabeça entre o que ele disse e alguns fatos mais recentes. Lembrei-me das vaias ao ícone do rock Roger Waters, nos shows que ele fez no Brasil recentemente. Mais precisamente, durante o fatídico processo eleitoral que conduziu o país a um salto mortal para trás no escuro, com a eleição de Jair Bolsonaro para Presidente da República.

Waters foi duramente criticado por, supostamente, tomar partido de Fernando Haddad – incluindo uma decisão judicial estapafúrdia que o proibia de “fazer campanha” em seus shows.

O fundador do Pink Floyd nada mais fez do que defender no palco aquilo que ele já defende há décadas, incluindo o nome de Bolsonaro no rol de ameaças aos direitos humanos. Convenhamos que, diante do que Waters defende, Bolsonaro se colocou com as próprias pernas nesta lista.

O que torna espantosa a reação do público às críticas de Waters. Ninguém nunca parou para ouvir as músicas do Pink Floyd? Não procurou ao menos saber sobre o que tratavam? Se souberam, tinham alguma dúvida que Bolsonaro contradizia tudo o que o músico sempre defendeu?

Voltando à polêmica entre Yuka e Falcão, a dificuldade de entendimento sobre as mensagens que determinadas canções transmitem parece mais antiga do que o torpor coletivo nacional que deu vida  às “mamadeiras de piroca” e “kits gay”, para citar somente as mais ridículas.

Falcão, em determinado momento do documentário sobre Yuka, sugere que o ex-baterista estava sendo usado pelas bandeiras que defendia. Disse que “defendia todas, mas não se atrelaria politicamente a nenhuma delas”. Cita que não usaria um boné com a marca dessas bandeiras, preferindo usar um com a sua marca, dando como exemplo rappers dos EUA, como Jay Z.

Essa dissociação entre “defender bandeiras” e “fazer política” é uma gigantesca tolice. Defender o que se acredita de forma pública, como Yuka morreu fazendo, é a forma mais pura de se fazer política.

O que talvez seja difícil para Falcão admitir é que havia uma diferença clara de concepção artística colocada. Falcão fazia arte para o mercado, enquanto a temática social se revertesse em ganhos financeiros ela fazia sentido. Quando não mais, às favas com isso. O importante era estampar a “sua marca”.

Para Yuka, apesar do sucesso mercadológico da banda, a parada era outra. A mensagem era imprescindível e o boné tinha que ser da ONG que ele estivesse ajudando, do movimento que ele estivesse contribuindo.

Já que “família é sintonia”, ficava evidente que o caminho dos dois já não se cruzava mais. Falcão rumava para a mediocridade, enquanto Yuka seguiria com suas dores, suas feridas abertas pelos nove tiros na Rua José Higino, na Tijuca.

Todo o discurso de Yuka foi posto à prova. Seu desejo de justiça poderia, diante das circunstâncias, rumar a um desejo de vingança. E é precisamente aí que Yuka se agiganta.

Sua luta por mais amor e menos armas encontra nele próprio um exemplo de que o “e se fosse com seu filho?” é outra tolice.

Yuka preferiu lançar “pedras na direção certa”. Questionar quem ganha com a morte de milhares de pessoas, especialmente negros, pobres e mulheres, em razão das armas de fogo.

Ele morre em meio ao debate provocado pelo Decreto de Bolsonaro para rever a política de acesso às armas de fogo, possibilitando que cada “cidadão de bem” – personagem já antigo na vida social brasileira, sempre evocado pela nossa elite estúpida quando esta quer justificar sua estupidez – possa ter QUATRO armas em casa.

Neste momento, em meio às inúmeras homenagens que Yuka vem recebendo pelo gigante que foi, é preciso resgatar quais foram as suas mensagens ao longo de sua vida.

Não é coerente que exaltemos suas canções ao mesmo tempo que defendemos que a população se arme, em tese para se defender, mas, na verdade, para se matar. No exato instante que o feminicídio não só cresce, mas galopa. Em que os movimentos sociais que Yuka reivindicava são criminalizados. Que os indígenas são assassinados aos borbotões em terras que sempre lhes pertenceram.

“O cano do fuzil refletiu o lado ruim do Brasil…”

É esse lado ruim que hoje se sente empoderado com a eleição de Bolsonaro. O lado dos “samurais da extorsão” que, à medida que se avançam as investigações sobre a morte de Marielle e Anderson, estão cada vez mais implicados nesses e em outros tantos homicídios, sob o olhar complacente dos governos e do judiciário.

O melhor legado que a vida e a arte de Yuka pode nos deixar é a consciência de que “também morre quem atira”.

Ainda temos tempo de resistir e mudar esse triste caminho rumo à tragédia.

“Corra que o tumulto está formado! Vem cá, vem ver! Que dentro do tumulto pode estar você!”

*Bruno Porpetta é um comunista, rubro-negro, de bermuda, chinelo e camiseta. Este espaço funciona melhor se discutido em botequins, biroscas e demais ambientes regados a cerveja, torresmo e tremoço.

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