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Neopentecostais e as relações entre Brasil e Israel na direita conservadora

Por Milleni Freitas Rocha*

Algumas relações entre Brasil e Israel nos últimos tempos se tornaram mais efervescentes com o governo de Jair Bolsonaro. A aproximação ganhou mais notoriedade com a possível mudança da Embaixada do Brasil de Tel Aviv para Jerusalém como fez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, na qual demarca o reconhecimento de Jerusalém como capital do Estado de Israel e um acirramento do conflito palestino-israelense. Outro exemplo dessa aproximação aconteceu em 18/01/2019, quando Jair Bolsonaro condecorou o primeiro ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, com a honraria da Ordem Cruzeiro do Sul, considerada a mais alta do Brasil para estrangeiros a fim de estreitar os laços. Essa simpatia com Israel tem raízes mais profundas, o que aciona outro campo do jogo político muito presente nas eleições de 2018: a Igreja Neopentecostal.

As pautas destacadas do novo presidente do Brasil, além de representarem os interesses do capital externo, contêm internamente um grande apoio dos neopentecostais. Essas manifestações de apoio ao Estado de Israel não necessariamente contemplam todos os segmentos dos denominados Evangélicos, muito menos significa que determinadas interpretações dos escritos religiosos produzem um conservadorismo que dialoga com a extrema direita brasileira e israelense. Esse movimento mais específico da terceira onda do neopentecostalismo, que rompeu com a igreja metodista na década de 1920, possui algumas ligações com elementos da religião judaica, a título de exemplo o Templo de Salomão que remete à Jerusalém antiga, bem como o uso de menorás (o candelabro judaico), talit (xale religioso), o kipa (a touca que relembra a presença de Deus) por sacerdotes da Igreja Neopentecostal, como faz o próprio Bispo Edir Macedo.

A perspectiva teleológica dos neopentecostais brasileiros e estadunidenses prevê um futuro específico da grande batalha de Armagedon que provém de uma interpretação dos escritos sobre o Apocalipse segundo João. A ideia de “final dos tempos” atrelada à construção de milenarismos – a crença do fim dos tempos marcada pela virada do milênio – e messianismos – a crença na volta do messias. 

A aproximação das igrejas Evangélicas Neopentecostais à terra de Israel provém de uma criação de um Israel imaginário, pois a fantasia sobre essa terra santa exclui a possibilidade de manifestação religiosa judaica, pois a aceitação de Jesus Cristo é um pressuposto básico para os neopentecostais que acreditam na conversão religiosa dos seguidores da religião judaica. O imaginário tem mais a ver com uma idealização da terra santa e menos com a dinâmica da sociedade israelense, na qual os conservadores Neopentecostais apagam qualquer visão crítica sobre Israel e enfatizam a sacralidade de um lugar central para sua religião. A Israel imaginária tem pouco espaço para reflexão e para as contradições dessa sociedade, por exemplo, a cidade de Tel Aviv ser o polo central dos movimentos LGBT’s israelenses e ser lembrada por suas construções do movimento da Bauhaus. Não há no entendimento dos neopentecostais uma Israel além do lugar onde será a volta do messias. Pouco importa se há hoje, em Haifa, uma prefeita mulher, Einat Kalisch Rotem, com uma vice prefeita Palestina, Raja Zaatrah, do Partido Comunista (Hadash). Algumas dessas narrativas não sustentam realidades diversas e complexas.

No entanto, o atual governo de Israel representado por Benjamin Netanyahu, do partido de direita Likud, permite algum diálogo com a extrema direita brasileira representada por Bolsonaro. O apoio proveniente do governo brasileiro ao Estado de Israel tem uma grande repercussão na sociedade brasileira, já o contrário não acontece. Em uma entrevista feita, no dia 10/01/2019, por colaboradores do Instituto Brasil Israel (IBI) ao presidente do Conselhos dos Assentamentos de Gush Etzion e prefeito de Efrat, Oded Revivi, também do partido Likud, demonstrou a pouca importância das relações de Israel com o Brasil,  na resposta sobre a relação entre os governos do Brasil e de Israel “pouco me importa se o Netanyahu se encontrou com Bolsonaro ou ontem com o Putin, não estou atento à agenda dele e pouco efeito tem na sociedade israelense”, afirmou Revivi.

*Milleni Freitas Rocha é graduanda em História na UFRJ, pesquisadora do NIEJ (Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e Árabes) e militante do Levante Popular da Juventude

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