Luan Ribeiro

A tortura da arte

O autoritarismo do governador do Rio, que proíbe que a arte denuncie o autoritarismo

Por Luan Ribeiro*

Na última segunda-feira (15/01/2019), foi realizada na rua, em frente ao portão da Casa França-Brasil, no centro do Rio de Janeiro, uma performance artística pelo coletivo És Uma Maluca. Originalmente, a apresentação aconteceria no domingo (14), dentro do espaço cultural, como parte da exposição Literatura Exposta, mas foi vetada pelo governo estadual. 

Uma demonstração de autoritarismo se deu pelo Governador do Estado Wilson Witzel, que não aceitou a expressão artística tecendo críticas ao estado de exceção do regime militar, que já vivemos em tempos não tão distantes, e hoje podemos estar no limiar de revivê-lo. Após o veto do Governador, houve intensa mobilização dos defensores da democracia e da pluralidade cultural, que foram acompanhar em centena a realização da exibição. Ao longo da performance, vigiados por mais de uma dezena de policiais fortemente armados, os espectadores puxaram palavras de ordem, evocando Marielle Franco, nomes de militantes mortos durante a Ditadura Militar e gritos pedindo democracia.

Na performance, a atriz Juliana Varner deitou-se no chão, como morta ou desmaiada, com seu vestido levantado, e milhares de baratas de plástico saíam de um bueiro cenográfico e subiam em seu corpo; do bueiro, também saía o áudio da defesa de Jair Bolsonaro ao General Carlos Alberto Brilhante Ustra, que tinha por prática inserir baratas nas vaginas das mulheres torturadas nos “anos de chumbo”.

A atitude do Governador e da Secretaria de Cultura e Economia Criativa infelizmente dialogam bem com seu tempo e com o momento político. O controle da informação e do saber, barrar a cultura e censurar os professores parece que será o jeito de agir dos governos Bolsonaro e Witzel. A eleição de 2018 foi marcada por sentimentos aflorados, incentivados por grupos internacionais que investiram pesado na produção de fake news e idéias de medo – que fortalecem discursos de ódio. A reação conservadora da sociedade, que se via afundada em informações preocupantes, foi buscar proteção não nos valores de mudança, mas de tradição, chegando a negar a própria ordem democrática para tal.  Um dos policiais que impediam a performance, ao ser confrontado pela informação de que uma lei estadual permitiria a ação artística, afirmou: “apenas reconheço a Constituição Federal”. Ou seja, o representante da Polícia Militar, que teoricamente defenderia o cumprimento das leis, destrói  a própria lei.

A política e a arte são dois campos movidos pelo prazer: pelo prazer da realização, do debate e, principalmente, do poder. Oferecer ferramentas para o que pensar e o que fazer são atribuições que Witzel não quis disputar – ou dialogar – com os artistas. O tabu do poder e o tabu da sexualidade se encontraram na performance, e por isso, foi encarada como um risco. O reacionarismo que tomou conta do Brasil na ultima eleição escolheu como inimigo tudo aquilo que o contraria, e se o PT já constava como espantalho no argumento da direita, agora a esquerda toda cai no mesmo balaio e, para piorar, o apelido de “comunista” – pelos reacionários relacionado como algo de ruim – passa ser dado a qualquer entidade, pessoa ou ato que contrarie o irracional discurso desta turma.

Assim como no nazismo alemão ou no fascismo italiano, não importa o que cada coisa é, mas o que os comunicadores conservadores dizem que é. Um jogo de representações no qual o coletivo És Uma Maluca tentou subverter, mas foi impedido por um outro “teatro”: “o verdadeiro teatro é isso aqui: atores representando burros, fazendo o papel dos fascistas Witzel e Bolsonaro, numa peça da ditadura!”, dizia o jornalista Ronaldo Aguinaga, sobre os policiais armados no meio do público. 

Quando se tem fuzis na mão e um uniforme Estado, os detentores da razão são os irracionais. E a arte, junto com o ensino, com o pensamento crítico e a pluralidade, são transformados em dejetos por aqueles que em breve estarão na lata de lixo da História.

* Luan Ribeiro é professor de História, pesquisador-colaborador na UFRJ e compõe a direção do Sindicato dos Professores do Rio de Janeiro (SinproRio)

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