André Abreu

Rosa Luxemburgo: socialismo, feminismo e emancipação

Por André Abreu*

Por conquistar no exterior seu direito ao estudo, poderia ser Malala Yousafzai. Pela luta contra o conservadorismo e por seu assassinato covarde, poderia ser Marielle Franco. Entretanto, a militante em questão nasceu na Polônia, há mais de 147 anos. Não se intimidava diante do público majoritariamente masculino de seu partido e do sindicalismo alemão.

Há exatos cem anos, Rosa Luxemburgo, fundadora da Liga Espartaquista e do Partido Comunista da Alemanha (KPD), era assassinada a tiros pelas Freikorps [1] após ser capturada e espancada pela então organização paramilitar junto com seu companheiro de partido Karl Liebknecht, também espancado e morto.

Rosa nasceu e viveu sua infância e parte de sua juventude na Polônia, então dividida entre os impérios Russo, Alemão e o da Áustria-Hungria. Ainda jovem, a militante polaca e judia fugiu do jugo do Império Russo para morar e estudar em Zurique, na Suíça, onde era permitido que mulheres fossem matriculadas em Universidades. Após cursar Economia, Rosa resolveu se mudar para a Alemanha e ingressar no Partido Social-Democrata Alemão (SPD). Para obter cidadania alemã, casou-se com Gustav Lübeck, com quem teve um casamento apenas de fachada.

Em 1900, Rosa escreve o livro Reforma ou Revolução, polemizando com Eduard Bernstein, dirigente revisionista do SPD, a quem a dirigente comunista acusava de renunciar ao socialismo revolucionário e sucumbir ao reformismo pragmático. Rosa produziu diversos escritos, seja para discordar da visão espontaneista dos anarquistas sobre as greves de massa, seja para polemizar com o revisionismo reformista de alguns de seus correligionários, e mesmo com os rumos da Revolução Russa, concretizada poucos anos antes de sua morte. Entretanto, sua principal obra é, sem dúvida, o livro A Acumulação de Capital, onde discute a Reprodução Ampliada do Capital a partir do pensamento de Marx, apontando os mecanismos do capitalismo para superar seus limites e se manter e expandir.

Sofrendo com o machismo de alguns colegas de SPD, Rosa fundou com Clara Zektin e Louise Kautsky o movimento emancipacionista, unindo a luta comunista e o feminismo em um só movimento. A militância comunista e a oposição à 1ª Guerra Mundial fizeram com que Rosa Luxemburgo fosse presa inúmeras vezes, geralmente sob acusação de desobediência civil e incitação à desordem. Após os deputados do SPD terem votado a favor da entrada da Alemanha na Primeira Guerra, Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht fundam a Liga Espartaquista, convertida nos primeiros dias de 1919 no Partido Comunista da Alemanha. Rosa e Karl foram assassinados por ordens de integrantes do establishment alemão, inclusive alguns membros do Partido Social-Democrata.

Rosa foi assassinada há cem anos, mas seu internacionalismo solidário, sua militância socialista destemida e seu feminismo se mantêm vivos ainda no século XXI.

[1] Freikorps eram grupos paramilitares que surgiram em toda a Alemanha em dezembro de 1918, logo após a derrota do país na Primeira Guerra Mundial.

*André Abreu é pesquisador e mestrando de Geografia na UFF

Etiquetas
Mostrar mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar