Camila Pizzolotto

Entre o lado de lá também é luta de classes

Por Camila Pizzolotto*

Em menos de quinze dias do governo Bolsonaro, as barbaridades ditas por seus ministros e apoiadores não surpreendem. A grande imprensa tem tido bastante trabalho para cobrir gafes, idas e vindas, recuos. A inabilidade e a falta de articulação de Jair e seus ministros tem sido pauta da grande imprensa desde que o governo iniciou seu mandato. A oposição e o cabo de guerra já começaram. É preciso entender o porquê.

A reação de veículos, representantes de frações da classe dominante, como a Globo e a Folha de São Paulo tem encontrado maneira mais refinada. Depois da ministra Damares Alves insistir que meninas vestem rosa e meninos azul, Renata Lo Prete e Jorge Pontual, apresentadora e correspondente do Jornal da Globo respectivamente, apareceram desafiando de maneira irônica os mandos da ministra. Renata aparece de vestido azul e Pontual, de paletó e gravatas rosas, na edição do dia cinco de janeiro. Diversos globais, inclusive o quase candidato à presidência da República Luciano Huck, fizeram postagens em suas redes sociais questionando a fala de Damares. 

A Folha de São Paulo, em seu twitter oficial, vem demonstrando maestria no manejo das mídias sociais para lidar com um governo que recua o tempo todo. Tem ironizado as medidas de Bolsonaro de forma contundente (inclusive postando a letra de “Canção da América” de Milton Nascimento, aquela que começa com “Amigo é coisa para se guardar/ Debaixo de sete chaves”, depois de lançar uma sequência sobre a indicação de um “amigo particular” de Bolsonaro para a gerência de segurança da Petrobrás).

Enquanto isso, a Folha noticia que o governo tem planos de cortar o domínio publicitário para TV aberta das organizações Globo. O que essas reações poderiam indicar? Que essas organizações estão somente insatisfeitas com o começo do governo Bolsonaro? A Folha e a Globo teriam identificado, ainda que tarde demais, o perigo do governo eleito e estariam tomando posição? Estariam a Globo e a Folha se tornando mais democráticas ou até defendendo interesses mais libertários?

Antes de tomar posições precipitadas, enxergar resistência onde não há ou de dividir a realidade entre mocinhos ou vilões, é preciso partir do pressuposto que a luta de classes não é somente entre as classes dominantes e as classes subalternas. A luta de classes também se dá intra classes, ou seja, entre as classes dominantes e as classes dirigentes, entre frações da classe dominante. A classe dirigente é justamente aquela que venceu o embate da hegemonia por ora, uma hegemonia que é também entre as classes que disputam o Estado capitalista.

As respostas jornalísticas e midiáticas de dois dos grandes veículos de imprensa do Brasil indicam que há, internamente, uma disputa entre eles, ou seja, entre o bloco de poder.

Exatamente por isso, as organizações Globo e a Folha de São Paulo não podem ser entendidas como elementos da resistência. Os dois veículos são concorrentes de peso para a direção  da classe dominante brasileira e estão declaradamente disputando o bloco de poder.

Também não podem ser entendidas simplesmente como entidades maquiavélicas, corroborando com aquela velha teoria da conspiração, retratada em tantas charges e desenhos, do cartola capitalista gordo, que fuma charuto, maquinando todas as ações por trás do Estado, manipulando a sociedade e as pessoas como se fossem bonecos.

O Estado capitalista, a partir das organizações que o disputam e o compõem, também no caso brasileiro, não é sujeito, nem ventríloquo. Esse Estado – com essas características e especificidades – condensa relações sociais, como diria Poulantzas, uma “condensação material de relação de forças entre classes e frações de classe (…)”. Condensa, por isso, disputas que estão presentes na sociedade civil e na administração estatal. Condensa desgastes, nuances, de relações históricas e embates de um bloco que, mesmo no governo do PT, esteve à frente das classes dominantes, dominou as comunicações e dirigia culturalmente a burguesia brasileira. Agora, com o governo Bolsonaro, essa fração de classe dá lugar à outra fração desta mesma classe – não à toa vemos a ridicularização da inteligência de Bolsonaro em artigos da Folha de São Paulo o tempo todo, além de um certo desprezo e riso dos trejeitos popularescos de Jair, que tanto fizeram o eleitor brasileiro se identificar. As organizações Globo e a Folha de São Paulo disputam ativamente o Estado brasileiro e o bloco de poder para dirigirem as classes dominantes. Dito isto, é necessária a melhor leitura de conjuntura para a melhor ação. Não podemos cair na análise superficial da realidade entendendo essas organizações ou como resistência ao governo Bolsonaro ou como meros manipuladores de nossos cérebros de massa de manobra. A oposição dos grandes veículos de imprensa ao governo Bolsonaro só poderá a começar a ser entendida quando deixarmos de lado uma concepção dicotômica da história.

*Camila Pizzolotto é doutoranda em História pela uff e militante da APS.

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