Leonel Camasão

É proibido pensar

Por Leonel Camasão*

Os primeiros dias do governo Bolsonaro demonstram que o discurso violento e contraditório do novo presidente não foi apenas arma ideológica de campanha eleitoral. Constitui-se em ação permanente de aterrorização-mobilização de sua base social.

Bolsonaro levou a sério a frase tão batida de que o grande problema, ou a solução de todos os demais, começa pela educação. Não por acaso, dentre as muitas medidas nefastas anunciadas pelo novo governo, os ataques aos setores que produzem informação, conhecimento e educação são os mais notáveis.

As futuras medidas de controle do pensamento social vão muito além do nefasto “Escola Sem Partido”, que é na verdade, a patrulha ideológica dos profissionais da educação. Só é validado o professor  que, “isento”, emite apenas as opiniões permitidas ou aceitas pelo governo.

O ataque à educação vai muito mais além. O novo presidente já declarou que deseja ele mesmo nomear os reitores das universidades federais, ao invés do atual modelo, onde professores, técnicos e alunos votam em quem vai administrar a instituição; a adoção de critérios ideológicos na distribuição de bolsas de estudo de graduação e pós-graduação, assim como as “recomendações” de Bolsonaro filho sobre o que professores devem ou não ensinar.

De um lado totalitárias, de outro obscurantistas, a postura do governo de extrema-direita é pela asfixia e proibição de qualquer manifestação ou pensamento diferente do seu. É por isso que Bolsonaro escolheu as redes sociais como principal canal de manifestação de suas posições, excluindo ou bloqueando profissionais de imprensa que o criticam. É também por este viés que, combinado com o ex-ministro Gilberto Kassab, suspenderam-se as concessões de 130 rádios comunitárias no país em 31 de dezembro último.

O tratamento dado a jornalistas na posse do presidente é apenas o início da tal “nova era” em relação a imprensa. Favoritismo e polpudas verbas publicitárias para emissoras ligadas ao fundamentalismo religioso ou oportunistas de plantão, como SBT, Record e Band. Aos demais, fiquem trancados em uma sala sem janelas, água ou alimentos.

Os indicativos de que nossa democracia corre sérios riscos aumentam a cada dia. Bolsonaro tem pressa: quanto mais rápidas e violentas forem as mudanças que ele pretende impor, maiores as chances delas passarem, justamente pelo atordoamento geral causado por tantos anúncios obtusos e insanos.

A gravidade de toda essa situação, soma-se a indústria de mentiras via WhatsApp organizada por este grupo político e a total omissão das autoridades em punir e investigar esses abusos. Parte considerável da base social Bolsonarista não acredita mais nos fatos, mas sim, em versões cada vez mais absurdas produzidas pelo núcleo duro do governo.

O motorista laranja Queiroz já é dado como “infiltrado do PT” na família Bolsonaro para lhes prejudicar. A histeria, pânico e abundância de informações falsas são armas poderosas para manipular milhões de pessoas numa determinada direção.

A maior de todas as batalhas – sempre deixada em segundo plano por setores importantes da esquerda e dos movimentos sociais – é a batalha da comunicação. O fortalecimento de novos canais de informação continua como uma de nossas principais tarefas na disputa ideológica na sociedade.

Não por acaso, quantos sites, páginas e redes o bolsonaristas e seus aliados criaram nos últimos anos? Eles já compreenderam muito melhor do que nós a centralidade da comunicação na disputa política do século XXI.

É preciso urgentemente investir pesado – política e financeiramente – em canais que possam trazer o outro lado dos fatos, desmentir as fake news, dar transparência e investigar o governo e seus agentes, ordenar os acontecimentos e interpretá-los, como ferramenta fundamental na defesa de nossa frágil democracia.

Uma ditadura de novo tipo está se formando no Brasil, mais violenta, sofisticada e poderosa do que as que a humanidade já conheceu. Podemos juntos derrotá-los, em nome da democracia, da civilização, dos direitos humanos e do conhecimento.

*Leonel Camasão é jornalista, ex-candidato ao governo de Santa Catarina pelo PSOL e mestre em jornalismo pela USFC

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