Editorial

O Dom Quixote da reação

A personagem de Miguel de Cervantes, Dom Quixote, ficou popularmente conhecida por enfrentar moinhos de vento acreditando serem monstros. Que Cervantes nos perdoe pela analogia, mas analisando o discurso de posse do reacionário Bolsonaro, no dia 01 de janeiro, vimos um presidente que ainda parece em campanha e com uma disposição de enfrentar inimigos fantasiosos.

Para Bolsonaro, a sua posse marca o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo e que seu empenho será para acabar com a inversão de valores, o gigantismo estatal e o politicamente correto. Esse delírio anticomunista, que visa criar espantalhos ideológicos contra a esquerda, fazendo associação com o cenário de caos econômico, criado em parte pela crise econômica internacional e em parte pelas políticas de austeridade implementadas desde o segundo mandato de Dilma, são culpa do comunismo. Quando na verdade o que aconteceu foi exatamente o que os ditos mercados receitaram e com muitas críticas da esquerda. A crítica ao gigantismo estatal é outra balela, o Brasil já passou por um desmonte significativo de suas estatais, tendo esse mote só um pretexto para entregar as que sobraram pelo troco do pão a conglomerados internacionais. E sem deixar de fora no discurso, sua grande cruzada moral pelos costumes, que na verdade é contra a diversidade, pelo preconceito e a favor da famigerada família tradicional.

E como existiram monstros imaginários na fala de Bolsonaro. Sem dar nomes aos bois, fez uma crítica aos direitos humanos, como sendo a ideologia que defende bandido e criminaliza os policiais. Ou seja, agora o Brasil que vive estatísticas de homicídios de países em guerra, a polícia vai ter o aval presidencial para matar ainda mais. Como se o problema do Brasil fosse a falta de repressão e encarceramento.

O ponto alto da ideologia é quando ela não se afirma enquanto ideologia, mas como um dado, um fato consumado, ou apenas “como tem que ser”. A tentativa de fazer suas posições passarem por não ideológicas é tão grosseira, que talvez tenhamos a gestão federal mais ideologizada da história do Brasil. Ao afirmar que fará indicações técnicas, indicou para ser o novo coordenador do ENEM, um ex-aluno do astrólogo Olavo de Carvalho, que afirma que Descartes (1596-1650) é o pai da ideologia de gênero ou o novo Chanceler brasileiro que acredita que o aquecimento global é uma farsa, criada pelo globalismo comunista. Aliás, tirando figuras delirantes dessa nova direita brasileira e o militares, o seu governo é recheado de figurinhas do que tem de mais velho da política brasileira, e também já se articula apoio do PSL a reeleição de Rodrigo Maia (DEM-RJ) para presidência da Câmara, contrariando a promessa de governar sem conchavos políticos.

O bate cabeça entre ministros e as tuitadas do presidente dão uma certa impressão de que tirando as linhas gerais vender tudo que é estatal, preservar privilégios de militares, criminalizar movimentos sociais, subserviência canina aos E.U.A, impor um moralismo fundamentalista cristão, acabar com a políticas contra as desigualdades sociais, não se tem muita ideia do que fazer com um brinquedo do tamanho do Brasil na mão. Um deputado que sempre foi do baixo clero da Câmara, longe dos grandes debates nacionais, sendo protagonista apenas como comentador de assuntos polêmicos no programa da Luciana Gimenez, se cerca de tudo que cheira a extrema-direita e anticomunista no governo e a parte realmente operativa é a tríade Paulo Guedes-Sérgio Moro-Onyx Lorenzoni. Mas não nos enganemos, os retrocessos vão sair de todos os poros do governo Bolsonaro. E tudo será feito em nome do Brasil, para não permitir de que nossa bandeira nunca seja vermelha, para garantir o direito de propriedade e o direito do cidadão de bem se defender. Seu governo será uma eterna campanha eleitoral, e de caça ao espectro do comunismo que ronda o Brasil e ao espetá-lo, na verdade acerta os direitos sociais do povo brasileiro, como direitos trabalhista e previdência. Mas na verdade, ao contrário do Dom Quixote, que imaginava matar monstros, Bolsonaro sabe muito bem o que está acertando e esse é seu objetivo.  

Etiquetas
Mostrar mais

Artigos relacionados

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fechar