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Pintando a universidade com as cores do povo: uma homenagem à Revolução Cubana

Por Maykon Santos*

Acabamos de celebrar 60 anos da Revolução Cubana. Sem a menor dúvida, o acontecimento histórico mais importante do século XX na América Latina. E em 2018, Cuba esteve no centro do debate político em nosso país devido ao fim do convênio entre a ilha e o Brasil no Mais Médicos. Convênio esse que revolucionou comunidades carentes de norte ao sul do país.

Para entender como uma ilha com 11,5 milhões de pessoas consegue enviar para um único país (a OMS recomenda um médico para cada mil habitantes. Cuba deveria ter na ilha, então, cerca de 11 mil médicos) 8 mil médicos, precisamos retroceder para os primeiros anos da Revolução. No mais, Cuba tem cerca de 90 mil médicos, metade atuando fora do país. Isso significa 8 médicos a cada mil habitantes. Para se ter um ideia, a Alemanha, Noruega e Suécia tem 4 médicos a cada mil habitantes.

“A Universidade precisa ser pintada de preto, de mulato, de trabalhador, de camponês”

A frase acima foi dita por Che em dezembro de 1959, após ser nomeado professor Emérito da Universidade de Santiago. Longe de tentar escrever algo a altura do papel Cuba na luta pela transformação da sociedade latino-americana, este pequeno texto visa demonstrar como esse país cumpriu a utopia proferida por Che: transformar a universidade Cubana com as cores do povo.

Antes do triunfo da revolução cubana, em janeiro de 1959, 23,6% da população do país era analfabeta e, entre a população rural, o índice era de 41,7%. As universidades cubanas, todas públicas, eram um bastião das classes médias e altas, consequentemente branca e racista.

Che sabia disso e ao pronunciar suas palavras, o fazia declarando que para o sucesso da revolução cubana, a universidade teria que ter um fim social e caminhar no mesmo espírito da revolução cubana. O que, na essência, significava dar ao povo cubano condições dignas de vida. Para isso, era necessário formar quadros capacitados para a ilha escapar da dependência tecnológica estadunidense, médicos, professores entre outras áreas essenciais para o planejamento da Cuba socialista.

Cuba não perdeu tempo! Já em 1961, dois anos após o triunfo da revolução, se realiza uma campanha nacional para alfabetizar a população e Cuba é declarado, anos depois, o primeiro país do mundo livre de analfabetismo.

Em janeiro de 1962 é feita uma reforma universitária na ilha, que entre outras coisas, definiu a educação como sendo um dever do estado, totalmente gratuita e democrática; estruturou as matrículas nas universidades de acordo com as necessidades do país; estabeleceu uma relação do estudo com o trabalho, princípio básico de toda a estrutura de Cuba, do ensino infantil até a universidade.

No caminho de universalizar o acesso do povo aos bancos da universidade, Cuba cria em 1972 uma modalidade de ensino superior exclusiva para os trabalhadores. Os cursos são semipresenciais, com um regime especial: mais ou menos a cada 21 dias os alunos vão à universidade e permanecem de 3 a 5 dias. Continuam, por um contrato com os patrões, ganhando seu salário enquanto estão em aulas. As ofertas dependem da demanda. Não há limite de idade. A duração é flexível, pois devem apresentar a mesma quantidade e qualidade de disciplinas que os cursos regulares. O trabalhador faz os cursos relativos ao seu trabalho.

Após sobreviver ao fim da URSS e aos difíceis anos 90, Cuba teve que se reinventar com a criação do Programa de Universalização do Ensino Superior, em 2001, após um detalhado estudo das causas do abandono e do não acesso de muitos cubanos ao ensino superior no período de crise da década de 90. O trabalhou apontou duas causas principais na queda do número de matriculados em universidade em Cuba: a distância das universidades para muitos cubanos e a necessidade de trabalho, que impedia que os jovens cursassem universidade.

Assim, Cuba criou os SUM’s (Sedes Universitárias) em cada município cubano. Cada SUM está ligada uma universidade cubana e oferece cursos semipresenciais, que também oferece uma bolsa auxílio em dinheiro para que o aluno conclua seu curso. Os SUM’s criaram a necessidade de uma grande ampliação das vagas na educação superior em Cuba, acrescida de intensiva campanha de mobilização. E foram um sucesso! As matriculas no ensino superior de Cuba passaram 144.972 em 2001 para 606.323 em 2006. Hoje são cerca de 800 mil.  Praticamente todo jovem cubano em idade de cursar o ensino superior está matriculado em uma universidade cubana. Nas palavras de Fidel Castro: “Hoy, Cuba es una grande escuela”.

Hoje Cuba tem uma média de estudo de 12 anos, próximo aos 12,5 dos EUA. O melhor índice na América Latina.

Sem contar a solidariedade internacional cubana, que garante acesso à formação em nível superior de homens e mulheres vindos de toda a América. Até este ano, mais de 25.000 estrangeiros haviam se formado em universidades cubanas, a grande maioria com bolsa integral do Estado cubano. Através desta formação e das misiones cubanas espalhadas por vários países africanos e latino-americanos, só na Venezuela mais de 26 mil médicos cubanos apoiam as misiones locais, Cuba já salvou milhares de vida.

Além disso, como a educação cubana deve ter uma função social, não há taxas de concentração em determinados cursos, o que propicia à população cubana altos padrões de vida como uma relação de um médico para 128 habitantes; relação de professor/aluno de 12,8 no ensino fundamental, 12,0 no médio e 5,6 no superior; taxa de mortalidade infantil de 6,2 para cada mil nascidos vivos; erradicação de várias doenças como poliomielite, difteria, tétano, rubéola, meningite e sarampo. Cuba investe 13% do PIB em Educação, um dos maiores percentuais do mundo.

Passados quase 60 anos da fala de Che, Cuba cumpriu este seu desejo ao conseguir pintar a universidade cubana com as cores de seu povo!

* Maykon Santos é professor das redes públicas municipais de Cubatão e Santos, historiador, militante do Círculo Palmarino e do PSOL e em defesa da educação pública de qualidade. Autor da página Professor Maykon Santos no Facebook.

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