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A teoria das cores de Damares

Por Carolina Peters*

Há uns anos, uma amiga querida, mãe de crianças gêmeas, me conta uma história. Como não encontrava uma gama ampla de roupinhas de bebê no mesmo modelo e cor diferentes, comprou pares de roupinhas rosa e azul, o disponível no mercado para seu orçamento, para, inclusive, conseguir, no caos dos primeiros dias de maternidade, identificar e distinguir suas crias. Um belo dia, ela desce para passear com as gêmeas, em rosa e azul, pelo bairro onde mora. Eis que uma senhora – que, agora podemos até
cogitar, talvez fosse a própria ministra – para em frente ao carrinho de bebê e exclama entusiasticamente: “Que lindo, um casalzinho!”. Minha amiga, com muita delicadeza, agradece o elogio, mas informa que se tratam de duas meninas. Ora, de forma alguma! E logo a desconhecida se põe a contradizer a mãe, afirmando que era óbvio se tratar de um casal, pois um bebê usava rosa e, o outro, azul. A discussão absurda se estendeu até que, cansada, a mãe põe um ponto final:

– Minha senhora, eu pari essas crianças! E se estou dizendo que são duas
meninas, é porque são!

As pessoas sérias e razoáveis, que até ontem se perguntavam que raios é essa tal “ideologia de gênero” de que tanto falam os fundamentalistas, acabam de ver seu conceito sintetizado no bizarro vídeo da ministra Damares que correu as redes sociais: trata-se de uma ideia falsa de que há uma distinção rígida e inequívoca, de origem natural (ou, melhor ainda, origem divina) entre homens e mulheres. Diferença está que acarretaria inevitavelmente em uma hierarquia, conferindo aos homens poder sobre as
mulheres, e que, além de outras coisas, deve ser constantemente reafirmada nas condutas sociais da população, estabelecendo, por exemplo, simbologias (rosa para meninas e azul para meninos) e posturas (meninas devem se portar como princesas), tolhendo desejos (mulheres devem aspirar ao casamento heterossexual e à maternidade, sexo é para a procriação).

Em resumo: uma ideia falsa, mas perigosamente capaz de dar uma resposta assertiva, compreensível e apaziguadora para uma parcela considerável dos brasileiros que presenciam ensaios de mudanças culturais e resistência social, promovidos particularmente pelos movimentos de mulheres, em meio a uma profunda crise econômica, cuja principal aposta de reversão (para o capital, não para a humanidade, que fique explícito) recai pesadamente sobre a superexploração do trabalho das mulheres (produtivo e reprodutivo, remunerado ou não). O primeiro ponto é autoexplicativo, embora não custe lembrar que foi o avanço das ideias feministas e a rejeição das mulheres brasileiras que impediram uma vitória bolsonarista no primeiro turno. Sobre o segundo aspecto, recordo apenas alguns pontos que me chegaram imediatamente à memória (há muitos outros, certamente): as primeiras medidas de ajuste fiscal, tomadas ainda durante o segundo governo Dilma, tinham como um dos principais eixos cortes e modificações nas pensões das viúvas. Com o golpe de 2016 e a chegada de Temer ao Planalto, vieram a ampliação da terceirização, modalidade de contratação na qual há maioria de trabalhadoras mulheres, fragiliza ainda mais suas condições de trabalho e de organização; as propostas de contrarreforma previdenciária, voltando sua mira especialmente sobre o professorado, trabalhadores e trabalhadoras rurais, além da querela em torno da diferença nos tempos de contribuição de homens e mulheres, importante reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado das mulheres pelo Estado brasileiro; a contrarreforma trabalhista, que na ânsia de Paulo Guedes e Bolsonaro ainda culminará na completa supressão da CLT, oficializando a negligência com mulheres e crianças (afinal, ao permitir que grávidas sejam colocadas em risco para a ganância dos empregadores, o recado é claro: a gestação e a criação das crianças são responsabilidade única da mulher, ela que tome a decisão aviltante de se submeter ou ficar sem emprego), jogando as trabalhadoras domésticas em ainda maior instabilidade, enquanto seu contingente aumenta com a crise econômica, e mais uma longa lista de atrocidades; a retração do salário mínimo…

A tresloucada teoria das cores é o de menos, e a própria ministra fez questão de se fazer entender quando, na manhã seguinte à divulgação do vídeo, disse que meninos e meninas, homens e mulheres, podem vestir qualquer cor. Não diz respeito à indumentária que usam as crianças, mas a papéis sociais que se busca consolidar. Nesse aspecto, a “nova era” de Damares não é uma mera cortina de fumaça azul e rosa para desviar a atenção das “reformas mais importantes”. É parte de uma ação orquestrada de repressão a movimentos sociais pulsantes e disputa da população para posições conservadoras e conformistas, favoráveis, justamente, às reformas e ao desmonte completo do Estado. Não é fumaça, é fogo!


Carolina Peters é militante feminista.

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